Terremoto no México

Terremoto no México que já deixou mais de 64 mortos devastou as regiões pobres

Medo, nervosismo, incredulidade, confusão: assim foi sentido o tremor no México

Moradores da Cidade do México após o terremoto
Moradores da Cidade do México após o terremoto (EFE)

Confusão, nervosismo, medo, incredulidade e pânico... muito pânico. O terremoto que sacudiu o México na quinta-feira começou alguns minutos depois da meia-noite e pegou de surpresa 50 milhões de mexicanos. O terremoto de magnitude 8,2 foi o maior terremoto em quase um século no país.

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“Não tenho medo dos tremores, vivi aqui toda minha vida”, conta Jaime Gómez, morador Cuauhtemoc, um bairro no centro da capital. “Como houve um alarme falso um dia antes, não pensamos que era sério, mas depois percebemos que desta vez era particularmente forte e que devíamos ter cuidado”, acrescenta Gómez, de 42 anos. Viver na Cidade do México é se acostumar a viver com terremotos.

Mas o tremor da noite de quinta-feira foi diferente. Há muito tempo não se sentia um terremoto assim. “Fui acordado pelos gritos dos vizinhos, obviamente, foi muito forte, mas o mais impressionante foi o pânico das pessoas”, conta Karla, 32 anos, do bairro Narvarte.

O epicentro foi em Chiapas, mas Oaxaca é o epicentro da tragédia: as autoridades confirmaram a morte de vinte pessoas. Quando chegaram as primeiras imagens do sul do país, a história deu um giro radical: o colapso de um hotel em Matías Romero (Oaxaca), os danos na prefeitura de Juchitán de Zaragoza (Oaxaca) e a confirmação das primeiras mortes em San Cristóbal de las Casas, em Chiapas. A primeira informação que havia chegado era de uma capital ilesa e depois os informes do sul do país completaram um panorama trágico e inesperado.

“Você sabe que está no mesmo lugar e que poderia ter sido você”, diz Tania Navarro de San Cristóbal. A noite dela mudou de um momento para outro. Sua sobrinha tinha acabado de nascer às oito horas da noite e sua cunhada ainda estava no hospital após o parto. Quando sentiu o primeiro tremor do terremoto, os médicos pediram que seu irmão e sua esposa saíssem do hospital, mas eles se negaram. “A verdade é que não sabemos o que fazer quando chega o momento de um terremoto assim”, admite.

San Cristóbal ficou sem luz por uma hora. Na madrugada era possível ouvir ao longe o som das sirenes e alarmes sísmicos, de acordo com o testemunho de Navarro. “Para mim, esse foi muito pior do que o de 1985, pensei que o prédio ia desmoronar”, conta. “Tenho um casaco e um par de tênis preparados para mim e para minha filha caso algo assim aconteça”, diz Navarro, alerta.

Em Juchitán, um morador encontrou uma bandeira do México após o colapso do palácio municipal e a enfiou sobre os escombros: uma das imagens mais divulgadas após o terremoto e símbolo da resistência no sul do México. O pequeno município do Istmo foi destruído, não há eletricidadmore ou água, foram registrados saques em lojas e centenas de pessoas esperam para poder voltar para suas casas. Cerca de 100 casas foram completamente destruídas e 500 pessoas permanecem em abrigos.

“Precisamos que as pessoas que possam nos apoiar façam isso, há quatro pessoas presas”, diz uma jovem moradora em um vídeo que se tornou viral nas redes sociais. O único hospital popular na cidade está seriamente danificado e precisou ser evacuado, segundo as autoridades municipais. O hospital não está funcionando e o trabalho de atenção aos feridos e doentes está sendo feito no pátio do hospital.

“Há uma grande necessidade de suprimentos médicos, especialmente após o colapso do Hospital Civil”, afirmou Jaime Mendoza, repórter de Juchitán: “Os feridos ainda estão chegando, há muita necessidade até das menores coisas”. Há pelo menos 58 mortos. Todos dos Estados do sul do México.

Enquanto Juchitán desmoronava, o resto do país, menos afetado, tentava superar o choque. “Percebi pois todas minhas coisas estavam se movendo: minha cama, as lâmpadas, tudo...”, comenta Jordan, de 19 anos, que vive em Chimalhuacán, no norte da região metropolitana. Jordan mostra os vídeos gravados com seu telefone. Havia uma necessidade de contar, de documentar. Não havia outro tema de conversa na manhã de sexta-feira. “Onde você estava quando começou o terremoto?”. Essa era a pergunta mais recorrente e praticamente inevitável na rua, ao tomar o transporte público e ao revisar os grupos de WhatsApp.

“Estava a ponto de tomar banho, já estava nu e tive que me vestir de novo”, conta, rindo, Juan Carlos Contreras, de 24 anos. “Começou o alarme sísmico e saí como pude”, afirma o vizinho do bairro Pensil Sur, no oeste da metrópole. Contreras percebeu a magnitude quando viu todos os vizinhos nas calçadas. Muitos ficaram surpresos ao ver luzes no céu. Eram descargas de energia liberadas durante um terremoto, explicaram especialistas em sismologia.

Em outras partes da cidade não se ouviram sirenes. Os avisos foram diferentes. “Ouvimos os cães latindo, muito forte, e os pássaros que tenho estavam muito assustados, são os primeiros a perceber”, afirma Julia Pérez, de 60 anos, que é moradora de Ciudad Nezahualcóyotl, nos arredores da capital.

A coisa mais importante era conversar com a família e garantir que todos estivessem bem. Os moradores contam que as linhas de telefone colapsaram e tiveram que tentar várias vezes antes de se comunicar com a família e amigos. Os cortes no fornecimento de eletricidade complicaram a tarefa. “Liguei para meus filhos quando vi que tudo estava se movendo, pedi que tivessem cuidado”, conta Pérez, sem ocultar sua preocupação.

“Minha filha estava muito nervosa, disse que não tinha acontecido nada, que tudo ia ficar bem”, conta Julio Mayor de Iztapalapa, também no leste da cidade. Mayor diz que estava tranquilo e ao mesmo tempo desesperado por sair de casa. A lembrança de 1985 voltou à mente. “Percebi que o terremoto era de movimento oscilatório e não me preocupei tanto, o daquela vez tinha sido trepidatório e a sensação foi muito diferente”, lembra. “Acalmei minha filha, mas com tudo isso não consegui dormir tranquilo”, confessa.

Quando parecia que tudo tinha ficado para trás, começou uma calma tensa. Tinha passado tudo? Era seguro voltar para casa? Era preciso esperar as réplicas. Era hora de ver a imprensa ou ligar o rádio e a televisão. Não havia mortos ou feridos, pelo menos na capital: “Nos salvamos”.

Os moradores da Cidade do México “saíram” nas redes sociais para garantir que os danos na cidade tinham sido mínimos. Então veio o balde de água fria: três mortos em Tabasco, sete em Chiapas, 26 em Oaxaca. Tudo o que tinha acontecido na Cidade do México pareceu menor à luz do ocorrido em outras partes do país. O terremoto tinha sido terrível com os Estados mais pobres. “Dá muita tristeza ver como atingiu algumas partes, mas somos um país que viveu vários terremotos: já nos recuperamos de vários e temos que seguir em frente”, conclui Mayor antes de olhar para o vazio e retomar o caminho do trabalho na capital.

Danos menores na Guatemala

José Elías

Até as 8h da sexta-feira (10h em Brasília), as autoridades do Instituto de Sismologia e da Coordenação para a Redução de Desastres (Conred) confirmam, em conferência de imprensa que não há vítimas mortais como resultado do terremoto de 7,7 graus na escala Richter que na quinta-feira abalou a Guatemala. Foram registradas, isso sim, 71 casas danificadas e três estradas afetadas por deslizamentos de terra.

A província de San Marcos, na fronteira com o México, é a mais afetada, com 22 casas derrubadas. Entre os edifícios mais danificados está o hospital regional, que ficou sem teto.

As autoridades descartam a possibilidade de um tsunami, como se temia após o terremoto, e alertam para a possibilidade de réplicas que poderiam chegar a magnitudes importantes. Em cinco das 22 províncias, as mais afetadas, o Ministério de Educação suspendeu as aulas para proteger as crianças.

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