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O petroestado angolano em crise nas mãos do herdeiro político de Dos Santos

Em meio às eleições, queda do preço do petróleo provoca a primeira recessão no país africano em 15 anos

Eleições Angola 2017
Vendedores ambulantes angolanos AFP

O Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA), no poder desde a independência de Portugal em 1975, foi o partido mais votado nas eleições de quarta-feira, ao obter 65% dos votos de acordo com os resultados preliminares anunciados na quinta-feira – o principal partido de oposição, a UNITA, conquistou 24% dos votos. João Lourenço, de 66 anos, será o próximo presidente depois de um período de quase 40 anos em que Angola foi comanda por José Eduardo Dos Santos. O pleito é histórico pela passagem de bastão – Dos Santos foi praticamente o único presidente angolano pós independência –, mas também porque se dá em meio à primeira recessão econômica do país em quinze anos, motivada pela crise do petróleo.

A história do combustível fóssil se confunde com a própria história e vida política do país africano. É na Avenida Lênin, esquina com a do Comandante Che Guevara, em Luanda – uma capital cheia de ruas com referências socialistas e marxistas de todo o mundo –, que se chega à sede da gigante paraestatal SONAGOL (Sociedade Nacional de Combustíveis de Angola). O elegante e imponente edifício de vidro, que se ergue próximo ao mar, é dirigido por Isabel dos Santos, a filha do futuro ex-presidente Dos Santos. Fato revelador do quanto história e destino do país estão entrelaçados com o petróleo.

A SONAGOL é o símbolo de uma economia que “caminha no ritmo do petróleo”, explica Carlos Rosado de Carvalho, o diretor do jornal econômico Expansão. Tanto, que o petróleo representa 95% das exportações de Angola, e quase a metade do PIB – 45% —, de acordo com números da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), de quem Angola faz parte desde 2007. Além disso, entre 70% e 80% da renda do Governo vêm do petróleo. A queda do preço do produto fez com que a economia do país entrasse em recessão pela primeira vez desde 2002.

Dessa forma, “se o preço do petróleo vai bem, a economia angolana vai bem; quando cai, afundamos na crise”, diz Carvalho. “Mas a grande dependência do petróleo não é o problema, mas o sintoma. A febre não é uma doença, é o aviso do corpo de que algo não funciona. O verdadeiro problema é a falta de capacidade de Angola de produzir bens e serviços com um preço e qualidade competitivos a nível internacional. Precisamos diversificar urgentemente”.

De acordo com o jornalista econômico, Angola tem um péssimo ambiente de negócios, com uma burocracia excessiva e complicada que alimenta a corrupção e “uma lei de investimentos que não é amiga dos investidores”. Por isso, os próprios homens de negócios angolanos preferem investir no estrangeiro. Entre 2002 e 2015, as empresas e pessoas de Angola investiram 160 bilhões de euros (594 bilhões de reais) no exterior, segundo o Centro de Estudos e Pesquisa Científica da Universidade Católica de Angola. Aqui “se criam dificuldades para se vender facilidades”.

Portugal se transformou na meca para os empresários da elite angolana, liderada pela família do presidente José Eduardo dos Santos – que agora se retira após 38 anos no poder – e pelas pessoas de seu círculo próximo. “Foi criada uma burguesia empresarial através de uma acumulação primitiva de capital”, diz Rosado de Carvalho. Segundo maior exportador de petróleo do continente, Angola é também a terceira maior economia da África subsaariana, atrás da nigeriana e da sul-africana.

O retrato está entre os vidros da SONAGOL, dirigida pela filha mais velha de Dos Santos, e as prostitutas da feira de Cacuaco, um dos maiores bairros populares de Luanda, que oferecem seus serviços por menos de três reais por programa. Entre um extremo e outro, existem poucos quilômetros e muitos milhões de diferença. Angola, com quase a metade da população urbana e um quinto dos 29 milhões de habitantes concentrado na capital está, de acordo com o índice GINI, entre as trinta sociedades mais desiguais do mundo.

“A princesa”, como Isabel é chamada, a mais velha e mais privilegiada dos filhos de Dos Santos, tem ações e controla muitas das grandes empresas do país, mas também tem uma grande influência nos negócios em Portugal e até mesmo na Espanha. Além de dirigir a SONAGOL, Isabel dos Santos é acionista da UNITEL, a maior empresa de celulares angolana, do gigante energético português Galp, da empresa portuguesa de telecomunicações NOS e de muitos outros negócios que também incluem o setor bancário. Ela se define como “empreendedora” em sua descrição do Twitter.

O auge do petróleo coincidiu, em 2002, com o fim de uma guerra civil de 27 anos e desde então o crescimento do país disparou graças ao produto, que agora também o levou à recessão. Entre 2002 e 2008 o PIB cresceu anualmente sempre com cifras de dois dígitos. Também existem recursos diamantíferos, no Norte, “mas não são significativos”, diz Rosado de Carvalho, que afirma que “se não se investir em agricultura, em indústria e o mercado não for aberto, a crise pode levar a uma revolução”. Agora, com a passagem de poder marcada pelas eleições desta quarta-feira, os olhos se voltam para como João Lourenço, o novo presidente, lidará com a recessão.

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