Renzi promete reconstruir a Itália sem obedecer o limite de déficit da UE

O maior terremoto desde 1980 abala o centro da Itália sem causar vítimas fatais

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“Reconstruiremos tudo”, anunciou Renzi, “as casas, as empresas, as igrejas. Esses locais são a alma da Itália. Temos os recursos necessários e colocaremos à disposição das pessoas sem qualquer tipo de respeito a regras tecnocráticas que negam a identidade de nosso país e de nosso território”. O chefe de Governo italiano, que convocou para domingo, dia 30, um conselho extraordinário de Ministros, já se queixou, na terça-feira passada, as exigências de Bruxelas, que pede à Itália que ajuste seus orçamentos para se adaptar ao déficit enquanto outros países lavam as mãos diante do drama dos refugiados e migrantes.

Há anos, o Governo italiano se encarrega praticamente sozinho do resgate de centenas de milhares de pessoas que tentam chegar à Europa do litoral da Líbia. “A Europa nos diz tudo sobre como devemos pescar o peixe-espada”, costuma repetir Renzi, “mas não nos ajuda a salvar crianças no Mediterrâneo.”

Um esforço orçamentário que agora se complica com os efeitos dos terremotos. Além do terrível custo de vidas humanas —o abalo de 24 de agosto acabou com a vida de 297 pessoas nas localidades de Amatrice, Accumoli e Arquata del Tronto—, o Executivo de Renzi está diante do desafio de reconstruir as zonas devastadas e realojar ao mesmo tempo os milhares de moradores que perderam suas casas. Aos atingidos pelo terremoto de agosto e da quinta-feira passada se unem agora os vizinhos de Norcia. Às 7h40 deste domingo, um terremoto de magnitude 6,5 —mais forte até do que o de 6 de abril de 2009, que provocou a morte de 308 pessoas, feriu 1.500 e deixou sem casas 50.000 em L’Aquila— voltou a atingir o centro da Itália e foi sentido em todo o país, de Bari a Bolzano e até na Áustria. Em Roma, as casas balançaram por vários segundos e tanto o metrô como a Basílica de São Paulo Extramuros foram fechadas temporariamente para se avaliar os danos.

À comoção inicial sucedeu-se a surpresa diante da ausência de vítimas. Logo veio a explicação das regiões afetadas. Depois dos fortes abalos de quarta-feira passada, a maior parte dos moradores tinha optado por ir embora ou pernoitar em barracas ou no interior de seus veículos. Um deles era Marco Rinaldi, o prefeito de Ussita (província de Macerata, região de Las Marcas). “Caiu tudo, vejo colunas de fumaça, é um desastre. Eu estava dormindo no carro, vi o inferno.” Outro dos prefeitos da região, Mauro Falcunni, de Castelsantangelo, também estava fora: “Estou em Fano, mas me disseram que há desmoronamentos, que foi um desastre. A terra se abriu, há fumaça, um desastre”.

Um desastre que, segundo os dados de Fabrizio Curcio, chefe da Defesa Civil, só afetou o patrimônio histórico e artístico. A única vítima grave foi uma mulher de 50 anos que, ao sentir a violência do terremoto, tentou se salvar atirando-se pela janela. O restante dos feridos, em torno de 20, são leves.

25.000 sem teto

O abalo, registrado a 10 quilômetros de profundidade com epicentro entre os municípios de Norcia, Castelsantangelo su Nera, Preci e Visso —uma região montanhosa entre as regiões da Umbria e Las Marcas— destruiu grande parte da belíssima basílica de São Benedito. As monjas do convento conseguiram se salvar e, ao lado de um grupo de vizinhos, se puseram a rezar na praça. Também veio abaixo a igreja de Santa Rita, cuja fachada tinha sido reconstruída com pedras procedentes de terremotos anteriores.

Segundo as autoridades, cerca de 25.000 pessoas não poderão voltar a suas casas até que, ao longo dos próximos dias, o risco seja avaliado. Durante toda a tarde, as fortes réplicas continuam ocorrendo. Norcia, tão longe do mar, parecia um barco em meio a um temporal, com os mastros e velas destruídos e a tripulação aterrorizada. As contínuas réplicas provocavam uma sensação de enjoo, de tensão contínua, de medo — em uma noite adiantada pela mudança de horário.