Assim são os herdeiros do império Ikea: três irmãos para renovar a gigante dos móveis

Filhos do fundador têm o desafio de guiar a empresa e seus valores na era do comércio eletrônico

De esquerda para a direita: Jonas, Mathias, Ingvar (o pai e fundador da Ikea, que morreu no último dia 27) e Peter Kamprad.
De esquerda para a direita: Jonas, Mathias, Ingvar (o pai e fundador da Ikea, que morreu no último dia 27) e Peter Kamprad.

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Um gênio modesto, um pai exigente. Toda pessoa é uma dualidade. Ingvar Kamprad (1926-2018), fundador da Ikea, que morreu na semana passada, construiu durante 75 anos um gigante planetário do mobiliário, mas também uma saga familiar que mistura o épico e o mundano. Fazem parte desse mito a sua memória enciclopédica e a sua imensa habilidade para os negócios. Johan Stenebo, que foi durante 20 anos um dos principais executivos da empresa, conta em seu livro A Verdade Sobre a Ikea que nunca conheceu ninguém mais inteligente que Kamprad. Igualmente legendária é a sua austeridade e a exigência que impunha aos três filhos (Annika, a filha adotiva do seu primeiro casamento, está fora do negócio). Logo Peter (Agunnaryd, Suécia, 1964), Jonas (Agunnaryd, 1966) e Mathias (Stenbrohult, 1969) entenderam que aquele homem de olhar caído e óculos perenes era um pai diferente.

Essa diferença decorria de se sentir um sobrevivente das vicissitudes da sua vida (como o alcoolismo), da sua empresa e do passado. Durante sete décadas, a Ikea sobreviveu a revelações dolorosas: corrupção na Rússia, destruição de florestas, espionagem de empregados na França e as conexões de Ingvar com o nazismo nos anos quarenta e cinquenta. “O erro mais amargo da minha existência”, diria ele, como pedido de desculpas. É quase impossível para uma empresa dessa ambição não encontrar fantasmas. Mas Kamprad admitiu suas falhas e mostrou sua fragilidade em público. Aquele dia entrou para a mitologia da Suécia, um país que valoriza a humildade e admira seu sucesso.

Mas o que acontecerá agora? Com o desaparecimento de Ingvar Kamprad, perde-se essa mítica, e o sucedem filhos que cresceram num mundo diferente do de seu pai. Nem sequer foram criados na Suécia, e sim entre a Dinamarca e a Suíça. Apesar de tudo, Peter, Jonas e Mathias compartilham com seu progenitor a paixão pela invisibilidade. Sabe-se muito pouco sobre eles. Quase nunca aparecem juntos em público, e quando o fazem é tudo orquestrado. Só concederam uma entrevista. Foi em 1998, dentro de um livro (A História da Ikea) autorizado por seu pai. As respostas eram conjuntas: ninguém sabe quem disse o quê. Naquele ano, Ingvar revelava sua estratégia para a sucessão. “Não quero que meus filhos compitam entre si pelo direito de dirigir a companhia. Cedo ou tarde, terei que nomear um deles.” Nunca fez isso.

Pouco a pouco, os irmãos foram se livrando do peso das decisões diárias. O pai desenhou uma complexa estrutura societária que protegia a companhia de possíveis disputas entre os herdeiros, driblava os elevados impostos suecos e a blindava de operações hostis. Procurava a “vida eterna” da Ikea. Por isso, cada membro da prole recebeu papéis diferentes no destino do império. Uma partilha ditada pelos interesses e as habilidades de cada irmão. Entre os três, Mathias, segundo várias fontes, é o mais sociável, vivaz e hábil para os negócios. Vive em Londres, assim como Jonas; trabalhou na Habitat (a fábrica de móveis criada por sir Terence Conran, e que pertenceu à Ikea até 2009), e entre 2004 e 2008 dirigiu com talento a filial da empresa na Dinamarca. Fala cinco idiomas e não passou pela universidade. Entretanto, seu papel real na empresa parece difuso.

Surpreendente, em 2016 renunciou à presidência da Inter Ikea, a organização proprietária da marca e das franquias. A justificativa parecia clara. O filho se distanciaria do dia a dia para focar outras responsabilidades. Uma acima de todas: construir, junto com seus irmãos, a estratégia de longo prazo do empreendimento e transmitir sua cultura às novas gerações. Essa saída de cena, entretanto, gera dúvidas. Stenebo ainda acredita que são eles que dominam a companhia. “Não foram criados nem formados por seu pai para entregar o controle da Ikea a alguém alheio à família”, disse o executivo ao jornal sueco The Local. “O pai desconfiava de qualquer um que não pertencia a ela.”

Essas frases aludem a Anders Dahlvig, um dos lugares-tenentes de Kamprad e responsável pela Inter Ikea Holding. “É o presidente, embora possa ser demitido a qualquer momento. Não é um fantoche, mas está sob o controle dos filhos. Eu diria que Mathias é quem conduz o leme da Ikea”, argumenta Stenebo. É arriscado cravar isso. A fábrica sueca é uma empresa cercada por uma densa névoa, e é difícil enxergar uma imagem nítida. Em princípio, Peter, segundo vários relatos jornalísticos, substituiria Kamprad. Parecia inclusive mais bem posicionado como candidato do que Mathias. O mais velho dos irmãos, casado e com dois filhos, encaixava-se no lego da Ikea. Estudou economia em uma prestigiosa escola de negócios da Suíça e durante 12 anos dirigiu as finanças da companhia na Bélgica. É minucioso, consciencioso e hábil para lidar com os números. Entretanto, algo aconteceu.

Como muitas famílias que misturam dinheiro, memória e desejo, os Kamprad sofreram amores contrariados. Segundo o livro Ikea: Moving to the Future, de Lennart Dahlgren, ex-executivo da empresa na Rússia, houve em 2011 um confronto entre o fundador e seus filhos pela partilha do dinheiro. Uma briga que foi desmentida pela companhia, mas que encontrou espaço nos jornais. Bem mais recentemente, na semana que passou, os irmãos fizeram algo excepcional. Enviaram uma declaração a vários meios de comunicação suecos falando de compromisso e nostalgia. “Nós, seus filhos, prometemos a ele manter seu legado e fazer o possível para garantir que os valores e o conceito único da Ikea sobrevivam no futuro”, disseram.

A família em primeiro lugar

Os membros da família podem ser minoritários nos conselhos das fundações que a empresa controla (Stichting Ingka Foundation, Stichting Ikea Foundation e Stichting Imas Foundation), mas ainda são os guardiães da Ikea. Peter, que há anos vive com sua mulher, Laila, em Tervuren (Bélgica), é o presidente do grupo Ikano. Um conglomerado com faturamento anual de 7,3 bilhões de euros (23,6 bilhões de reais), segundo a Forbes, que gere a fortuna familiar. Em seu interior estão um banco, uma imobiliária e lojas da Ikea na Tailândia, em Singapura e na Malásia. Mas é Jonas quem talvez guarde a maior semelhança com seu pai. Dizem que é o mais criativo e o mais reservado. Estudou Engenharia Industrial e Desenho de Móveis na Escola Superior de Arte e Desenho (ECAL) de Lausanne, e ocupa um assento no conselho da Ingka (a holding que dirige o Grupo Ikea) e da Ikano. “É uma pessoa tranquila”, diz Stenebo.

Essa discrição será testada nos turbulentos dias que e aproximam. É hora de decidir. “Alcançarão os irmãos algum acordo com gigantes como Amazon ou Alibaba, dada sua fragilidade no mundo virtual? Permitirão a entrada de um investidor estrangeiro?”, pergunta-se um economista que trabalhou para a empresa. “São decisões dos donos, não dos seus executivos.” Apesar das brumas, é possível dizer que Peter, Jonas e Mathias ainda controlam o futuro da Ikea.

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