Trump contradiz seu gabinete e insiste que México pagará pelo muro

General John Kelly disse ontem que o presidente foi “mal informado” nas eleições e “evoluiu” nas questões de imigração

O chefe de gabinete da Casa Branca, John Kelly, na entrevista ao canal Fox
O chefe de gabinete da Casa Branca, John Kelly, na entrevista ao canal FoxCarolyn Kaster (AP)

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O chefe de gabinete da Casa Branca, o general John Kelly, é a outra face da moeda. Quando Donald Trump exagera, ele se cala; e quando o presidente se cala, ele explica. Fez isso na quarta-feira em uma entrevista no canal de televisão Fox e em uma reunião com políticos democratas divulgada pela imprensa norte-americana. Nos dois casos ficou claro que o México, no entender de Kelly, não pagará pelo muro fronteiriço, que os dreamers (sonhadores) têm possibilidades de ficar nos Estados Unidos e que o presidente foi “mal informado” nas eleições e “evoluiu” nas questões de imigração. “Uma coisa é fazer campanha e outra é governar. É muito difícil”, afirmou Kelly.

As palavras do antigo e carismático general dos fuzileiros navais foram respondidas nesta manhã por Trump. Em dois tweets, o presidente deixou claro quem está no comando. Para esclarecer dúvidas, ele afirmou que seu conceito sobre o muro "nunca mudou ou evoluiu" desde que ele o concebeu e que, além disso, terá que ser pago pelo México. "O muro é o muro [...] e deve ser pago, direta ou indiretamente, ou através do reembolso de longo prazo pelo México, que tem um superávit comercial de 7 bilhões de dólares com os Estados Unidos". O muro de 20 mil milhões de dólares não é nada comparado ao que o México obtém do NAFTA [Acordo de Livre Comércio da América do Norte] ", afirmou o presidente.

Sua posição, que aparentemente corrige seu chefe de gabinete, também abre a porta para a possibilidade de que, no final, o pagamento do muro dependa da renegociação do TLC e, portanto, seja diluído na balança comercial. Um aspecto que o próprio Kelly, em suas intervenções, havia apontado. “De alguma forma, é possível que consigamos obter dinheiro do México, mas não diretamente de seu Governo. Em todo caso, não existirá um muro inteiro de mar a mar. (...) Em vez disso, o que a Administração pretende é fixar barreiras físicas em muitas áreas, que devem ter 1.100 quilômetros”, disse Kelly.

O muro é um dos grandes símbolos do mandato. O presidente se nega a renunciar a sua construção e há duas semanas apresentou uma proposta ao Congresso para que financiasse a obra com 18 bilhões de dólares (58 bilhões de reais) em troca de permitir que os dreamers (690.000 jovens que entraram nos Estados Unidos ilegalmente quando menores e que receberam proteção temporária de Barack Obama) ficassem no país.

Mas também é certo que há meses Trump já não exige publicamente que o México arque com os custos do muro e que nos últimos meses cresceram as vozes na Administração que vincularam esse financiamento à melhoria da balança comercial que traria consigo uma negociação bem-sucedida do Tratado de Livre Comércio da América do Norte.

A postura de Kelly, que já ocupou a pasta de Segurança Nacional, mostra não só seu perfil moderado, como seu crescente poder na Casa Branca. Um entorno em que ele colocou ordem, em comparação ao caos da época de Reince Priebus, e onde conquistou o respeito do presidente.