Ramaphosa, um ex-sindicalista convertido em bilionário no comando da África do Sul

Presidente da CNA substitui Jacob Zuma, que, sob pressão, decidiu renunciar ao cargo

Cyril Ramaphosa foi eleito nesta quinta-feira como o novo presidente da África do Sul, em substituição a Jacob Zuma. Presidente do Congresso Nacional Africano (CNA, o hegemônico partido governante que chegou ao poder em 1994, com Nelson Mandela) e único postulante ao cargo, ele tomou posse numa sessão do Parlamento que começou às 14h (10h em Brasília) na Cidade do Cabo.

Ramaphosa, que assumiu em dezembro a liderança do CNA, buscava agora a saída do seu ex-aliado Zuma, salpicado por vários casos de corrupção, a fim de evitar uma catástrofe eleitoral nas eleições gerais de 2019. O novo mandatário, um ex-sindicalista que virou milionário, prometeu reativar a economia do país, há bastante tempo estancada, e erradicar a corrupção que assola o seu partido e a cúpula do Estado.

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A mudança na presidência do país ocorre depois de Zuma ceder às pressões do CNA e anunciar sua renúncia, fragilizado por um escândalo de desvio de recursos públicos. Apesar de discordar da decisão do seu partido – que na terça-feira o convidou a entregar a presidência do país –, Zuma renunciou definitivamente nesta quarta-feira por volta de meia-noite. “Cheguei à decisão de renunciar à presidência da República com efeito imediato”, disse ele um em um discurso transmitido ao vivo pela televisão.

Após semanas de tensões, o CNA, que governa a África do Sul desde o final do apartheid, em 1994, acolheu a renúncia de Zuma com alívio. “Não vamos comemorar”, declarou o dirigente partidário Jessie Duarte na quarta-feira. “Tivemos que ‘retirar’ um líder que serviu ao nosso movimento durante mais de 60 anos, não é algo fácil.”

De sindicalista a empreendedor milionário

Ramaphosa, nascido há 65 anos em Soweto, foi militante estudantil nos anos setenta e, após se formar em direito, se dedicou totalmente ao sindicalismo, fundando em 1982 o Sindicato Nacional de Mineiros (NUM). À frente dessa organização, lutou contra o regime racista do apartheid. Sua trajetória foi abalada pelo massacre policial que matou 34 mineiros, em 2012, na mina de Marikana. Na época, Ramaphosa ocupava o cargo de diretor não executivo na Lonmin, multinacional dona da mina. Pouco antes do episódio – o pior envolvendo a polícia desde o fim do regime racista – Ramaphosa havia pediu repressão aos grevistas.

Já na década de 1990, Nelson Mandela fez do jovem sindicalista uma das figuras convocadas a negociar a transição política com o poder branco, por considerá-lo “um dos mais talentosos da nova geração”. Candidatou-se a liderar o CNA após a aposentadoria de Mandela, mas os caciques do partido o preteriram e optaram finalmente por Thabo Mbeki.

Quase um quarto de século depois, Ramaphosa chega ao poder depois de se tornar, nesse meio tempo, um bem-sucedido empresário que conseguiu acumular uma fortuna equivalente a 1,5 bilhão de reais, segundo o ranking de 2015 da revista Forbes  e não faltam insinuações de que seu império, que inclui negócios da mídia e até a franquia sul-africana do McDonalds, foram alcançadas graças a sua influência política. Neste longo trajeto até a presidência, a imagem moderada e seu passado de herói na luta contra o apartheid ajudaram esse hábil negociador a concretizar a maior ambição da sua vida: governar a África do Sul.

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