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Bilionário, dono da Ikea compra iogurte quase vencido

Documentário conta como Ingvar Kamprad, de 89 anos, transmitiu uma filosofia austera à sua empresa

Ingvar Kamprad na sede da Ikea, em Älmhult, numa foto de 2002.

O supermercado da localidade sueca de Älmhult se parece com o que você provavelmente tem no seu bairro. Tamanho médio, bem organizado, um peixeiro simpático, que em vez de se chamar Chico foi batizado de Lars, e cartazes chamativos anunciando as ofertas do dia. Hoje, o salmão sai pelo equivalente a 36 reais o quilo. Mas, nesta localidade do sul da Suécia, com apenas 9.000 habitantes, ocorre algo que seguramente você não verá no supermercado do seu bairro: de vez em quando, Ingvar Kamprad, o bilionário fundador da rede de lojas de Ikea, especializada em móveis e utensílios domésticos, aparece para fazer compras pessoalmente.

Kamprad, que em poucos dias (em 30 de março) completará 90 anos, morava até alguns anos atrás em Lausanne, na Suíça. Mas em 2011 a sua mulher morreu, e pouco depois ele voltou para a sua casa, em Småland, no sul da Suécia. Muito perto dali fica Älmhult, onde a Ikea, fundada por ele em 1943, tem uma de suas sedes.

O veterano empresário gosta de passear pelos bucólicos bosques que cercam Älmhult e aproveita para cumprimentar algum dos 4.000 trabalhadores (quase a metade do povoado) que trabalha direta ou indiretamente para a Ikea. E, claro, compra no supermercado da cidadezinha. Quando chega à prateleira dos laticínios, Kamprad examina com seus olhos cansados o prazo de validade dos produtos. E compra os pacotes de leite e os iogurtes que estão prestes a vencer. “Ele acha intolerável que os alimentos e outras coisas que ainda podem ser usadas sejam jogados fora”, relata um conscientizado funcionário do estabelecimento.

Quando chega à prateleira dos laticínios, Kamprad examina com seus olhos cansados o prazo de validade dos produtos. E compra os pacotes de leite e os iogurtes que estão prestes a vencer

Ao longo dos anos, o empresário sempre transmitiu essa mesma filosofia aos seus empregados. Alguns vão dizer que isso é ser pão-duro. Mas os moradores do povoado discordam. “Não acho que seja pão-durice. Trata-se de sermos conscientes dos custos. Somos gente generosa, mas não queremos pagar mais do que o necessário”, comenta Marcus Engman, 50 anos, diretor global de Design da Ikea. Esse lado mais humano (e menos esbanjador) de Kamprad é uma das facetas abordadas pelo documentário, que será exibido em breve na televisão sueca e que surpreendeu quem já teve a oportunidade de vê-lo.

É a outra cara deste empresário cuja fortuna é estimada em 258,5 bilhões de reais – em 2006, a revista Forbes o colocou em quarto lugar na sua lista das pessoas mais ricas do mundo –, mas que, mesmo assim, usa roupas de brechó. “Acho que não há uma só peça que eu vista que não tenha sido comprada em um brechó de segunda mão. Isso significa que quero dar um bom exemplo”, disse ele ao canal TV4 do seu país. Tampouco aceita esbanjar na barbearia, sobretudo desde que, conforme revelou, um corte com valor equivalente a 90 reais, na Holanda, abalou o seu orçamento. Desde então, usa um mapa-múndi para escolher o barbeiro. “Normalmente, corto o cabelo quando estou num país em desenvolvimento. A última vez foi no Vietnã”, explica.

Até muito recentemente, quando o convenceram a parar de dirigir por acusa da idade, ele continuava assumindo o volante do seu Volvo 240 ano 1993 (robusto e duradouro), e numa ocasião foi barrado em uma premiação depois de ser visto descendo de um ônibus. No avião, prefere viajar na classe econômica. É do tipo que faz blocos de anotação com folhas usadas de um só lado (as florestas do mundo agradecem!), e já foi visto saindo de restaurantes com envelopinhos de sal e pimenta.

“Acho que não há uma só peça que eu vista que não tenha sido comprada em um brechó de segunda mão. Isso significa que quero dar um bom exemplo”, diz Kamprad

Atualmente, afastou-se da linha de frente, entregando o comando da empresa aos seus filhos (tem quatro). Mas continua deixando sua marca na Ikea. Os funcionários seguem um código de conduta – conhecido como “a Bíblia da Ikea” – que determina, entre outras coisas, que “esbanjar recursos é um pecado mortal” e “um dos maiores males da humanidade”. Pode-se dizer que Kamprad e sua empresa são uma coisa só (o nome Ikea contém as iniciais dele e as do seu lugar de nascimento). Então, da próxima vez que você vir uma estante Billy com um bom preço ou um prato de almôndegas a 12 reais, pense que possivelmente são algo mais do que estratégias de marketing.

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