Venezuela

Chefe dos espiões de Hugo Chávez escondeu 6,5 milhões de dólares em banco de Andorra

Andorra embarga por lavagem de dinheiro três contas do antigo responsável pela Inteligência da Venezuela que movimentaram 22,5 milhões de reais

Sede do BPA em Andorra em março de 2015.
Sede do BPA em Andorra em março de 2015.REUTERS (Albert Gea)

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Os negócios do antigo chefe dos espiões do ex-presidente da Venezuela Hugo Chávez (1999-2013) estão sob suspeita. Um tribunal de Andorra ordenou em junho de 2015 o embargo dos fundos depositados no país dos Pirineus do ex-responsável pelos serviços secretos chavistas entre 2001 e 2002 Carlos Luis Aguilera. O motivo: um suposto crime de lavagem de dinheiro.

Aguilera, que antes de comandar a espionagem foi vice-ministro de Comunicações, utilizou entre 2008 e 2015 três contas na Banca Privada d’Andorra (BPA) que movimentaram 6,5 milhões de dólares (22,5 milhões de reais), de acordo com a documentação a que o EL PAÍS teve acesso.

A juíza andorrana Canòlic Mingorance investiga a procedência “ilícita” desse dinheiro. E indaga se a autoridade chavista ocultou nesse minúsculo país – onde até o ano passado existia o segredo bancário – propinas milionárias de empresas espanholas e italianas beneficiadas por adjudicações do Executivo venezuelano.

O ex-chefe dos serviços secretos da Venezuela Carlos Luis Aguilera Borjas.
O ex-chefe dos serviços secretos da Venezuela Carlos Luis Aguilera Borjas.EL PAÍS

O ex-chefe dos espiões camuflou sua identidade em duas de suas três contas andorranas através de sociedades instrumentais (sem atividade) constituídas no Panamá. E colocou sua sogra, de 83 anos e natural de La Coruña (Espanha), como testa de ferro em uma conta mercantil, de acordo com as investigações.

Aguilera, de 57 anos, se apresentou ao BPA em 2008 como um empresário que pretendia transferir 2,6 milhões de euros (11 milhões de reais) à entidade. Justificou ao banco que suas contas receberiam as comissões de supostos serviços de assessoria a empresas estrangeiras.

Um de seus clientes foi a empresa italiana de radares Alenia Marconi Systems. Aguilera assinou com essa empresa um contrato em 2004 que lhe garantia comissões de 6,37% do total das vendas da companhia na Venezuela.

Um ano depois do acordo, o Instituto Nacional de Aviação Civil da Venezuela (INAC) adjudicou à empresa italiana a modernização dos radares dos aeroportos do país sul-americano, de acordo com a Defense Aerospace.

O ex-chefe da inteligência colocou como testa de ferro sua sogra de 83 anos e natural de La Coruña (Espanha)

A conta de Aguilera no BPA destinada às comissões da Alenia Marconi Systems recebeu 3,2 milhões de dólares (11 milhões de reais) procedentes de Curaçao, no sul do Caribe.

“Levando em consideração a gestão estatal dos aeroportos da Venezuela e as ligações de Aguilera com o regime, podemos estar diante de supostos atos de corrupção”, diz um relatório confidencial da Unidade de Inteligência Financeira de Andorra.

Apesar das contas de Aguilera em Andorra terem movimentado entre 2008 e 2015 um total de 6,5 milhões de dólares (22,5 milhões de reais), o chefe chavista esvaziou 90% do dinheiro de seus depósitos mediante transferências ao Panamá, Suíça e transferências internas a outros clientes do BPA, um mecanismo que não deixa rastros.

A única conta no BPA onde Aguilera aparece como titular – nas outras estava camuflado por trás de sociedades panamenhas – tinha em maio de 2015 um saldo de 202 euros (850 reais), de acordo com as movimentações bancárias.

Aguilera adquiriu com seus fundos de Andorra duas propriedades na Venezuela. Por uma casa em Caracas pagou em 2014 um total de 846.000 dólares (3 milhões de reais). E pagou em 2009 metade de um imóvel de 3.000 metros quadrados de 1,3 milhão de dólares (4,5 milhões de reais) em Baruta, no Estado de Miranda. As comparas foram canalizadas através de transferências ao Panamá e à Suíça.

Formulário preenchido pelo ex-chefe da espionagem venezuelana no BPA para abrir sua conta em junho de 2009.
Formulário preenchido pelo ex-chefe da espionagem venezuelana no BPA para abrir sua conta em junho de 2009.EL PAÍS

A conexão espanhola

As conexões do antigo chefe dos espiões de Hugo Chávez chegam à Espanha. E, concretamente, a um contrato de 1,85 bilhão de dólares (6,5 bilhões de reais) que permitiu às empresas espanholas CAF (Construcciones y Auxiliar de Ferrocarriles), Constructora Hispánica, Cobra e Dimetronic receberem em 2008 a responsabilidade pelas obras de modernização da Linha 1 do Metrô de Caracas.

Aguilera supostamente recebeu comissões de 4,8% pela adjudicação do metrô através de suas empresas Semeca e Tecnotren, que também participaram da União Temporal de Empresas (UTE) vencedora da concorrência pela construção da infraestrutura.

A análise das transferências do ex-responsável pelos serviços secretos venezuelanos revela que Aguilera repassou três milhões de dólares (10 milhões de reais) a uma conta no banco andorrano do diretor da CAF Guzmán Martín. Um executivo que atualmente ocupa o cargo de diretor da América Latina nessa empresa de serviços ferroviários, de acordo com seu perfil no LinkedIn.

A CAF, uma multinacional de origem basca, se negou a responder as perguntas enviadas pelo EL PAÍS.

Martín utilizou uma conta no BPA em nome da sociedade instrumental panamenha Kebir Foundation. Sua conta mercantil enviou entre 2009 e 2014 um total de 2,9 milhões de dólares (10 milhões de reais) a duas das sociedades panamenhas com conta no BPA do ex-chefe da inteligência da Venezuela, de acordo com um relatório da UIFAND que faz parte da investigação.

Passaporte fornecido pelo ex-chefe da espionagem venezuelana ao BPA para abrir sua conta em 2009.
Passaporte fornecido pelo ex-chefe da espionagem venezuelana ao BPA para abrir sua conta em 2009.EL PAÍS

A empresa de Aguilera Inversiones Dirca subscreveu em janeiro de 2013 um contrato com a empresa de Martín. O ex-chefe dos espiões se comprometia no acordo a pagar adiantado um milhão de euros (4 milhões de reais) ao diretor espanhol por assessoria em assuntos ferroviários.

O executivo espanhol nega conhecer Aguilera. Afirma que sua conta em Andorra guarda “os investimentos familiares a longo prazo fruto do trabalho dos últimos 20 anos na Ásia e América”. E explica que seu depósito acumulou fundos para “investir exclusivamente em renda fixa”.

“Nunca existiram essas transferências de sociedades do senhor Aguilera a minha conta. Se tivessem ocorrido, hoje estariam creditadas e discriminadas no saldo atual, que é a metade. Deve ser um erro da investigação”, diz Martín, cujos fundos no BPA estão bloqueados desde 2015.

Quando abriu sua conta em 2009, como todos os clientes do BPA, o executivo da CAF preencheu um questionário para justificar a origem de seus fundos e detalhar seus vínculos com outros clientes da entidade andorrana.

Martín disse à época que se decidiu por essa instituição financeira por sua “confidencialidade”. E acrescentou que conhecia como cliente do banco a sociedade Loznica de Aguilera. Quando foi perguntado por esse último detalhe, o executivo disse que os documentos em poder da Polícia de Andorra com sua assinatura “são falsos”.

Além do embargo das contas do ex-chefe dos espiões de Hugo Chávez e do executivo da CAF Guzmán Martín, a juíza Andorra Canòlic Mingorance também ordenou em 2015 o bloqueio dos fundos do vice-presidente da empresa estatal Bolivariana de Portos (Bolipuertos), Elisaul Yépez. Um funcionário de alto escalão do Executivo de Nicolás Maduro que recebeu em 2012 no Principado 600.000 dólares (2 milhões de reais) de uma sociedade de Aguilera.

A juíza Mingorance pediu às autoridades da Venezuela informação sobre as adjudicações da Linha 1 do Metrô de Caracas e da modernização dos equipamentos dos aeroportos que beneficiou a italiana Alenia Marconi Systems.

As autoridades de Andorra, de 78.000 habitantes, intervieram em março de 2015 na Banca Privada d’Andorra (BPA) por um suposto caso de lavagem de dinheiro. Os donos do banco, que chegou a ter 9.000 clientes e um volume de negócios de 8 bilhões de euros (33 bilhões de reais), negam essas acusações.

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