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UE esfria as expectativas de May e só propõe um acordo comercial depois do Brexit

Diretrizes apresentadas hoje pelo presidente do Conselho Europeu rejeita vínculo profundo.

Documento evita uma das principais demandas de Londres: o livre intercâmbio de serviços financeiros

Donald Tusk conversa com Theresa May durante uma reunião realizada em 1º de março
Donald Tusk conversa com Theresa May durante uma reunião realizada em 1º de março AFP

O Brexit não conduzirá ao vínculo profundo e ambicioso que o Reino Unido pede para sua relação futura com a UE. As linhas vermelhas que Londres traçou só permitem a Bruxelas oferecer um acordo de livre comércio, com um capítulo de cooperação em justiça, defesa, segurança e aviação. Essas são diretrizes apresentadas nesta quarta-feira pelo presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, e que marcarão a negociação sobre o vínculo entre Londres e Bruxelas depois do acordo de separação.

A oferta fica muito aquém das expectativas lançadas pela primeira-ministra britânica, Theresa May, em seu discurso na semana passada. “Estar fora da união aduaneira e do mercado único levará, inevitavelmente, a fricções [...] Infelizmente, isso terá consequências econômicas negativas”, alerta o documento, antecipado pelo jornal Politico. As diretrizes refletem a voz dos 27 Estados membros sobre o diálogo com seus ainda parceiros britânicos.

Tusk quis verbalizar algumas dessas consequências: “Propus um intercâmbio de bens sem tarifas, com alguma coisa de serviços e de pesca. Mas isso não altera o fato de que estamos nos separando. [O acordo comercial] não tornará a relação mais fácil. Será mais complicada. Essa é a essência do Brexit”, afirmou em Luxemburgo. O primeiro-ministro desse país, Xavier Bettel, que estava a seu lado, resumiu o espírito dos 27 diante do desafio: “Não haverá ganhadores depois do Brexit. As duas partes perdem”.

A UE está ciente de que o Reino Unido pode não ter dado sua última palavra quanto às condições da relação futura. Em um contexto político marcado pelas contínuas guinadas no que diz respeito ao divórcio da UE, Bruxelas contempla a possibilidade de que Londres possa acabar aceitando algumas coisas que hoje considera inaceitáveis. “Se essas posições evoluírem, a União estará preparada para reconsiderar sua oferta”, indica o Conselho no final de um texto breve (seis páginas) e pouco preciso, à altura das ambíguas propostas apresentadas pelo Executivo de May.

O documento evita citar uma das principais demandas de Londres sobre a relação futura: que inclua o livre intercâmbio de serviços financeiros, um setor com grande peso no PIB britânico. Bruxelas sempre rejeitou que as condições expostas por May para construir o entendimento futuro – sem livre circulação de pessoas nem mercado único nem união aduaneira – permitam abrir a porta à livre prestação de serviços financeiros.

Fica igualmente descartada a participação em determinadas agências europeias, que a líder britânica pediu em seu discurso. “A União preservará sua autonomia na tomada de decisões, o que exclui a participação do Reino Unido como país terceiro nas instituições europeias, agências e outros órgãos”, especifica o documento. Embora se trate somente de um esboço – agora tem de ser respaldado pelos 27 países europeus e levado a um mandado de negociação mais específico – é pouco provável que haja mudanças significativas na posição europeia.

“Não estamos construindo um muro entre a UE e o Reino Unido”, declarou Tusk no início de sua explanação. O restante de sua mensagem, porém, traça algumas barreiras intransponíveis. O líder do Conselho argumenta: “Depois de May confirmar que não desejam permanecer no mercado único, na união aduaneira nem sob a jurisdição do Tribunal de Justiça da UE, não deverá surpreender a ninguém que a única opção possível seja um acordo comercial.”

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