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Grammy Latino se rende a ‘Despacito’ e deixa brasileiros de fora

Emicida e Rael foram os únicos indicados nas categorias gerais da premiação. Veja os vencedores

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Luis Fonsi leva o prêmio de gravação do ano por Despacito. Chris Pizzello/Invision/AP
Las Vegas / São Paulo

Despacito é o produto do ano da música latina. Isto posto, a 18a edição do Grammy Latino, realizada na quinta-feira, dia 16 de novembro, em Las Vegas, foi um interessante contraste de duas versões de Porto Rico, da música latina e até da cultura em geral. O megassucesso dançante de Luis Fonsi levou um total de quatro grammys, incluído o de música do ano. René Pérez, Residente, o mais indicado da noite, foi embora com dois grammy na categoria música urbana por seu primeiro disco solo, uma exploração de dois anos no qual buscou os sons dos lugares que compõem seu DNA. E, além disso, Rubén Blades se valeu da salsa para levar o prêmio de disco do ano.

Fonsi e Pérez, mais o prêmio honorário para Lin-Manuel Miranda, multipremiado criador do musical Hamilton, transformaram esses prêmios nos Grammy de Porto Rico. Em setembro, a ilha foi arrasada pelo furacão María. Todos eles se comprometeram a ajudar a ilha e reivindicar um tratamento melhor por parte dos Estados Unidos.

Os artistas brasileiros não foram lembrados pelas principais categorias dos prêmios. Os rappers Emicida e Rael foram os únicos indicados nas categorias gerais do Grammy por seu trabalho "A Chapa é Quente!" na categoria Melhor Canção Urban.

Dentro das categorias específicas para língua portuguesa o destaque foi o cantor Tiago Iorc, que levou para casa os prêmios de Melhor Canção em Língua Portuguesa e Melhor Álbum de Música Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa.

Rubén Blades recebe o prêmio de disco do ano.
Rubén Blades recebe o prêmio de disco do ano. Chris Pizzello/Invision/AP

Para surpresa e descontentamento dos fãs, a cantora Anitta, que consolida sua carreira internacional como um dos maiores nomes da música brasileira contemporânea, não recebeu nenhuma indicação. Apesar disso, ela foi convidada a se apresentar ao lado do astro pop norte-americano Nick Jonas na noite anterior ao prêmio em homenagem a Alejandro Sanz 

Também será lembrada nessa entrega de prêmios a cara de assombro de Rubén Blades ao receber o prêmio de disco do ano por Salsa big band. Já tinha levado o prêmio em sua categoria, mas não estava nas apostas para vencer na categoria geral, à frente de discos como Residente ou do vencedor de discos de pop, El dorado, de Shakira.

O panamenho Rubén Blades leva um Grammy por ano, independentemente do que faça. Foi assim com trabalhos nos quais explorou todos os gêneros da América Latina. Dessa vez, arrasou acima de suas expectativas com um disco de salsa. Prometeu para o ano que vem um disco de música cubana que remeta aos anos 20, no qual vai cantar por meio de um alter ego, Meodoro Madera, um cubano de 92 anos. Perguntado que tipo de música ainda lhe falta fazer, Blades disse: “Em apache e em chinês”. Parecia sério.

Residente, durante sua apresentação.
Residente, durante sua apresentação. AFP

René Pérez, Residente, fez uma crítica da cultura do viral e do instantâneo ao receber seu segundo Grammy. “A arte não tem a ver com cifrões. Os músicos não são números, nem cifras, nem dados. Fazemos coisas que sentimos e as deixamos pela metade. Parem de falar de milhões de visitas e falem de quem fez a música, dos produtores.”

Depois, para a imprensa, elaborou essa reflexão. Pérez quis deixar claro que não coloca em dúvida a qualidade artística de Despacito ou de Luis Fonsi, a quem qualificou de grande artista. “Há público para tudo”, disse. É a obsessão pelos números, as visualizações, os likes, o que parece incomodar o artista porto-riquenho. Comparou com as redes sociais: “Me parece obsceno que hoje em dia alguém que tem um milhão de seguidores no Instagram porque mostrou as bolas é mais relevante que alguém com 5.000 seguidores que está dizendo coisas importantes”.

Foi uma cerimônia de apresentações poderosas, especialmente as dos dois artistas principais. Começou com Residente interpretando Hijos del cañaveral com uma entrada em cena espetacular. Acabou com Despacito, tocada primeiro com um quarteto porto-riquenho, depois como um sucesso dançante com Bomba Estéreo, de novo melódico com Víctor Menuelle, e terminou totalmente mixado pelo DJ Diplo. O momento de transformação e impacto na cultura geral que vive a música latina ficou perfeitamente refletido na cerimônia de entrega dos Grammy Latinos. Despacito foi algo mais do que um sucesso este ano. É o vídeo mais visto da história do YouTube e mês passado superou os 4 bilhões de visualizações.

A chilena Mon Laferte recebeu quase chorando o primeiro Grammy de sua carreira por Amárrame, como melhor canção alternativa. O melhor álbum de música alternativa foi Jei Beibi, de Café Tacvba. O melhor álbum de rock, La gran oscilación, de Diamante Eléctrico. O melhor álbum folclórico, Musas, de Natalia Lafourcade, uma homenagem da mexicana à música tradicional latino-americana na qual embarcou este ano e para a qual promete uma segunda parte. E o melhor álbum de pop-rock, Mis planes son amarte, de Juanes. Nenhum deles foi o melhor disco do ano. Também Residente, o melhor de música urbana e o mais indicado da noite.

O outro grande vencedor da noite foi Vicente García. Com o disco A la mar, que “comemora a dominicaneidade”, disse, levou três Grammy, o de melhor cantor-compositor, o de melhor novo artista e o de melhor canção de estilo tropical. Este discípulo de Juan Luis Guerra firma uma estreia excepcional com os prêmios desta edição.

Neste ano de reggaeton e de fenômenos virais que estão mudando a toda velocidade a música latina, brilharam também outros titãs veteranos além de Blades. Andrés Calamaro, que levou o terceiro Grammy de sua carreira (melhor canção de rock, La noche), entrou na sala de imprensa e deu uma conferência. “Os Grammy Latinos completam a maioridade e estou há 39 anos fazendo discos. Estão no lugar mais importante de minha casa, que é onde estão os equipamentos para ouvir música.” Basicamente, está rodeado de intérpretes que cresceram já com esses Grammy, que para ele são como um “irmão caçula”. Para o ano que vem, prepara um disco de duetos no qual “nomes importantes da música latina” vão cantar suas músicas. Deixou clara sua preferência por Residente para a noite.

E, sem dúvida, Alejandro Sanz. Depois de uma cerimônia em que recebeu grandes elogios no dia anterior, Sanz voltou a subir no palco como Personalidade do ano. A cantora brasileira Anitta e norte-americano Nick Jonas se apresentaram em tributo ao madrilenho foi o homenageado de 2017 pela indústria da música latina. Em sua apresentação, conseguiu um momento de impacto ao cantar com um grupo de dreamers, jovens sem documentos que não conhecem outro país além dos Estados Unidos e cujo futuro está seriamente ameaçado pelo atual Governo. Quando interpretou Corazón partío, foi como se para lembrar de como se fazia um sucesso viral, sem streaming e sem celulares.

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