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A fúria nas Bolsas se dissipa, mas volatilidade deve seguir nos próximos dias

Para os analistas mais cautelosos ainda é cedo para prever a tendência dos mercados para os próximos dias e os efeitos imediatos para o Brasil

Operadores de Bolsa em Wall Street.
Operadores de Bolsa em Wall Street. AFP

Um movimento de pânico se espalhou, nesta segunda, em Wall Street, após o índice de Dow Jones, o principal da Bolsa de Nova York, despencar e fechar a segunda-feira com a maior perda de pontos da história, influenciando Bolsas de valores pelo resto do mundo. Foi a maior queda percentual desde agosto de 2011. Nesta terça-feira, as Bolsas internacionais iniciaram os negócios em queda, ainda repercutindo o tombo. Na Ásia, a bolsa de Tóquio fechou em queda de 4,7%. Na Europa, o principal índice da bolsa de Frankfurt, Alemanha, recuava 2% às 11h, metade da queda registrada no início do pregão.

No Brasil, a Bolsa de Valores de São Paulo acompanhou o movimento global e abriu em queda de 1%, mas começou a reverter o movimento após a abertura da Bolsa de Nova York que se recupera nesta terça-feira. Ainda apresenta, contudo, uma trajetória volátil. Nesta tarde, o Ibovespa subia 1,70%, aos 82.682 pontos. O câmbio operava sob pressão. O dólar subia 0,17% ante o real às 15h, cotado a 3,25 reais na venda.

Para os analistas mais cautelosos ainda é cedo para prever a tendência dos mercados para os próximos dias e os efeitos imediatos para o Brasil. Nem as causas reais para a queda súbita estão certas. O solavanco, no entanto, faz com que o mercado reavalie o otimismo e as máximas vividas pelas bolsas no último ano. No momento, a palavra de ordem é volatilidade.

Um dos principais fatores citados no dia de fúria foi o temor dos investidores de que o Federal Reserve (Banco Central dos Estados Unidos) aumente a taxa de juros em ritmo mais acelerado do que o esperado. O que desencadeou a disparada na venda de ações foi o relatório, divulgado na sexta-feira, que mostrou como os salários nos Estados Unidos subiram de maneira relativamente rápida no último mês. O dado foi interpretado pelos operadores financeiros como um sinal de que a recuperação econômica dos EUA é robusta e que uma inflação mais alta talvez esteja a caminho, o que pode impulsionar o Fed a elevar os juros. Taxas mais altas não apenas encarecem a tomada de empréstimos por pessoas e empresas, mas também afastam investidores de ações e o levam para títulos.

Como afeta o Brasil

A alta dos juros também pode afetar a dinâmica da dívida norte-americana. Para se ter uma ideia, em 2001, a dívida bruta dos EUA em proporção ao PIB era de 53% e isso consumia em pagamento de juros do seu orçamento 10,4%. Atualmente a dívida bruta já chega 108,1% do PIB, mas o pagamento de juros representa apenas 6,8% do seu orçamento. Caso os juros subam, o orçamento americano pode ser fortemente afetado. No caso do Brasil, o país pode ver alguns dos seus investidores migrando para os Estados Unidos, que se tornam mais atraentes com juros mais altos.

Para Pablo Spyer, diretor da corretora Mirae, a chegada do novo presidente do Fed, Jerome Powell, que tomou posse nesta segunda, foi outro ingrediente que impulsionou a volatilidade dos mercados. “Sábado foi o último dia de Janet Yellen, que já saiu deixando nas entrelinhas que podem ser esperadas não duas, mas quatro altas da taxa de juros, o que provocou realização de lucros globais”, afirma o diretor da Mirae, lembrando que os mercado estavam em suas máximas históricas. "Realização de lucros" é um movimento de investidores para vender ações especialmente quando se propaga a percepção de que um período de alta está perto do fim. Desta maneira, eles passam adiante ações que compraram por um preço mais baixo para "realizar" (colocar no bolso) o "lucro" - a diferença dos preços de compra e venda.

Pablo Spyer acredita que essa correção é saudável e esperada após a rápida alta no ano passado. "Os investidores precisam manter a calma. A queda é uma realização que estava sendo esperada há muito tempo. Foram máximas atrás de máximas durante muitos anos", diz.

Na avaliação de Camila Abdelmalack, da Capital Markets, falar que esse movimento é de um processo de correção das altas do último ano ainda é precipitado. “Ainda é preciso cautela e está tudo muito recente para fazer uma análise mais aprofundada”, explica. Abdelmalack ressalta, no entanto, que caso as quatro altas de juros sejam confirmadas, mercados emergentes como o Brasil devem ser os mais impactados.

“Nesse movimento as commodities acabam depreciando e os países emergentes ficam numa situação mais complicada. Há também uma mudança no fluxo de capital global, que afetam a tomada de decisão dos investidores. Eles preferem sair de países de riscos como o Brasil e migraram para os EUA”, explica.

Para André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, existia uma tendência de queda nas Bolsas, mas ela foi antecipada. “A venda de ações por meio de robôs podem ter detonado essa queda antes da hora”, explica. A disparada de vendas pode ser explicada, de alguma maneira, pelos sistemas automáticos de transações das corretoras. Eles estão programados para comprar e vender com base em muitas variáveis, e podem ter ativado seus mecanismos de venda diante da primeira queda forte das ações após um período de tranquilidade.

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