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Trama de ‘O Mecanismo’, a nova série da Netflix, não supera a realidade

A história é dinâmica e, às vezes, intrigante, mas a série comete erros que a fotografia, o ritmo e a elogiável atuação do elenco não conseguem compensar

'O Mecanismo'
Caroline Abras e Selton Mello, protagonistas da série 'O Mecanismo'.

A Netflix acaba de lançar sua mais recente produção e não escapará da polêmica. A série O Mecanismo, de José Padilha, criador brasileiro de Narcos e Tropa de Elite 1 e 2, traz ao mundo das séries a Operação Lava Jato, a investigação contra o maior esquema de corrupção do Brasil, uma história que inquieta os brasileiros desde março de 2014.

A primeira temporada destrincha as origens da investigação quando dois policiais, Ruffo e Verena, se propõem a acabar com o negócio milionário de um astuto criminoso especializado em lavagem de dinheiro. Em sua batalha, travada – não sem atritos – com o Ministério Público e um juiz tenaz e vaidoso, descobrem que o mecanismo corrupto é muito maior do que esperavam e chega aos escritórios de deputados, partidos políticos, funcionários públicos e dos principais empreiteiros do país.

Os oito primeiros episódios são um thriller policial alimentado por uma investigação repleta de obstáculos narrados – como é habitual em Padilha – pela voz off dos protagonistas da polícia.

A história é dinâmica e, às vezes, intrigante, embora boicote com a narração parte do suspense. Mas a série comete erros que, para os espectadores brasileiros, a fotografia, o ritmo e a elogiável atuação do elenco não conseguem compensar.

Mesmo antes da estreia houve um claro esforço dos produtores em demonstrar sua imparcialidade em um assunto que divide o país entre os que defendem acabar com a corrupção a qualquer custo e aqueles que denunciam abusos policiais e judiciais em uma disputa em que vale tudo. A série apresenta referências reiteradas sobre um mecanismo sem ideologias, que não concebe direita ou esquerda, mas enquanto o roteiro aborda superficialmente alguns personagens, as adaptações dramáticas se deleitam generosamente em outros. Essa adaptação dos fatos reais pode confundir o espectador menos informado e mais ainda qualquer estrangeiro que não tenha acompanhado nem de longe essa novela política.

O roteiro, por exemplo, põe na boca do personagem que encarna o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva uma frase que não é dele. Preocupado com o avanço das investigações, o personagem de Lula diz a seu ex-ministro da Justiça que “é preciso acabar com essa sangria”. Seria apenas um recurso dramático se não fosse o fato de esse diálogo ter sido imortalizado ao chegar às televisões de todos os brasileiros. E não era Lula o interlocutor, mas um de seus – agora – inimigos políticos, promotor do impeachment de Dilma Rousseff e principal articulador do Governo Michel Temer e também investigado em vários casos de corrupção. A ocorrência, em ano eleitoral e com o autor da frase ainda orquestrando as entranhas do poder, foi interpretada como mal-intencionada.

O assunto é delicado e Padilha, que não teme a polêmica, sabia disso. De fato, o diretor já qualificou essa discussão como “boboca” e argumentou que sua obra é uma ficção.

Mesmo assim, a equipe anunciou que os personagens não seriam reconhecíveis. “É como se a história acontecesse em um país de outra galáxia”, disse a este jornal Marcos Prado, um dos três diretores que trabalharam com Padilha meses antes da estreia. Não é verdade e é fácil identificar os protagonistas e seu papel dentro e fora da ficção. A ex-presidenta Dilma Rousseff, que na série disputa a reeleição enquanto o vilão passeia alegremente por seu comitê de campanha, passou o fim de semana assistindo à série e não gostou nem um pouco. “O cineasta mente, distorce e falseia. Isso é mais do que desonestidade intelectual. É próprio de um pusilânime a serviço de uma versão que teme a verdade”.

Em seu esforço para apresentar a difícil luta do bem contra o mal algo reducionista, Padilha abusa da ficção e deixa muitas nuances pelo caminho, algo que soube retratar em outras produções. Seu herói é um delegado veterano mal pago que come arroz e feijão, enquanto luta contra empresários que jogam tênis em mansões. É a luta de um Davi que anda de ônibus contra um Golias que tem um avião particular. Mas os policiais federais de O Mecanismo não são vítimas da precariedade, como o são os policiais militares de Tropa de Elite, e um delegado da Polícia Federal ganha, no topo da carreira, cerca de 23.000 reais.

Deixando de lado as adaptações pouco delicadas do roteiro, que servirão como munição política, se percebe uma oportunidade perdida na série. Padilha, os outros diretores e a roteirista Elena Soarez tiveram quatro anos de noticiário frenético com reviravoltas inimagináveis no roteiro para contar essa história de intrigas de poder, traições, confissões, vazamentos e até mortes, mas a impressão deixada pelos oito primeiros episódios é que não conseguiram superar a realidade com sua ficção.

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