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A greve dos caminhoneiros como catarse da insatisfação social?

Paralisação revelou que não existem atalhos para a democracia e para o diálogo, e que nenhuma solução autoritária ou violenta tornará mais próspero o país

Greve dos Caminhoneiros 2018
Paralisação de caminhoneiros no Rio de Janeiro, na terça-feira. AP

Algo ficou claro depois da greve dos caminhoneiros que colocou o Governo de joelhos e paralisou o país como talvez nunca antes: perderam os que advogavam uma solução militar para a crise política e social do Brasil, já que puderam escutar, pela boca dos mais altos comandantes dos três corpos das Forças Armadas, que eles estão com a Constituição e que só atuarão no marco da democracia.

Os militares nem sequer se sentiram tentados pelo canto de sereia das adulações de uma sociedade que majoritariamente lhes pede que ponham ordem no país, e deixaram claro que os tempos mudaram e que hoje, no Brasil, todos devem ser fiéis à Constituição.

Isso representa um desafio ainda maior, já que os descontentes com o Governo sabem que não podem contar com soluções diferentes das que os próprios militares lhes ofereceram: mudar as coisas nas urnas, com o voto, como em todas as democracias. E o voto está batendo à porta. Se a sociedade acabar escolhendo os que sabidamente traíram a confiança de quem votou neles, insistindo no tosco e perigoso slogan de que “roubam, mas fazem”, terá sido perdida a última possibilidade de regeneração política.

A greve, afinal, revelou que não existem atalhos para a democracia e para o diálogo, e que nenhuma solução autoritária ou violenta tornará mais próspero um país ao qual não faltam recursos materiais nem espirituais para ressurgir das cinzas do seu desalento.

Os caminhoneiros conseguiram o paradoxo de obter o aplauso de 87% dos cidadãos prejudicados pela greve. Como explicar isso? Talvez porque foi mais do que uma greve. Foi uma catarse coletiva, uma válvula de escape para todas as críticas acumuladas pelos cidadãos contra os governantes, contra a corrupção crônica dos políticos, vista como uma peste nacional.

Uma catarse para tentar se livrar, no símbolo do caminhoneiro sacrificado, das insatisfações acumuladas, da agonia cotidiana sofrida com os péssimos serviços públicos, da teimosia do Governo em apertar cada vez mais a carga tributária dos que trabalham, enquanto é incapaz de enfrentar os privilégios dos intocáveis.

Que não se iludam os partidos. Que desistam de capitalizar a greve catalogando-a com velhas etiquetas políticas. Foi só o clamor de uma sociedade que se encontra órfã de líderes confiáveis, após assistir à queda de seus deuses do passado, descobrindo-os nus.

Se alguma conotação política teve esta greve apoiada maciçamente pela sociedade foi a tentação de cair na miragem de que a violência seria capaz de trazer os dias melhores de volta. Daí a atração pelos políticos duros, a paquera com os militares e a simpatia pelos extremistas. O que prevaleceu numa greve de contornos confusos e contraditórios foi o desejo de uma mão de ferro, seja branca, negra ou vermelha, capaz, como dizia um dos manifestantes, “de arrumar este caos de país”.

Que não esqueçam os políticos, às vésperas de eleições que se apresentam a cada dia mais sombrias e incertas. Que não se esqueçam da capacidade de raiva que uma sociedade pode concentrar quando se sente traída. Ainda haverá alguém neste país e neste momento com capacidade de mobilizar o melhor da sua gente, rica em sentimentos e generosidades, mas que exige reconhecimento do seu direito à justa ira social?

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