Seleccione Edição
Login

Agualusa: “Angola, como o Brasil, vive como um país cansado, dilacerado”

Na programação paralela da Flip, angolano fala sobre o seu 'A Sociedade dos Sonhadores Involuntários'

José Eduardo Agualusa lê trecho do livro 'A Sociedade dos Sonhadores Involuntários'

Numa esquina de Huambo, cidade de 1 milhão de habitantes no centro de Angola, um garoto assobia uma melodia de Paulinho da Viola. Um huambense, de passagem, reconhece a canção e tece comentários acerca do Brasil, da qualidade do samba do músico carioca e de suas próprias preferências pelas cores verde e rosa – símbolos da Estação Primeira de Mangueira. A cena, que tem algo de  quimérica, é retirada do livro A Sociedade dos Sonhadores Involuntários, que o escritor angolano José Eduardo Agualusa acaba de lançar pela Editora Planeta. Na Festa Literária de Paraty (Flip), onde participa de eventos fora da programação oficial, Agualusa diz que a relação de seus personagens com os sonhos é como a que ele próprio cultiva: define-se como um sonhador profissional.

Assim, a integração entre países lusófonos presente na cena de seu último romance e em muitos de seus outros tantos – pra lá de 20 – livros é só um sonho? Porque ao menos no Brasil, é necessário admitir, ainda pouco se sabe de Angola, Moçambique, em suma, de África. Ele acredita que não. Brasil e Angola são países siameses, com uma história compartilhada, que é cada vez mais perseguida, estudada e cultivada. “O Brasil já foi totalmente fechado sobre si próprio. Ignorava não apenas África, mas o resto do mundo. Hoje melhorou bastante. Um bom exemplo é a própria literatura, hoje você tem um escritor africano, e estou a falar de Mia Couto, que vende mais do que a generalidade dos brasileiros, por exemplo”.

Em A Sociedade dos Sonhadores Involuntários, Agualusa romantiza a história recente dos revus, um movimento pacifista de jovens angolanos que, inspirados pela Primavera Árabe, de 2011, saíram às ruas pedindo por democracia – o país africano tem sido presidido por José Eduardo dos Santos desde 1979, quatro anos depois da independência. Os assim chamados revus ficaram famosos quando, em 2015, um de seus integrantes, o rapper Luaty Beirão – que está na programação principal da Flip deste sábado – foi preso e fez uma greve de fome durante 35 dias, que mobilizou uma comunidade solidária internacional e nacional. Depois disso, relembra Agualusa, esperava-se que Eduardo dos Santos fosse renunciar, mas não foi o que aconteceu.

A mobilização esfriou e só foi em 2016, por motivos de saúde, que o presidente disse que convocaria novas eleições, que estão para acontecer dentro de um mês. “Neste momento, assim como aqui no Brasil, Angola vive como um país cansado, dilacerado e, nesse momento, desanimado, no sentido original da palavra: o de ‘perder a alma”. E se os dois países andam cansados politicamente, sem um rumo certo, não é de se esperar que as relações também esfriem? “Não. Ainda que o Governo brasileiro, se é que possível falar em um Governo brasileiro atualmente, tenha abandonado a política externa, as sociedades civis estão a fazer essas conexões”, diz. Para ele, algo que foi plantado não pode ser retirado.

De repente, o mundo inteiro ficou capitalista. O sistema socialista acabou, mas esse capitalismo parecer não ser capaz de responder aos grandes problemas políticos, ambientais, econômicos

No romance, o movimento dos revus que começou animado pela Primavera Árabe tem final mais bem sucedido do que de fato aconteceu. Primavera Árabe, revus, junho de 2013... As coisas não saíram como sonhadas? “Realmente não, mas acho que o que está a acontecer no mundo é uma tímida emergência de qualquer coisa que não sabemos bem o que é. De repente, o mundo inteiro ficou capitalista. O sistema socialista acabou, mas esse capitalismo parecer não ser capaz de responder aos grandes problemas políticos, ambientais, econômicos. Não estamos agora a ver muito bem o que está a entrar na onda”, diz Agualusa.

Falar de Brasil e Angola, lembra o escritor, faz pensar também em Odebrecht, corrupção, desvios econômicos, já que a empresa tem diversos negócios em solo angolano. Mas não só nisso. “Seria bom que tivesse ocorrido de outra maneira, mas não ocorreu. É uma pena. A corrupção é mesmo algo que destrói tudo. É um grande problema”. Falar de um mundo à beira de algo novo, que não se sabe bem o que é, dá também certa vertigem. E o escritor, com seus livros preenchidos de lugares fora do tempo, dá sua resposta em A Sociedade dos Sonhadores Involuntários: o que é preciso fazer é perder o medo, sonhar que é possível não sentir medo e, assim, nascerá qualquer coisa parecida com a união. Só utopia? Ao ler Agualusa, sente-se que talvez seja possível.

MAIS INFORMAÇÕES