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Malala volta à sua cidade no Paquistão pela primeira vez desde atentado

A Prêmio Nobel visita a terra natal, onde foi alvo de um ataque a tiros do Taliban quando tinha 15 anos

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Malala Yousafzai (centro) com sua família em sua antiga casa da cidade paquistanesa de Mingora neste sábado. EFE

"Fui embora do Swat com os olhos fechados e agora volto com eles abertos”, disse a Prêmio Nobel da Paz Malala Yousafzai em uma escola da região do Swat, bem perto de Mingora, sua cidade natal, no noroeste do Paquistão, na qual foi alvo de um ataque a tiros do Talibã em 2012. É a primeira vez que Malala, que sofreu o atentado por sua defesa da educação feminina e se tornou um símbolo, volta ao país e a sua região depois disso.

“Eu me sinto muito feliz. Meu sonho foi realizado”, declarou durante uma visita ao colégio Guli Bagh, a cerca de 15 quilômetros de Mingora (noroeste), principal cidade do vale. “A paz voltou ao Swat graças aos imensos sacrifícios de meus irmãos e irmãs”, acrescentou durante esta visita-relâmpago de pouco mais de duas horas ao vale do Swat, uma região outrora turística nos contrafortes do Himalaia e que em 2007 foi tomada pelos talibans. Ali, multiplicaram a violência, as decapitações e os ataques às escolas para meninas, como o que sofreu Malala, que desde os 11 anos escrevia um blog em urdu (a língua nacional do Paquistão) no site da BBC, no qual, sob o pseudônimo de Gul Makai, descrevia o pânico sob o jugo dos extremistas.

Os talibans, expulsos do vale pelo Exército em 2009, a acusaram de veicular “a propaganda ocidental” e decidiram assassiná-la. Dois talibans subiram no ônibus que a levava da escola para casa e dispararam em sua cabeça. Um deles havia perguntado: “Quem é Malala?”. Outras duas garotas, colegas da menina, também ficaram feridas.

A adolescente ficou em estado grave, foi atendida em um hospital militar local e depois transferida para Birmingham, no Reino Unido. Sobreviveu milagrosamente ao atentado e com o tempo se tornou um símbolo mundial da luta contra o extremismo e pelo direito das mulheres à educação, o que lhe valeu o Prêmio Nobel da Paz em 2014, dividido com o indiano Kailash Satyarthi. Foi a pessoa mais jovem a conquistar a honraria.

A garota de 20 anos, acompanhada dos pais e dos dois irmãos, chegou neste sábado a sua região em um helicóptero militar procedente de Islamabad. Foi recebida por amigos e conhecidos em meio a um grande esquema de segurança. Ali, com a família, visitou sua casa. Depois, acompanhada também pela ministra paquistanesa da Informação, Marriyum Aurangzeb, se reuniu com estudantes do Instituto de Cadetes Guli Bagh, em um encontro para o qual também foram convidados vários amigos.

Malala chegou na quinta-feira a Islamabad para uma visita de quatro dias sob fortes medidas de segurança e foi recebida pelo primeiro-ministro Shahid Khaqan Abasi. Não pisava o solo paquistanês desde 2012. A ativista não pôde reprimir as lágrimas em um discurso televisionado, no gabinete do primeiro-ministro, no qual afirmou que regressar a seu país é um “sonho”.

No entanto, sua presença também despertou duras críticas e protestos, como o organizado pela principal associação de escolas privadas do país na sexta-feira, sob o lema “Eu não sou Malala”. A jovem reside no Reino Unido, para onde foi levada depois do ataque em 2012, e agora estuda economia, filosofia e ciências políticas na Universidade Oxford.

O Ocidente a exalta, mas em seu país é uma figura polêmica e há quem a considere “uma agente do estrangeiro” manipulada ou paga para prejudicar o Paquistão. Além dos círculos islamistas radicais opostos à emancipação da mulher, Malala é alvo das críticas de uma parte da classe média paquistanesa que a acusa de manchar a imagem do país.

Malala garante que voltará ao Paquistão quando concluir os estudos no Reino Unido. “Meu plano é regressar ao Paquistão quando terminar os estudos, porque é meu país e tenho os mesmos direitos nele que qualquer paquistanês.”

Quanto à educação das meninas no vale do Swat, a jovem elogiou no sábado as “mudanças importantes” realizadas desde 2012. “A situação melhorou muito.” Mas fez ressalvas: “Li que quase a metade das crianças continua fora das escolas na província. Teremos de trabalhar duro para que todos vão à escola.”

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