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May tentará governar em minoria e Jeremy Corbyn pede sua demissão

A primeira ministra conservadora fica abaixo da maioria absoluta a dez dias do início da negociação do Brexit

Apostou todas as fichas e perdeu. A primeira ministra do Reino Unido Theresa May não conseguiu revalidar a maioria absoluta que seu antecessor, David Cameron, tinha lhe deixado depois das eleições de 2015. A 10 dias do início das negociações do Brexit em Bruxelas, o Partido Conservador venceu as eleições legislativas, mas sem maioria absoluta que May pretendia obter para fortalecer sua postura em relação aos parceiros da comunidade europeia. O Reino Unido se aproxima da instabilidade política com um resultado eleitoral no qual os trabalhistas obtêm seu melhor desempenho em anos.

Com o mapa político resultante das eleições da quinta-feira, dia 8 de junho, May terá de fazer frente à humilhação de ter falhado em seu intento com a convocação de eleições antecipadas. O líder trabalhista Jeremy Corbyn já pediu a demissão da primeira ministra, que sai muito enfraquecida de sua aposta eleitoral.

Com 649 das 650 cadeiras definidas, os conservadores obtiveram 318 assentos (42,35%, -12) e atrás deles, a dois pontos, estão os trabalhistas com 261 (40,2%, +28). O nacionalista escocês SNP obteve 35 (-21), o Partido Liberal Democrata conseguiu 12 (+4), o Partido Unionista tem 10 (+2) e os demais se dividem 12 (-2). Falta um para ser definido. Estes são os resultados gerais.

A primeira ministra irá ao palácio de Buckingham nesta manhã para informar à rainha Elizabeth II que tentará formar Governo apesar de não ter maioria absoluta.

O líder trabalhista Jeremy Corbyn afirmou pouco antes que May deve se demitir porque perdeu cadeiras e respaldo, que o Partido Trabalhista está “preparado para servir” o Reino Unido e que quer tentar formar um Governo em minoria, segundo explicou em uma reunião na sede de seu partido.

Corbyn exigiu a renúncia da primeira-ministra durante a madrugada. May “perdeu cadeiras conservadoras, perdeu votos, perdeu respaldo e perdeu confiança. Eu diria que é o suficiente para ir embora”, reforçou Corbyn em um discurso inflamado em Islington North, a circunscrição do centro de Londres pela qual foi reeleito.

A primeira ministra, que também revalidou sua cadeira, manteve sua postura e afirmou em um evento à noite em seu distrito que só seu partido, o conservador, é capaz de garantir a estabilidade de que o Reino Unido necessita em tempos difíceis como estes. “O país precisa de um período de estabilidade e, quaisquer que sejam os resultados, o Partido Conservador vai garantir que possamos cumprir essa tarefa de garantir a estabilidade”, afirmou May.

O cenário desenhado traz um Governo conservador em minoria ou até, apesar de ser menos provável, uma maioria alternativa liderada pelos trabalhistas. O temor a esses cenários provocou uma queda inicial da libra de 2%, seu nível mais baixo em seis semanas.

Os conservadores sofreram um forte retrocesso em termos de vagas. E isso levando em conta que sem os obtidos pelos escoceses —algo inédito— liderados por Ruth Davidson, a noite de May teria sido ainda mais dura. Enquanto isso, os trabalhistas de Corbyn, com um programa eleitoral baseado nas políticas contrárias à austeridade muito próximo dos jovens e afastado das elites políticas, avançou notavelmente em parlamentares. Um resultado muito melhor do que o esperado. O nacionalismo escocês, por sua vez, perdeu muito do terreno que tinha conquistado, de forma extraordinária, em 2015: o SNP de Nicola Sturgeon se mantém como terceira força política do país, mas sem tantos parlamentares.

A campanha demonstrou os pontos fracos da liderança e o projeto da pessoa que, ao se confirmar a recontagem nesta sexta-feira pela manhã, deverá dar início como primeira-ministra, dentro de 10 dias, as negociações para romper com a UE. Essa será a prioridade do Governo que sair do Parlamento eleito pelos britânicos no dia 8. Mas outras frentes também o aguardam. Entre elas, a segurança nacional ameaçada pelo terrorismo jihadista e as tensões territoriais encarnadas no desafio independentista escocês.

Trata-se de um fracasso que vai marcar a carreira de May e o futuro imediato do país. Em 18 de março passado a primeira ministra anunciou sua intenção de adiantar o pleito em busca de uma maioria mais ampla que reforçasse sua posição negociadora na Europa.

A derrocada do antieuropeu e populista UKIP —o partido que, com 12,5% dos votos em 2015 e apenas uma cadeira, marcou a agenda política dos últimos anos— prometia que um bom número de votos voltaria a mãos conservadoras. A crise do trabalhismo, com os deputados em guerra contra um líder que tira votos do partido à esquerda, fazia sonhar com votos do centro. May quis tudo para si. Apelou aos órfãos do UKIP com dureza falando do Brexit e da imigração. Aos trabalhistas descontentes, quis oferecer um conservadorismo “para a classe trabalhadora”.

Era um roteiro ambicioso que, no papel, funcionava. Mas a coreografia ficou complicada demais. E May, a atriz principal, não esteve à altura.

O líder do UKIP, o partido que promoveu a saída britânica da UE, Paul Nuttall, demitiu-se na quinta-feira, dia 8, depois de não obter nenhuma cadeira e menos de 2% dos votos: “Deixo a liderança do UKIP de imediato. Isso permitirá ao partido ter um novo líder para o congresso de setembro”.

O cenário complica o colossal trabalho legislativo exigido pela saída da União Europeia. As consequências para o Brexit são imprevisíveis, mas, em todo o caso, representa um revés para a linha dura que May vem defendendo. Um Governo em minoria, ou uma maioria alternativa, poderia favorecer um Brexit mais suave na medida em que a postura negociadora teria de ser mais consensual.

Nas eleições desta quinta-feira a primeira ministra perdeu parte de sua autoridade. May, que sucedeu David Cameron sem passar pelas urnas, era uma incógnita. Na primeira campanha que trava da primeira fileira, mostrou-se nervosa, distante, forçada. Repetiu slogans mecanicamente, não se aprofundou. Cometeu erros gravíssimos: a insólita emenda ao programa eleitoral, quatro dias depois de se candidatar, se somou a um longo histórico de retificações que a afastam da imagem de “líder estável” que quer projetar. A campanha, longe de reforçar sua figura no país e na Europa, deixou à mostra suas fraquezas. E os dois atentados cometidos por jihadistas em Manchester e Londres durante a campanha colocaram sob foco seu legado de cortes no Ministério do Interior.

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