O paradigma ‘esquerda e direita’ já não explica a França de Macron

Um panorama da intelectualidade francesa quando a troca de presidente acirra a disputa de ideias

Pep Boatella

Emmanuel Macron, o mais intelectual dos presidentes recentes da França, mantém uma relação complicada com os intelectuais, uma instituição francesa como a torre Eiffel e o queijo camembert. Pelo menos com os mais conhecidos e mais midiáticos. Não se “interessa muito”: “Vivem presos em velhos conceitos. Olham o mundo de ontem com os olhos de ontem. Fazem barulho com instrumentos velhos. Grande parte deles há anos não produz nada incrível.”

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Macron faz a afirmação a seu amigo escritor Philippe Besson em Un Personnage de Roman (Um personagem de romance), uma crônica da campanha eleitoral que em maio o levou à vitória. Refere-se a intelectuais como os midiáticos Michel Onfray e Alain Finkielkraut, ao veterano reciclado como mediólogo e estudioso das religiões Régis Debray e ao velho maoista Alain Badiou.

Todos têm em comum ter dedicado palavras pouco amáveis ao jovem presidente. Coincidem em pertencer a outra geração, a dos pais e dos avós, em alguns casos. E o que é mais significativo: apesar das enormes diferenças entre eles, se inscrevem na tradição de intelectuais que tratam sobre o divino e o humano, uma geração de pensadores geralmente professores na hora de elaborar teorias brilhantes, apaixonados pelas espirais verbais e mentais, e pouco voltados a trabalhar com dados e com a realidade empírica. Este grupo e o daqueles que, muito presentes na mídia francesa e na indústria editorial, há alguns anos batizou o ensaísta Daniel Lindenberg como “os novos reacionários”, contrastam com outro lado: o que poderíamos chamar de os intelectuais de Macron. Não são obrigatoriamente todos seguidores do presidente. Alguns são muito críticos a ele. E é difícil encontrar neles nomes conhecidos pelo grande público ou traduzidos para outros idiomas.

Jean-Paul Sartre, em 1970
Jean-Paul Sartre, em 1970Daniel SIMON / gamma-rapho / getty

A chegada ao Eliseu de um presidente com uma sólida formação filosófica pode reavivar a discussão na França, onde a batalha política é uma luta de ideias, desde a Revolução Francesa ao affaire Dreyfus, da Guerra Fria, e os discursos na rua de Jean-Paul Sartre, aos debates sobre a imigração e o islamismo. Coincide, além disso, com a presença da França como país convidado da Feira do Livro de Frankfurt, inaugurada em 11 de outubro, uma plataforma para projetar as letras francesas, que até algumas décadas atrás marcavam as tendências intelectuais em boa parte do planeta.

Há alguns meses, durante um almoço em um café perto da praça da Bastilha, em Paris, o ensaísta Frédéric Martel pegou um pedaço de papel e traçou uma cartografia da intelectualidade francesa na era de Macron. Martel é o autor, entre outros livros, de Mainstream, a guerra global das mídias e das culturas e Smart. O você não sabe sobre a Internet, que mesclam ensaio com reportagem e clareza no estilo, com uma forma mais anglo-saxã do que francesa. Discípulo do historiador e cientista político Pierre Rosanvallon, um dos intelectuais mais rigorosos e influentes na França hoje.

Em uma extremidade do papel estavam intelectuais de direita (e lá estavam o recordista de vendas Éric Zemmour, estrela da extrema-direita pop; o próprio Finkielkraut, outro veterano que agora teoriza sobre a “identidade infeliz”). Na outra, intelectuais de esquerda, como o citado Onfray – tão produtivo que só em 2017 publicou seis livros, um deles, Décadence (Decadência), de 610 páginas – e o demógrafo Emmanuel Todd, que acaba de publicar Où en sommes-nous? Une esquisse de l’histoire humaine (Em que ponto estamos? Um esboço da história humana), outra dessas obras densas e sistemáticas – 496 páginas – que na França vendem dezenas de milhares de exemplares.

No esquema de Martel saltava à vista que a divisão esquerda/direita não era adequada para entender o panorama. Porque a batalha das ideias na França, hoje, como a política, é disputada em outro terreno. Os soberanistas contra os europeístas. Os intervencionistas contra os liberais. Os de baixo contra os de cima, segundo o vocabulário dos que dizem representar os de baixo. Ou os partidários do recuo identitário contra os da abertura ao mundo, caso se prefira usar o vocabulário dos últimos.

A disputa já não se dá entre esquerda e direita, e sim entre soberanistas e europeístas

Se na política temos Macron contra Jean-Luc Mélenchon, líder de uma esquerda alternativa que, como Macron, quer superar a divisão esquerda/direita, ocorre o mesmo entre os intelectuais. E, como o presidente é identificado com o liberalismo, palavra maldita na França, um rótulo possível para seus detratores poderia ser o de iliberais.

Catherine Audard, autora de Qu’est-ce que le libéralisme? Étique, politique, sociéte (o que é o liberalismo? Ética, política, sociedade), explica a alergia francesa ao liberalismo e a tendência a transformá-lo em caricatura, por três fatores. Primeiro, a confusão entre o individualismo e o egoísmo, detectada já por Tocqueville, pai fundador do liberalismo francês, e que tem sua origem na Revolução Francesa. O segundo é o nacionalismo, que também tem a ver com a rejeição ao individualismo, com a ideia de que “a nação não pode sobreviver com indivíduos que só pensam no interesse particular”, diz Audard. O filósofo rea­cionário Joseph de Maistre, lembra, dizia que o liberalismo era “um protestantismo levado até o individualismo absoluto”. O terceiro fator é o apego à autoridade. “No mundo liberal a ordem social é, como descreve Tocqueville, horizontal, e não vertical”, explica Audard.

As características do iliberalismo francês apontadas por Audard surgem nos “novos reacionários” que Daniel Lindenberg estudou em seu ensaio Le rappel à l’ordre. Enquête sus les nouveaux reáctionnaires (a chamada à ordem. Pesquisa sobre os novos reacionários). A sedução totalitária dos intelectuais franceses tem tradição: Charles Maurras é o modelo na extrema direita; Sartre na esquerda. Após um parêntesis nos anos oitenta, no qual segundo Lindenberg houve uma breve conversão dos intelectuais franceses à democracia liberal, o iliberalismo voltou com força com a bandeira da rejeição tanto ao que o autor chama de esquerda igualitária quanto à direita iliberal. O livro cita romancistas como Michel Houellebecq e Maurice G. Dantec, mas também os antes mencionados Finkielkraut e Zemmour. Muitos são unidos pela crítica ao Maio de 68 e sua herança, a nostalgia de uma França pretérita ou o receio em relação aos Estados Unidos, que encontra sua expressão mais recente em Civilisation, o ensaio em que Debray tenta demonstrar como os franceses se converteram em norte-americanos. O exemplo máximo desta americanização é, obviamente, Macron: liberal, ex-banqueiro e europeísta, traços detestados por esta corrente transversal.

Paul Ricoeur, em 1970
Paul Ricoeur, em 1970Yves LE ROUX / Gamma-Rapho / Getty

Lindenberg não o menciona, mas um dos referenciais desta corrente, e um dos mais incisivos, é Jean-Claude Michéa. Culturalmente de esquerda, intelectual antiprogressista admirado em círculos conservadores (“a Marx nunca ocorreu registrar seus combates políticos sob o signo da esquerda”, escreve), Michéa alega ir além do eixo direita/esquerda. Propõe voltar à “divisão anticapitalista que era a do socialismo, do anarquismo e do populismo originais”. E cita Orwell para lembrar que nem todo progresso é bom, e que o “velho mundo” não é somente o da “guerra, nacionalismo, religião e monarquia”, mas também o dos “camponeses, professores de grego e poetas”.

O norte-americano Mark Lilla constata, em seu ensaio A Mente Naufragada: Reação Política e Nostalgia Moderna, que durante décadas o pensamento reacionário esteve banido da vida pública por sua associação com o colaboracionismo na Segunda Guerra Mundial. “Hoje, volta a ser permissível”, afirma, citando Houellebecq e Zemmour, autor do bem-sucedido Le Suicide Français (“o suicídio francês”), ambos sintomas de um mal-estar, um pessimismo e uma nostalgia que a vitória eleitoral de Macron desmentiria.

A rigor, não existem os intelectuais macronianos, adverte Frédéric Martel, porque, “por definição, um intelectual digno desse nome rejeitará um rótulo tão reducionista: falar de intelectuais orgânicos, como foi o caso de Aragon com o Partido Comunista, ou Max Gallo e Debray com François Mitterrand, seria um pouco anacrônico”. E prossegue: “Ao mesmo tempo, há intelectuais que sentem afinidade, proximidade com Macron: são os que têm se reconhecido numa trajetória que se nutre da obra de Paul Ricoeur, mas também de um certo catolicismo social que gira em torno, mas não somente, da revista Esprit e, em parte, da fundação Terra Nova.”

Se olharmos para os referentes do presidente, encontraremos pensadores que, sem ser exatamente liberais, circulam num terreno que não é o da tradição iliberal. O destaque vai para Ricoeur, um dos grandes filósofos contemporâneos da França, morto em 2005. Macron trabalhou para ele como ajudante na época de estudante, e Ricoeur lhe dedica uma carinhosa menção no prólogo de um de seus últimos livros, La Mémoire, L’histoire, L’oubli (“a memória, a história, o esquecimento”). “Emmanuel Macron, escreve, “a quem devo uma crítica pertinente da escritura e da implementação do arcabouço crítico desta obra.” Quando Ricoeur confessa no livro que se sente “perturbado com o inquietante espetáculo oferecido pela excessiva memória aqui, o excessivo esquecimento acolá, para não falar da influência das celebrações e dos abusos da memória e do esquecimento”, é inevitável pensar nos exercícios de memória histórica do presidente sobre o regime de Vichy e a guerra da Argélia. O mandatário também se situa intelectualmente perto do grupo da revista Esprit, fundada em 1932 pelo católico Emmanuel Mounier, à qual Ricoeur se vinculou e para a qual ele mesmo colaborou.

“Hoje os pensadores são pessoas mais especializadas e menos ideólogos que defendem um catecismo”

O terceiro eixo do pensamento Macron – além do liberalismo e do grupo de Esprit e Ricoeur – não é estritamente macroniano, mas compartilha afinidades. Trata-se do grupo criado ao redor de Rosanvallon, mais próximo da social-democracia que do liberalismo macroniano, e da iniciativa A República das Ideias, que publica livros empíricos e técnicos sobre políticas públicas, às vezes mais próximos de documentos de think tanks que das grandes teorias dos intelectuais da velha escola. “Os intelectuais franceses hoje são pessoas mais especializadas, talvez mais sérias, talvez menos que em outra época ideólogos que defendam uma espécie de catecismo intelectual”, diz Frédéric Martel. “E foi superada também a chamada french theory de Bourdieu, Derrida e Deleuze, uma geração que já está na história, no século passado. Os intelectuais que forjaram sistemas desapareceram.”

Régis Debray – um desses pensadores veteranos e também prolífico – acaba de publicar seu segundo livro este ano, Le nouveau pouvoir (“o novo poder”). Propõe uma teoria segundo a qual Macron é a expressão, já não apenas da americanização da França, como indicava em seu ensaio anterior, mas de um neoprotestantismo que se infiltra nas culturas católicas. Debray dedica o último capítulo ao que denomina de “geração Ricoeur”. Explica que Ricoeur, que era protestante, vinculava a esquerda à confrontação, a direita à exclusão e o centro à negociação. E ele se situava no centro, como o “grande reconciliador das tradições de esquerda e direita”.

Fala de Ricoeur, mas não se aplica perfeitamente ao seu discípulo mais conhecido, o presidente Macron.

 

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