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Bloqueios arrefecem e Brasil tenta voltar à rotina com insatisfação à flor da pele

Estradas voltam a ter circulação, mas Governo ainda contabiliza mais de 500 pontos de protestos.

Filas gigantescas em SP, PE e Rio para tentar abastecer. Transtornos ainda marcarão feriado

Greve dos caminhoneiros 2018
Moradores de Brasília posam com galões após finalmente conseguirem gasolina. REUTERS
Brasília / Recife / São Paulo

Após nove dias de greve dos caminhoneiros, o bloqueio total de estradas pelo país finalmente arrefeceu, ajudando as cidades brasileiras a entrar numa lenta rota de normalização do abastecimento, especialmente de combustível. Mas a paralisação iniciada pelos caminhoneiros que encurralou o frágil e impopular Governo Michel Temer segue mostrando dimensões inesperadas: mesmo com os condutores iniciando a desmobilização pelo país, cresceu entre segunda e terça-feira o número dos pontos de concentração de manifestantes, de acordo com o balanço das autoridades. Segundo a Polícia Rodoviária Federal, subiu de 594 para 616 os focos de protestos que passaram a ser protagonizados não apenas por caminhoneiros e suas reivindicações, mas também por defensores de outras pautas políticas, que incluem o combate à corrupção, gritos pelo fim do mandato de Michel Temer até mesmo o clamor por uma "solução militar" para crise.

Segundo o balanço do Ministério da Defesa, na terça-feira ressurgiram três bloqueios total de rodovias, algo que tinha acabado ainda no fim de semana. No fim da tarde de terça-feira, estradas de Goiás, Ceará e Minas Gerais registravam interdições totais, de acordo com a Polícia Rodoviária Federal. Num sinal da nova dinâmica dos protestos, as autoridades também informaram que sete manifestantes haviam sido presos em Bacabeira, no Maranhão. Eram pessoas sem vinculação a nenhum sindicato que queriam impedir a passagem do comboio de caminhões que era escoltado por policiais rodoviários e militares. O grupo foi reprimido com gás lacrimogêneo. Em outras três cidades houve registros de confrontos com pessoas que não faziam parte do movimento dos caminhoneiros, mas neste caso não houve nem prisões ou feridos: Rio Branco (no Acre), Seropédica e Barra Mansa (ambas no Rio de Janeiro). Os casos se juntaram a relatos na imprensa de que grupos de condutores que prometiam não se desmobilizar ameaçavam quem o fizesse.

Um dado considerado positivo pelo Governo foi o de que foi possível estabelecer três corredores para livre circulação de caminhões: Betim (MG) – Brasília (DF), Rio Branco (AC) – Vilhena (RO) e Caracaraí (RR) – Boa Vista (RR). Além disso, houve um aumento no fluxo de combustível transportado. Na segunda, apenas 13% dos caminhões-tanque previstos para circular nas estradas haviam conseguido chegar aos seus destinos. Nesta terça, chegou a 35%.

Ainda assim, a Associação Nacional do Petróleo (ANP) ainda previa uma semana de prazo para que o abastecimento se restabelecesse plenamente em todo o país -ou seja, o feriadão que começa na quinta-feira seria atravessado com transtornos ainda. Recife era um retrato do vivido em outras grandes cidades, como São Paulo e Rio, que apresentavam longas filas de carros em busca de combustível. Ao receber a notícia de que um posto na zona oeste tinha estava abastecido, o estudante Enoque Guthierrez, 23, correu para lá. “Minha mãe passou aqui a pé e disse que tinha”, disse ele na capital pernambucana. “Aí eu vim correndo”. Mas o posto já estava fechado novamente, sem previsão de reabastecimento. Ainda assim, a fila de carros à espera do combustível dobrava a esquina. “De repente pode aparecer um caminhão pipa”, dizia o motorista Geraldo Silva, 62, o primeiro de uma fila que não tem previsão de terminar.

Embora ao menos 80 caminhões tanque tenham saído do porto de Suape nesta terça-feira em direção à Grande Recife, nem todos os postos receberam combustível. Nesta quarta-feira, alguns começarão a completar uma semana sem gasolina, diesel e álcool nas bombas. Já os que estão recebendo combustível, não é o suficiente para a demanda. De acordo com o secretário de Planejamento de Pernambuco Márcio Steffani, os manifestantes estão “irredutíveis” e não permitem a passagem de nenhum gás saindo do porto. Em entrevista à rede Globo, ele disse que as negociações com os grevistas estão sendo feitas, mas com dificuldade, já que não há lideranças ou representantes da categoria. “Não sabemos qual é a pauta. Cada dia se levanta uma nova pauta”, disse. Mais de 90 municípios do Estado já decretaram estado de emergência.

Cirurgias adiadas em São Paulo e alta do botijão no Nordeste

Nesta terça-feira, preocupava o Governo de Pernambuco o desabastecimento de gás de cozinha. Devido à alta procura, um botijão chega a custar 200 reais na capital. Muitas distribuidoras estão fechadas pela falta do produto. Suape é responsável pelo abastecimento do gás que nos Estados de Pernambuco, Paraíba e o Ceará, que também registram falta dos botijões.

Já em São Paulo, entre os serviços básicos afetados pelos nove dias de greve dos caminhoneiros, a área da saúde se destacou. A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) anunciou que cirurgias não emergenciais marcadas para o início desta semana em cinco hospitais municipais foram adiadas por falta de reservas de insumos, provocada pela escassez de combustível na capital. Procurada pelo EL PAÍS, a assessoria da SMS diz que “as cirurgias adiadas nos cinco hospitais serão remarcadas para semana que vem com prioridade”.

No Rio, os serviços de transporte público se normalizavam gradativamente só para encontrar de volta as outras mazelas do Estado, sob intervenção federal comandada por um general do Exército. Segundo o secretário municipal da Casa Civil, Paulo Messina, ao menos cinco estações do BRT na zona oeste da cidade não haviam voltado a funcionar porque tinham sido ocupadas por traficantes. Horas depois, a Polícia Militar negou a informação.

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