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O Brasil na encruzilhada

Os caminhos tomados até aqui nos conduziram a uma encruzilhada de uma sociedade totalmente dividida

Rampa do Palácio do Planalto
Rampa do Palácio do Planalto AGPT

Em “Argumento”, composição de 1975, Paulinho da Viola advertia: “Faça como um velho marinheiro / que durante o nevoeiro / leva o barco devagar”. O Brasil encontra-se envolvido em um denso nevoeiro, e o estranho silêncio que nos circunda parece prenunciar uma catástrofe. Deveríamos, como sociedade, tomar hoje uma decisão que garantisse nossa sobrevivência amanhã: levar o barco devagar, nestas circunstâncias, significaria amarrar um acordo nacional entre as forças progressistas para impedir que o pior aconteça.

A mais recente pesquisa de opinião pública, realizada pelo Instituto Datafolha, mostra que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem 35% das intenções de voto para as eleições presidenciais do ano que vem e que venceria qualquer adversário no segundo turno. No entanto, a candidatura de Lula é uma incógnita: o petista foi condenado, em primeira instância, a nove anos e seis meses de prisão, e, caso a sentença seja ratificada em segunda instância, ele estará impedido de concorrer, pela Lei de Ficha Limpa. Além disso, Lula é réu em outras cinco ações penais.

Em outra pesquisa, o Instituto Datafolha constatou que 54% dos entrevistados acreditam que, considerando o que já foi revelado pela Operação Lava Jato, Lula deveria ser preso – contra 40% que disseram o contrário e 5% que não souberam responder. Ou seja, os caminhos que tomamos até aqui nos conduziram a uma perigosa encruzilhada, a de uma sociedade totalmente dividida. Impedir a candidatura de Lula é calar a voz de uma parcela considerável da população – tê-lo na disputa é correr o risco de elegermos um presidente condenado por crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Outra consulta do Instituto Datafolha indicou que apenas 26% dos eleitores admitem votar em um candidato indicado por Lula, no caso de seu impedimento, o que nos empurraria para um cenário de pulverização dos votos, com a possibilidade de eleição de um presidente da República pouco representativo. Só para lembrar, o golpe perpetrado contra a presidente Dilma Rousseff, legitimamente eleita num pleito incontestado, colocou em seu lugar Michel Temer, cujo desastroso Governo conta hoje, segundo pesquisa da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), com uma quase unânime rejeição – somente 3% da população aprova o peemedebista.

Para tornar o quadro ainda mais complicado, o Congresso Nacional vem se mostrando totalmente desvinculado das demandas da sociedade. O Instituto Datafolha mostrou que 89% da população pensa que os deputados federais deveriam autorizar o prosseguimento da denúncia da Procuradoria Geral da República (PGR) contra Temer por obstrução à Justiça e organização criminosa. Se a Câmara assim decidisse, o Supremo Tribunal Federal (STF) poderia aceitar ou não a denúncia e, caso Temer virasse réu, ele seria imediatamente afastado do cargo, assumindo o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. A questão é que os deputados, que já rejeitaram uma primeira denúncia contra Temer em agosto, deverão fazer o mesmo agora, colocando seus interesses escusos e corporativos acima das exigências coletivas.

Interesses escusos e corporativos que também unem os senadores empenhados em salvar o mandato de Aécio Neves. O tucano teve seu afastamento decretado pelo STF, como medida cautelar no inquérito que ele responde por corrupção passiva e obstrução da Justiça. Só que o Senado resolveu colocar em votação a decisão judicial, que, se rejeitada, abrirá uma crise institucional sem precedentes. O curioso é que o enfrentamento do Senado com o STF inclui em suas fileiras até mesmo a bancada do PT, partido historicamente adversário dos tucanos. Na verdade, o acordo é de reciprocidade: 24 dos 81 senadores estão sob investigação na Operação Lava Jato.

Enquanto isso, diante da sensação de desordem que se abate sobre o país – desordem econômica, social, institucional – ganham musculatura os arautos do autoritarismo, do obscurantismo, do moralismo fundamentalista. Pesquisa do Instituto Paraná revelou que 43,1% dos entrevistados apoiam uma intervenção militar – percentual que alcança 46,1% na faixa entre 16 e 24 anos. Talvez por isso, generais como Antônio Hamilton Mourão (que, funestamente ostenta o mesmo sobrenome de Olímpio Mourão filho, general que precipitou o golpe militar de 1964), venham se sentido à vontade para fazer ameaças veladas. E, ao invés de receber algum tipo de punição por sua clara insubmissão, ganha apoios na sociedade civil, inclusive de um pré-candidato à Presidência da República, o capitão reformado do Exército, Jair Bolsonaro.

Os políticos que se dizem progressistas, forem de que partido forem, ao invés de ficarem defendendo seus interesses mesquinhos, deveriam tomar juízo e juntar forças para preservar nossa fragilíssima democracia. Enquanto resta tempo...

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