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ENTREVISTA | MARCIA CAVALLARI

“Os brasileiros desejam mudança, mas não a veem representada na oposição”

A diretora do Ibope diz que o papel do Brasil como anfitrião da Copa é decisivo para a população, que não é só vítima da corrupção, mas também cúmplice

Marcia Cavalllari, presidente do Ibope Inteligência
Marcia Cavalllari, presidente do Ibope Inteligência

Marcia Cavallari, CEO do Ibope Inteligencia, é talvez uma das pessoas que mais conheça o que se passa pela cabeça dos brasileiros. As ambições, as expectativas políticas e até o caráter da sociedade brasileira ficam expostos em cada entrevista feito pelo Ibope, um dos principais institutos de pesquisas do país, onde Cavallari começou a trabalhar há mais de 30 anos. “O brasileiro não é vítima da corrupção, ele é cúmplice”, diz, sem titubear, sobre um dos temas mais caros para o país. São as respostas em entrevistas de rua, ou nas salas do Ibope ao longo de três décadas, que fizeram a estatística, e cientista política chegar a essa conclusão.

Na seara política, Cavallari também costuma ser precisa. Quatro anos atrás, ela sustentava que um sentimento de continuidade dos eleitores deveria premiar na presidência quem mantivesse as conquistas sociais do governo de Lula. Venceu Dilma Rousseff. Hoje, o sentimento é outro, de mudança. Mas, ela frisa que a oposição ainda não se apropriou dessa bandeira, portanto, o resultado da eleição ainda é incerta. “Por enquanto, as pessoas não estão vendo na oposição quem possa representar essa mudança”, afirma. Uma das obsessões do país é mesmo a saúde, que foi mote das manifestações populares no ano passado. “Os protestos foram contra todos os políticos”, observa.

A especialista admite que este é um dos anos mais atípicos para o país, com incertezas e inseguranças na economia, na política, e claro, com a Copa do Mundo. Por mais tormentos que o Mundial esteja provocando agora, a grande angústia da população passa a ser outra. Não quer passar (mais) vergonha com a falta de estrutura para receber os visitantes. Isso pode definir a sorte da presidenta Rousseff, em 5 de outubro, quando as eleições serão realizadas.

Pergunta: Em 2010, havia um sentimento de continuidade pelas pesquisas de opinião pública que vocês desenvolviam naquele período, e hoje qual é o sentimento mais preponderante?

Resposta: Agora as coisas estão mais complicadas. Há muita variável fora de controle ainda.

 P. Mas o sentimento preponderante é a o de mudança, certo?

R. Sim, há um desejo de mudança. O problema é que, por enquanto, as pessoas não estão vendo na oposição quem possa representar essa mudança. Nas pesquisas que a gente fez, não vemos que eles se apropriaram desse sentimento. A Dilma ainda leva uma vantagem.

P. Por que a oposição ainda não ocupou esse espaço?

R. Tanto o Aécio Neves, quanto o Eduardo Campos ainda não são totalmente conhecidos da população. Esse ano também tem um calendário eleitoral bastante complicado. Todo ano de eleição presidencial coincide com a Copa do Mundo. Mas como está sendo realizada aqui, o clima do país muda. Vão chegar as delegações, vai estar aquela convivência com outras pessoas e tal, então as pessoas vão estar focando nas questões eleitorais somente depois que acabar a Copa, a partir de 13 de julho. A campanha, então, acontecerá entre o final de julho, agosto e setembro. Vai ser uma campanha muito curta, o que dificulta as ações. Agora, é o início do horário eleitoral gratuito na televisão (no dia 19 de agosto) o momento no qual todos os candidatos passam a ser conhecidos de uma forma mais homogênea pela população. Hoje, os candidatos mais conhecidos levam vantagem nas pesquisas de intenção de voto.

P. Qual é o papel da Copa nesta eleição?

R. Vai depender muito do que vai acontecer durante o evento. Quero dizer: a gente vai passar vergonha? Tudo vai ser entregue? Vai estar tudo remendado? Não vai? Isso é algo que a gente vê. A população, a opinião pública não quer passar vergonha com a Copa. E aí tem as manifestações que a gente também não sabe se vão voltar.

P. As manifestações jogam contra quem?

R. Contra todos os políticos. A Dilma, por exemplo, assim como todos ocupantes de cargos executivos, governadores e prefeitos, caíram no fundo do poço. Depois foram se recuperando. A Dilma não voltou ao patamar de antes, mas alguns governadores voltaram. Uns se recuperaram mais, outros menos, outros vão ter mais dificuldade de conseguir se recuperar.

P. É o caso do próprio Campos, que retomou seus índices anteriores, não?

R. O Campos foi um dos poucos, assim como o Beto Richa (governador do Paraná, que é do PSDB). Uns caíram e voltaram, outros não voltaram ao patamar anterior, e outros estão se recuperando mais devagarinho. Por isso que eu falo que é contra todos. As obras da Copa também não são uma responsabilidade só do governo federal. Não é o governo federal que está construindo os estádios, por exemplo, são os governos estaduais. E a mobilidade urbana. É dinheiro do governo federal, mas também tem as prefeituras que estão à frente. É assim, se as coisas não funcionarem, o Brasil passar vergonha porque não conseguiu fazer uma Copa direito, e se houver atos de violência, ou de segurança pública com turista...

P. Por isso já estão falando em 100.000 para cuidar da segurança da Copa,numa tentativa de blindar os turistas?

R. Eu vejo o governo mudando totalmente o discurso da Copa. Antes estava se falando do legado que a copa ia deixar, algo que não está tão claro para as pessoas ainda. Quando a gente faz a pergunta se a Copa vai trazer mais benefícios ou não, as pessoas percebem sim benefícios, mas não é uma maioria absoluta. Está reformando aeroporto, está fazendo mobilidade urbana. Agora a obra incomoda, atrapalha, vai causando uma irritação. Na hora que se inaugura que tudo funciona e está tudo bem, rapidamente isso você esquece. É igual reforma de casa, está lá sofrendo durante a reforma e a hora que acaba passa rapidinho.

P. Tem alguns temas novos que estão na pauta para o brasileiro? Seja liberação da maconha, ênfase em cultura... Estamos um pouco mais sensíveis para assuntos coletivos, ou prevalece o brasileiro conservador que repete que “bandido bom é bandido morto”?

R. Vide o último episódio da professora né? Do mister rodoviária. (Uma professora universitária do Rio de Janeiro postou uma foto numa rede social de um rapaz de chinelo no aeroporto, com o comentário “Aeroporto ou rodoviária? Cadê o glamour?”, que gerou bastante polêmica pelo preconceito com o jeito de se vestir do rapaz). Ainda temos os ricos, que são ricos e estão lá (mostra com a mão alguém no alto). Aí tinha um bolo de classe média e uma classe mais baixa. Esta última chegou aqui (mostra com as mãos que a classe baixa está quase na mesma altura da classe média).

P. É a tal da demofobia?

R. É um pouco isso, né? Tem um conservadorismo que acredita que “bandido bom é bandido morto” e que também pensa: “Eu tenho, mas os outros não podem ter.” O outro dia tive uma reunião com pessoas dos movimentos raciais. Nossa! Eles falaram umas coisas, eu não acreditava que acontecia isso no dia a dia aqui no Brasil. Racismo mesmo. Uma das mulheres presentes me disse: “a gente vive isso na pele todo santo dia.” E o Brasil não é visto assim como um país racista. Então, sobre a pergunta se há uma bandeira nova, a conclusão é que o brasileiro continua conservador. A maioria é conservadora. Então se você pergunta se ele é a favor da maconha ele não será. Vai falar que é a favor de redução da maioridade penal.

P. E a corrupção? Aumentou o nível de intolerância?

R. Aumenta a conscientização. Eu não sei se chega a mudar alguma coisa. Todas as pesquisas que a gente fez sobre corrupção, a gente conclui que o brasileiro é cúmplice da corrupção, não é vítima da corrupção. Porque se ele também puder, ele também vai cometer atos de corrupção.

P. Isso não muda?

R. Dar caixinha para o guarda para não ser multado... Isso é uma coisa de valor... Pode ter mais cobranças, mais consciência. Outro dia estava esperando para lavarem o meu carro. Enquanto isso, ouvi pessoas ao meu lado comentando: “você vê, o moleque fez não sei o que e aconteceu tudo isso com ele. Agora esses políticos que estão aí roubam, fazem o que fazem, e não acontece nada com eles”. Ou seja, começam a conversar mais. Mas não sei se isso, sozinho é capaz de mudar essa condição de cúmplice para vítima. Não é algo imediato.

P. De quatro anos pra cá, há algo que esteja em processo de transformação?

R. Transformação eu acho que ainda não. Está ainda no processo. Agora, é um momento em que aquilo que você já conquistou você já conquistou. Então não se aceita retrocesso. Quando a economia, por exemplo, vinha num ritmo, e dá uma diminuída no ritmo, isso se torna um problema. Se não tem inflação e ela começa a aumentar, como foi o caso do tomate no ano passado (que chegou a subir mais de 200% no início de 2013, e depois recuou) aí não pode. A gente já conquistou um país sem inflação, estava crescendo e se desenvolvendo. Se tem um retrocesso, daí a coisa vai ficar feia.

P. Este ano deve-se discutir a mudança da fórmula do reajuste do salário mínimo (reposição da inflação, mais o porcentual do PIB de dois anos antes), que garantiu um ganho de renda importante. A alteração do cálculo pode ser um foco de insatisfação?

R. Pode, porque as pessoas consideram que as evoluções, os avanços ocorridos são conquistas. Conquistas que não vão podem voltar para trás. Elas estão preocupadas como é que a gente avança mais. Como é que a gente faz este país crescer, como a gente faz ter educação e saúde de qualidade, segurança pública, menos violência. As pessoas estão querendo esses avanços. Saúde, aliás, sempre é um problema no Brasil. Sempre esteve entre as principais áreas problemáticas. Se não era primeiro, era segundo. Agora, há muito tempo vem sendo o primeiro e hoje em todas as pesquisas que fazemos, seja municipal, estadual ou nacional, saúde é o principal problema disparadamente longe de todos os outros.

P. Na frente de segurança inclusive.

R. Com a economia e a inflação resolvidas, saúde assume uma importância maior. É curioso porque quando você faz as pesquisas com quem usa o serviço publico de saúde, a avaliação do serviço recebido é positiva. O grande problema é a demanda. É eu conseguir marcar a consulta, eu conseguir fazer a cirurgia, eu conseguir fazer o exame. A média de espera para ser atendido é muito grande. Três meses, no caso de uma consulta. Um procedimento um pouco mais complicado vai para seis meses. Essa foi uma pesquisa para São Paulo.

P. É generalizado no país?

R. Temos visto uma diferença grande, desse clima todo que a gente está falando dos grandes centros, para o interior. No interior do país está muito mais positivo do que os grandes centros das capitais.

P. Mais positivo como?

R. Nas avaliações que fazem da satisfação. O nível de satisfação é maior com a vida, a avaliação de Governo Dilma é mais alto... Como grandes centros, considerando as nove regiões metropolitanas do Brasil, as maiores, São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Salvador, Recife, Fortaleza e Brasília, esses representam um terço do país. E o interior, que é praticamente dois terços, está mais satisfeito, faz uma avaliação mais positiva dos governos. É nos grandes centros que está o problema maior. É onde estão localizados os protestos, as manifestações.

P. Se um foco da preocupação importante é a saúde, isso pode beneficiar, por exemplo, o Alexandre Padilha, candidato ao Governo de São Paulo, que foi ministro da Saúde e esteve à frente do programa Mais Médicos?

R. Se e as pessoas perceberem algum efeito positivo, pode favorecer. Mas tem que ter essa percepção de que a ação trouxe resultados. Acho que ainda não deu tempo de ver isso.

P. Como o desejo de mudança afeta as pretensões de reeleição da presidenta?

R. Tem uma parte que fala em mudança, mas quer que a Dilma continue lá. “Eu quero que ela mude, eu não quero que ela continue desse jeito que está.”

P. Não é um contrassenso um partido que sempre procurou se diferenciar por essa preocupação social, estar sendo cobrado exatamente pela falta de investimento no social?

R. Acho que primeiro o governo se preocupou até então o partido dos trabalhadores nessa coisa de tirar da miséria. Fez a parte da mobilidade econômica, para que as pessoas tenham acesso aos bens materiais. Agora vem um segundo capítulo. Não é mais só tirar da pobreza para comer. Por isso esses temas sociais começam a aparecer. É só a economia não degringolar. Senão, ela volta a ser o número um na lista de prioridades.

P. Este ano a economia tem tudo para jogar mais difícil. As exportações em queda, volatilidade dos mercados e problemas com o setor de energia. O que pode acontecer?

R. É, os sinais não são tão positivos. E a economia sempre vai ser o drive principal de uma eleição presidencial. Ela nunca pode ser descuidada. Se as coisas vão bem, em teoria, o governante em questão, incluindo os candidatos a governo dos Estados, está saindo com vantagem.

P. Este ano ninguém tem certeza de nada?

R. Não tem porque tem muitas variáveis fora do controle absoluto.. Tem muita incerteza na economia, sobre a infraestrutura da construção da Copa, se as manifestações vão se dar ou não... O brasileiro não quer é passar vergonha. De ter manifestação, de ter violência, de acontecer acidentes nos estádios por obras mal feitas.

P. Os preços estão subindo com a Copa, como no caso do Rio de Janeiro. O que nos resta?

R. No Brasil os preços sempre foram absurdos. Todo mundo viaja para comprar fora porque os preços aqui são muito altos. Mesmo turista que vem pra cá, acha o Brasil um absurdo de caro. Está mais ainda porque perdeu a noção, perdeu essa referência.

P. O brasileiro colabora para esses preços altos com a cultura do consumismo?

R. É, o brasileiro tem isso. Na Europa o sujeito fica com o mesmo carro dez anos. Ninguém fica nessa coisa de trocar de carro todo ano, ou a cada três anos, todo ano tem que trocar o carro. Ou trocar o celular. A gente tem essa coisa consumista. Você vê, voos que voltam dos EUA voltam com tudo e mais um pouco dentro. Houve até uma seleção brasileira (de 1994) que foi e comprou um monte de coisa nos EUA. Os jogadores vieram até com geladeiras.

P. Estamos falando praticamente de todas as coisas negativas na sociedade brasileira. O que de bom está aparecendo? O próprio fato de ter saúde como prioridade, não demonstra que a pobreza entrou na agenda?

R. Essa consciência coletiva não tem não. É fato que as estatísticas mostram que a gente tem essa diminuição lenta, mas real de desigualdade, diminuição no número dos 10% mais ricos comparando com os 10% mais pobres, há uma diminuição desse indicador, de fato. Das conquistas que as pessoas percebem, tem ainda o pleno emprego. Quando a Europa e os EUA estavam na crise, a gente “não estava”. Mas aí também tem uma questão estrutural. Hoje você vê muito mais gente saindo de São Paulo para outros Estados, do que o contrário, para ocupar vagas que estão aparecendo para gente qualificada. Em pesquisas, ouvimos isso. “Agora que aqui tem oportunidade, a gente não está preparado, vem gente de fora ocupar. Vem gente de São Paulo, Rio, que tem qualificação adequada para as vagas que estão surgindo. Então, também tem uma demanda por formação, do primeiro emprego, essa coisa do jovem.

P. Em quais Estado há essa percepção?

R. Os da região Nordeste e Norte. Se você olhar o crescimento do país dividido por região, o crescimento foi maior lá.

P. Mas quais são as percepções positivas do brasileiro?

R. A coisa boa é que o Brasil sempre ouviu dizer que é o país do futuro, então agora nesse momento que a gente está com estabilidade e avanços da mobilidade econômica , as pessoas pensam: “bom, está chegando esse futuro, mas como é que ele caminha mais?” Houve uma evolução. A gente está num crescente. As pessoas percebem que é a continuidade dos Governos. Não do governante, mas dos governos. É um valor importante.

P. Para construir um projeto para o país?

R. Para construir um futuro, o crescimento. Passa a ser um valor um candidato que consiga ver o que o outro fez e dê continuidade àquilo. Não pode falar “vou abandonar este projeto e vou fazer o outro para por a placa com o meu nome.” Isso as pessoas já não querem mais porque ela já percebeu que ela ganha quando tem essa continuidade..

P. Nesse sentido, o discurso do Campos condiz mais com essa expectativa? Porque ele toma o cuidado de dizer “avançamos sim, eu mesmo ajudei a eleger este governo e apoiei todas essas mudanças mas queremos mais.”

R. Esse discurso é o que as pessoas estão querendo. Mas e daí, como é que avança? Às vezes é o ritmo. Tá, mudou, agora parou. Então tem que mudar para acelerar mais. A gente vai ter que entender ainda mais nessas próximas pesquisas como é que essa expectativa mudança. As pessoas estão querendo de fato o que com essas mudanças? Quer mudar todo o Governo ou não.

P. Vamos supor que a gente viva uma semana tão marcante, como foi a dos protestos de junho ao longo deste ano. O que acontece?

R. As manifestações de junho passado tiveram esse efeito que você está falando, mas se perdeu quando começaram a ação dos black blocs, do vandalismo, do quebra-quebra e isso fez com que a grande maioria das pessoas, as que querem se manifestar em causas legítimas, no ponto de vista delas, se inibiu. Duvido que a gente consiga ter manifestações com aquele tanto de gente que juntou nas de junho porque agora todo mundo já pensa: os vândalos, os quebra-quebras estão no meio. Não tem mais tanto apoio popular quanto antes.

P. Estão esvaziadas?

R. As pessoas estão se perguntando também: do que adiantou as manifestações de junho? O que se conseguiu depois delas? O que mudou? Por si só isso perde força porque desviou o caminho legítimo da manifestação que era a busca de saúde de qualidade, educação de qualidade, transporte de qualidade. Se quebra a lojinha do seu Zé, que é um igual a ele que está lá se manifestando, ele fala “pô, eu estou sofrendo para conseguir o que eu tenho, o outro vai lá...” então não quer fazer parte disso.

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