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Chapecó, a cidade centenária que supera o luto com trabalho e cooperação

Abalado pela tragédia da Chapecoense, município de Santa Catarina completa 100 anos. Reconstrução do time, emprego em alta e crescimento econômico marcam centenário

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Tantas amostras de solidariedade pelo mundo fizeram com que Chapecó, que completa 100 anos nesta sexta-feira, aos poucos trocasse as lágrimas pelo suor. Decidiu superar o luto com muito trabalho e cooperação, que sustentam uma sólida atividade econômica e foram determinantes no resgate do clube que levou seu nome a vários cantos do mundo. A Chapecoense tornou-se não só uma embaixadora, mas também um símbolo de autoestima da cidade. Tal qual o time, que ascendeu da quarta divisão à elite do futebol brasileiro em cinco anos, o município cresce a passos largos sob impulso do agronegócio, que responde por mais de 90% das receitas. Boa parte delas provém da Aurora Alimentos. O grupo é o terceiro maior produtor de carnes do país. Graças a ele, Chapecó aparece na lista das 40 cidades brasileiras que mais geraram empregos no primeiro semestre de 2017.

Patrocinadora da Chapecoense, a empresa surgiu em 1969 após a junção de oito cooperativas da região. Atualmente, tem fábricas espalhadas por Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e Paraná, emprega mais de 27.000 funcionários e engloba 70.000 famílias associadas em 13 cooperativas. Mesmo com a crise econômica, a Aurora mantém lucro líquido acima de 100 milhões de reais por ano e mais de 70% de sua produção voltada para o mercado nacional. A empresa é o motor da economia de Chapecó. Enquanto a cidade de 210.000 habitantes trabalha com orçamento anual na casa dos 700 milhões de reais, o faturamento do grupo supera 8 bilhões de reais por ano. “A Aurora movimenta em 12 meses o que a cidade leva 12 anos para arrecadar”, afirma o prefeito Luciano Buligon.

Em seu gabinete na Prefeitura, há um armário com espaço reservado para um paletó e uma camisa da Chapecoense. Buligon frequenta a todos os jogos da equipe em casa. Ele estava na lista de passageiros do voo da LaMia em direção a Medellín. Por casualidade, escapou da tragédia aérea para comparecer a uma reunião em São Paulo. Frustrado ao saber que só poderia viajar à Colômbia no dia seguinte, participou do encontro com empresários e autoridades, em que debateu-se a modernização do aeroporto de Chapecó. “Foi essa reunião que me tirou daquele avião”, conta o prefeito, que hoje encara o projeto como uma missão pessoal. Principalmente porque o aeroporto se transformou em um dos gargalos para o crescimento da cidade. Até mesmo Buligon já teve de cancelar compromissos oficiais por atrasos e cancelamentos de voo devido à modesta estrutura para pousos e decolagens. O plano de duplicação da capacidade de passageiros com um novo terminal passa pela concessão do aeroporto à iniciativa privada, que deve ser formalizada na primeira metade de 2018.

A superexposição da cidade ao longo da repercussão do acidente aéreo tem aberto portas para melhorar sua infraestrutura e oportunidades de novos negócios, mas tanto dirigentes da Chapecoense quanto a Prefeitura se esforçam para não passar a imagem de oportunismo diante do sofrimento alheio. “Ainda vivemos a dor de quem perdeu pessoas tão próximas e queridas por toda comunidade chapecoense. Faço questão de deixar bem claro que não estamos nos aproveitando da tragédia. Mas é inegável que a solidariedade que recebemos do mundo inteiro contribuiu muito conosco”, afirma Luciano Buligon, que agora, ao participar de reuniões com executivos, parceiros potenciais e políticos em Brasília, abre mão da pasta que carregava para baixo e para cima com folhetos didáticos sobre a história da cidade. “Antes, ao pleitear recursos para o município, eu tinha de explicar que Chapecó não fica no litoral, que o nosso forte é produção de proteína animal. Hoje isso não é mais necessário. Somos mundialmente conhecidos.”

Um exemplo dessa boa vontade é a proposta que pretende ampliar a Arena Condá para 33.000 lugares – atualmente o estádio comporta 22.000 torcedores. Escritórios de arquitetura se ofereceram para elaborar o projeto, que, nas contas da Prefeitura, demandaria cerca de 1 milhão de reais, sem custos. Em maio, o prefeito e o governador de Santa Catarina encontraram o presidente Michel Temer e conseguiram uma verba de 15 milhões de reais para bancar a reforma. O projeto ainda prevê a construção de um memorial em homenagem aos 71 mortos no acidente. Dona do estádio, a Prefeitura cede o gramado para os jogos da Chape, mas também aproveita sua estrutura para abrigar órgãos públicos, como o Procon, um colégio, um centro odontológico e as secretarias de saúde, esportes e habitação. “A Arena Condá é um equipamento sustentável, que serve tanto ao futebol como à população”, diz o prefeito.

Há ainda outras frentes a se explorar além do agronegócio e do esporte de alto rendimento – Chapecó formou um notável time de vôlei na década de 90 e também tem tradição no futsal –, sobretudo a do turismo empresarial. Em dezembro do ano passado, menos de um mês após a tragédia, a cidade recebeu a visita de uma comitiva do Catar, liderada por um xeque da mesma família do emir Tamim Al-Thani, dono do PSG. A intenção era prestar solidariedade e abrir um canal de comunicação com vistas a futuras possibilidades de negócio entre empresas do município e o país árabe. Durante sua breve estadia, o xeque chegou a comparar o Catar a Chapecó, afirmando que “se tratam de duas pequenas potências com economias pulsantes”. Em outubro, a cidade sediará a 50ª edição da Efapi, uma das maiores feiras de agropecuária e exposição comércio-industrial do Brasil, que movimenta a cidade ao longo de 10 dias. É o carro-chefe no plano para torná-la um polo do turismo de negócios.

Com o luxo de ter uma empresa maior que o município como alicerce de suas finanças, a centenária Chapecó precisa lidar com urgências não só no campo da infraestrutura, como também em questões como saúde – vereadores cobram a Prefeitura pelo compromisso de construir três novas unidades de saúde que ainda não foram inauguradas – e segurança – o número de furtos e roubos quase dobrou no último ano. “Encontrar saídas em conjunto sempre foi uma praxe da cidade. Problema da polícia é do prefeito, problema do prefeito é da polícia. Problema da Chapecoense é do prefeito, problema do prefeito é da Chapecoense. Esse é o nosso grande diferencial”, afirma Buligon, que frequentemente tem convocado empresários, educadores, policiais e assistentes sociais para discutir soluções para brecar a escalada da violência.

Outra questão prioritária é manter a Chapecoense, que tem Aurora e Prefeitura como suas principais parceiras, entre as referências de gestão para o futebol nacional. Famílias das vítimas do desastre aéreo ainda cobram indenizações pelo acidente na Justiça e acusam a diretoria do clube de não priorizar o acerto de contas. Plínio David de Nês, o Maninho, presidente da Chape e fundador de um dos primeiros frigoríficos da cidade, diz que a equipe segue com suas atenções voltadas para os familiares. “Não é uma situação fácil, envolve seguradoras, burocracias, governos... Mas, na medida do possível, estamos tentando levantar receitas para repassar às famílias.”

Caso a Justiça brasileira aponte o clube, que luta contra o rebaixamento no Campeonato Brasileiro, como responsável pelas indenizações, as até então equilibradas finanças da Chapecoense correm o risco de sofrer um impacto irreparável. No entanto, o prefeito Luciano Buligon conserva o otimismo no poder de superação para que a Chape continue sendo a impulsora de autoestima na terra do índio Condá. “Nos 100 anos de Chapecó, nunca houve nada tão traumático quanto a tragédia da Chapecoense. Todo mundo na cidade torce por ela. A reconstrução do clube é a reconstrução de todos nós.”