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Um presidente justiceiro, um pacificador ou um mais do mesmo?

O Brasil ainda parece estar à espera de alguém que demonstre que é capaz de pensar mais no futuro do país do que em suas ambições pessoais

Um presidente justiceiro, um pacificador ou um mais do mesmo?

Os assessores de imagem deveriam dizer aos candidatos à Presidência da República que ninguém consegue se eleger somente se candidatando contra alguém infundindo medo ou vendendo mais do mesmo. Quando chega o momento de escolher um candidato, os 140 milhões de potenciais eleitores porão os olhos em quem for mais capaz de entusiasmá-los e uni-los.

Não bastará, por exemplo, aparecer como a antítese de alguém para garantir os votos se não souber oferecer algo mais aos descrentes da política. Se há algo de que necessitam aqueles que o mau exemplo dos governantes dividiu e contrapôs não é de um justiceiro, alguém que queira se limitar a colocar ordem, ou alguém que volte a governar com os corruptos, mas de alguém que dialogue, um pacificador que saiba fazer o milagre de devolver às pessoas o gosto de se unirem para reconstruir o país. Milhões de cidadãos estão se cansando das guerras verbais, das ameaças e dos conflitos entre os políticos e de suas artimanhas para conquistar o poder de costas aos desejos da sociedade.

O velho axioma “divide e vencerás” talvez não funcione dessa vez com os brasileiros mais inclinados a buscar novos motivos para fugir dessa crispação que chegou a dividir até mesmo os amigos. Posso estar errado, mas uma análise hermenêutica e menos superficial das redes sociais me faz intuir que o Brasil está em busca de alguém que liberte. De alguém que traga de volta a harmonia e o gosto de lutar juntos por uma causa capaz de expressar o melhor da alma brasileira, que não está nos extremismos, no confronto ou na guerra e menos ainda no prato requentado dos corruptos. Se fosse esse o caso, seria necessário analisar se os candidatos que até agora surgem como possíveis candidatos à Presidência aparecem como capazes de agregar e entusiasmar sem necessidade de desqualificar seus oponentes, ou se acreditam que o melhor é se apresentar com a espada desembainhada. Dos personagens que começam a aparecer nas pesquisas como possíveis candidatos, existe algum capaz de apostar na concórdia nacional, ou continuam convencidos de que o que lhes dará a vitória será a tentativa de esmagar seus oponentes ou de apresentar mais do mesmo?

Nem Lula ganhará se tentar o “nós contra eles”, ou se sacudir o discurso de “extirpar da política” seus adversários, nem Bolsonaro ou Doria, se permanecerem fechados em uma campanha agressiva, o primeiro com uma linguagem vulgar, atacando sem nuances Lula e o PT, como tampouco o fará Ciro Gomes, o ex-ministro de Lula, se não contiver suas explosões que provocam mais medo do que consenso. O pragmático Lula, ao qual não falta olfato político, entendeu isso e já disse que sonha em voltar para “devolver a confiança aos brasileiros”. Ele não especificou, no entanto, como o faria. O recente abraço em Renan Calheiros, em Alagoas, e os elogios que lhe fez não parecem ser o melhor presságio. Lula iria novamente junto com o partido de Temer?

E Marina Silva? Por enquanto, é um enigma. Ela é, sem dúvida, uma mulher que geralmente não costuma ter o pecado dos apressados e que capitaliza milhões de votos, mas precisará sair do seu retiro e do seu silêncio para que saibamos que Brasil nos oferece. Ela é um dos poucos políticos que lê e reflete, que sabe esperar sentada na margem do rio. Existem, no entanto, momentos da história em que é necessário sair do deserto para enfrentar a realidade de um país que já sabe o que não quer, mas que parece ainda não ter encontrado o que procura.

Alguém disse que “o mundo não será daquele que mais te adula e repita que te ama, mas de quem souber demonstrar isso melhor”. O Brasil ainda parece estar à espera de alguém que demonstre que é capaz de pensar mais no bem do futuro do país do que em suas ambições pessoais de poder. De alguém que, em vez de infundir medo e excomungar seus adversários, seja capaz de acolher a todos. Morto o caudilho Franco, a Espanha, depois de uma feroz guerra civil e de 40 anos de ditadura, estava dividida em duas. Lembro-me que diante do cadáver do ditador, o então rei Juan Carlos pronunciou uma frase feliz que quebrou o gelo do medo: “Serei o rei de todos os espanhóis”. Ele o foi, e a Espanha começou pouco a pouco a respirar junta e com esperança. E hoje é uma democracia moderna e consolidada. O Brasil não está saindo de uma ditadura, mas de um cataclismo político e econômico que o dividiu. Precisa, antes de qualquer coisa, de alguém que diga com credibilidade: “quero ser o presidente de todos e cada um dos brasileiros sem excluir ninguém”.

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