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Merkel vira as costas a May e diz que o Brexit “não é a prioridade” da UE

Reino Unido não obrigará nenhum cidadão da União a sair quando o divórcio estiver terminado

Macron, Merkel e May
Macron, Merkel e May AFP

Novo revés para Londres. A chanceler alemã Angela Merkel deu nesta quinta-feira mais uma demonstração de que as negociações sobre o divórcio entre a UE e o Reino Unido não serão nada fáceis. “O futuro da União para os Vinte e Sete países é a prioridade, não o Brexit”, atacou Merkel na cúpula europeia. O Governo britânico aceitou esta semana todas as condições para a negociação apresentadas por Bruxelas. A enfraquecida primeira-ministra britânica, Theresa May, apresentou na noite de quinta-feira os primeiros detalhes de sua proposta para garantir os direitos dos europeus que vivem nas ilhas. May enfrenta as dúvidas que são comuns e com uma unidade na qual os britânicos não conseguiram descobrir rachaduras. Pelo menos por enquanto.

May prometeu nesta quinta-feira que os cidadãos da UE que estão atualmente morando legalmente no Reino Unido poderão continuar no país após o Brexit, mas rejeitou o desejo de Bruxelas de que a justiça europeia supervisione os direitos deles, informa a BBC. May expressou “um compromisso claro de que não será solicitado a nenhum cidadão da UE atualmente no Reino Unido de maneira legal que deixe o país no momento em que o Reino Unido deixar a UE”, segundo explicou uma fonte do Governo britânico.

A primeira-ministra disse que quer uma solução “justa e séria” para garantir os direitos dos cerca de três milhões de cidadãos europeus que vivem no Reino Unido. Por isso propôs que os europeus com cinco anos de residência no país mantenham o status de “residente permanente da UE” após a saída de Londres da União.

Merkel só tem olhos para o novo presidente francês, Emmanuel Macron. A chanceler alemã ditou em 2010 um tratamento de austeridade para a Europa e, desde então, se recusou a fazer concessões. Até que chegou Macron: Merkel rejeitou em 2015 a proposta francesa de um super-ministro das Finanças e um orçamento da zona do euro, mas agora está disposta a aceitar essa ideia (desde que Macron faça reformas na França, é claro). Todo o resto é secundário. Inclusive o primeiro divórcio nos 60 anos de história da União: os Vinte e Sete deram, na quinta-feira, uma nova demonstração de unidade e declararam que seus esforços estão concentrados em outras agendas.

Merkel e Macron querem fortalecer o euro. Pretendem ter o esqueleto de uma política de segurança e defesa no prazo de três meses. Apontam as linhas mestras da política comercial na era Trump. E, na primeira cúpula de Macron, deixaram claro que May e seu Brexit estão, no momento, em segundo plano: a primeira-ministra britânica apresentou durante o jantar um esboço de sua proposta sobre os direitos dos europeus que trabalham no Reino Unido, mas os outros chefes de Estado e de Governo não entraram no debate. “O negociador europeu é Michel Barnier”, foi a premissa. Os Vinte e Sete países se limitaram a discutir, já sem May, os critérios para dividir as duas agências – a Autoridade Bancária Europeia e a Agência de Medicamento, para a qual Barcelona é uma opção – que voltarão ao continente por causa do Brexit.

A UE está determinada a manter toda negociação do Brexit centralizada em Barnier. Seus líderes temem a capacidade de persuasão dos britânicos, e essa tendência tão europeia de quebrar a unidade quando ela é mais necessária. Consciente de que o corpo a corpo só pode beneficiar Londres, May solicitou a inclusão na agenda de uma intervenção sobre um assunto fundamental do Brexit. Queria explicar em primeira mão a seus sócios a “oferta generosa” que apresentará na segunda-feira sobre os direitos dos moradores. Fontes diplomáticas dizem que o Governo de May consultou os setores mais afetados, incluindo os 300.000 britânicos que vivem de forma permanente na Espanha. E confiam que o anúncio de May acalmou as águas: a primeira-ministra está ciente de que uma proposta muito restritiva poderia diminuir ainda mais sua popularidade entre seus próprios cidadãos.

O parágrafo do Brexit na cúpula foi apresentado com uma coreografia muito artificial. Porque os líderes estavam dispostos a receber de boa vontade as explicações de May, mas receavam – convenientemente instruídos pelo Conselho e pela Comissão – entrar no debate. Os presidentes Donald Tusk e Jean-Claude Juncker se permitiram até mesmo especular sobre uma possível marcha ré do Brexit. “Sou um sonhador, mas sou realista”, resumiu Tusk.

Eixo franco-alemão

Além do Brexit, Macron protagonizou uma mudança de registro nas cúpulas depois de muito tempo. Um descontentamento apartidário ronda a Europa: a sucessão de crises que começou em 2008 resultou em uma engrenagem narrativa repleta de clichês do pessimismo clássico.

O presidente francês, ladeado por Merkel, ensaiou na quinta-feira um novo relato, um novo impulso para a UE baseado no retorno do eixo franco-alemão. Com um discurso europeu, mas seriamente tocado por quatro renúncias por corrupção em um Governo que está apenas começando, reiterou sua aposta no “renascimento” europeu em áreas como a defesa, o comércio e a necessidade de reforçar o euro para a próxima crise.

A gigantesca operação de sedução de Macron, que conseguiu conquistar a França, mudou, assim, para Bruxelas. Mas tem como destino final um edifício em forma de máquina de lavar: a chancelaria onde se encontra o escritório de Merkel. “A Europa não é apenas um programa, é uma ambição”, disse um Macron que foi o centro das atenções. Agora falta o mais difícil: traduzir esse brilho, marcado pelas renúncias em seu gabinete, em resultados na França, que há anos arrasta os pés.

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