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Reino Unido elege quem negociará o Brexit com a UE

A primeira-ministra Theresa May reitera sua disposição a levantar da mesa de negociação, antes de assinar um mau divórcio

Eleições no Reino Unido
Trabalhadores colocam cartazes em um colégio eleitoral de Londres. REUTERS

A campanha eleitoral, estremecida em sua reta final pelo terrorismo, evitou o debate sobre o Brexit. Mas os britânicos decidem na quinta-feira nas urnas como querem que seja sua ruptura com a UE. O ganhador irá dentro de 15 dias a Bruxelas para iniciar as negociações. Os dois grandes partidos divergem em sua disposição de sair da mesa sem acordo, algo que May reitera que faria antes de assinar um divórcio desfavorável. Seu programa insiste em um Brexit rígido, mas ganha margem ao deixar pelo caminho uma linha vermelha.

Foi há menos de dois meses, mas muita coisa aconteceu no Reino Unido desde que em 18 de abril Theresa May anunciou o adiantamento das eleições para fortalecer sua posição negociadora no Brexit. “Cada voto pelo Partido Conservador me fará mais forte quando negociar em nome do Reino Unido”, disse.

Mesmo que não tenha sido o da campanha, o Brexit foi desde o começo o grande assunto das eleições. Quem ganhar na quinta-feira precisará ir em 19 de junho a Bruxelas para iniciar negociações que dominarão, pelo menos, os dois primeiros anos de seu mandato. 63% dos britânicos, de acordo com uma pesquisa realizada em abril, consideram que o Brexit é o assunto mais importante que o Reino Unido enfrentará nos próximos meses. Mas até mesmo antes do terrorismo desviar a campanha os dois grandes partidos tinham razões de peso para evitar um debate em profundidade.

Os conservadores quiseram reduzir o debate do Brexit a uma questão de liderança: Quem deve negociar em Bruxelas, Theresa May ou Jeremy Corbyn? Sair desse caminho acabava com o perigo de enfrentar questões concretas que depois deixarão o Governo de mãos atadas na negociação.

Aos trabalhistas também não convinha forçar May. O Brexit nunca foi um território cômodo para um partido que sofre por contentar, ao mesmo tempo, os burgueses londrinos que votaram pela permanência e os trabalhadores do Norte que votaram pela saída. 34% dos britânicos, de acordo com a mencionada pesquisa, acreditam que os conservadores são melhores para gerir o Brexit, e somente 9% confiam mais nos trabalhistas. Em janeiro desse ano, 42% dos britânicos disseram não estarem seguros de qual é a postura do partido nesse tema. É compreensível que o trabalhismo tenha optado por centrar sua batalha nos serviços públicos.

Somente os liberal-democratas e o UKIP tentaram centrar o debate no Brexit. Mas nenhum deles conseguiu marcar a agenda de eleições que ao que tudo indica significarão um regresso ao bipartidarismo.

John Curtice, professor de política da Universidade de Starthclyde, afirma que “a campanha não mudou o equilíbrio de opinião sobre o Brexit, mas sim a forma como se dividem os eleitores nos diferentes partidos”. “Os dois partidos se polarizaram, a nível de simpatizantes, em relação a esse assunto. Os que optaram pelo Brexit tendem cada vez mais a votar nos conservadores e os que votaram pela permanência tendem ao trabalhismo. Isso pode ser relevante na hora de compreender em nome de quem o Governo irá negociar”.

17 cadeiras de maioria real

Os dois programas eleitorais colocam o Brexit no topo das prioridades. Mas não entram em detalhes. O do Partido Conservador afirma que prefere sair da negociação sem acordo do que com um desfavorável, mas não esclarece o que entende por um acordo inaceitável. O interessante está no que não menciona e que, consequentemente, deixou de ser uma linha vermelha. Não se fala, por exemplo, do fim da jurisdição do Tribunal Europeu de Justiça. Também não diz quanto duraria o período de transição e, portanto, não coloca uma data limite ao final da livre circulação de pessoas.

O programa trabalhista descarta sair das negociações sem acordo e enfatiza a “retenção dos benefícios do mercado comum”. Defende que “a liberdade de circulação de pessoas terminará ao se abandonar a UE”, algo dificilmente compatível com a permanência no mercado único.

May conta até hoje com uma maioria real de 17 cadeiras, o que a torna refém de uma trintena de deputados radicais que estão há anos aproveitando as frágeis maiorias tories para definir a agenda da política britânica. A maioria que as pesquisas lhe dão hoje seria suficiente para neutralizar de uma penada a influência desse grupo de radicais no processo de ruptura. Isso favoreceria um Brexit suave?

“Theresa May deixou claro desde o primeiro dia qual é sua posição sobre o Brexit”, opina Patrick Dunleavy, professor de Ciências Políticas da London School of Economics. “Defende um Brexit duro. Até o final pediu o voto nela porque é a única com força para negociar em Bruxelas. Por tudo isso acho que, no momento, há 50% de probabilidade de que não seja alcançado um acordo. E isso teria um impacto enorme para este país.”

“A noção de que uma maioria mais ampla fortalecerá sua posição como negociadora é uma balela”, conclui Anand Menon, catedrático de Política Europeia no King’s College londrino. “Eu diria o contrário. A UE tende a ser compreensiva com os líderes nacionais em apuros domésticos. Se você tem pouco apoio em casa poderá argumentar que não tem margem para concessões. Uma maioria mais ampla te torna mais frágil porque a Europa saberá que você tem espaço para ceder.”

Terrorismo e direitos humanos

As declarações de Theresa May na terça-feira à noite, nas quais afirmou que está disposta a mudar a legislação de direitos humanos para combater o terrorismo, marcaram o início da última jornada da campanha. Encurralada pelas críticas a seus cortes na polícia durante sua etapa à frente do Ministério do Interior, May contra-atacou defendendo a necessidade de “fazer mais para restringir a liberdade e os movimentos de suspeitos de terrorismo”. “Se nossas leis de direitos humanos nos impedem”, alertou, “mudemos as leis para poder fazer isso”. Trabalhistas e liberal-democratas criticaram na quarta-feira suas palavras em um dia rico em ataques pessoais. No final do dia, a primeira-ministra voltou ao tema com o qual começou a campanha, pedindo uma maioria ampla para negociar com mais força na Europa.

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