Cinema

Bem-vindo aos piores filmes da história

O livro ‘The Bad Movie Bible’ compila os maiores horrores cinematográficos dos últimos 50 anos

Uma imagem de 'Zumbis nazistas 2'
Uma imagem de 'Zumbis nazistas 2'

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Duendes vegetarianos gigantes que matam famílias de turistas, garotas seminuas que se envolvem em um tiroteio a cada 15 minutos, a adaptação para as telas do romance de ficção científica escrito pelo fundador da Igreja da Cientologia, um clone do Superman que rouba champanhe de um restaurante da moda para agradar à sua namorada, um prenúncio de triângulo amoroso, David Hasselhoff... Bem-vindo aos piores filmes da história, um submundo tão fascinante quanto delirante, um compêndio de sonhos destruídos e porcarias em celuloide, um catálogo de desastres cinematográficos tão colossais que provocam o fascínio de legiões de cinéfilos, que de tanto verem filmes acabam virando cineólatras.

Para guiar o público por esse museu do horror fílmico, nada melhor que o livro The Bad Movie Bible(A bíblia do filme ruim, editora Art of Publishing), de Rob Hill, recém-lançado no Reino Unido. Seu autor analisa os 101 melhores filmes ruins –não, não é uma contradição – dos últimos 50 anos. Não se trata do primeiro volume já escrito sobre o tema (a honra provavelmente cabe ao já clássico Showgirls, Teenwolves and Astro Zombies: A Film Critic’s Year-Long Quest to Find the Worst Movie Ever Made, lançado por Michael Adams em 2009), nem será o último. Mas, neste, Hill estabeleceu regras claras de avaliação: só valem filmes produzidos a partir dos anos setenta, já que os de décadas anteriores são mais difíceis de encontrar; além disso, a partir daquele período eclodiu a cultura do vídeo e o paradigma de Hollywood mudou, com o triunfo de Guerra nas Estrelas e Tubarão como o produto-vedete dos grandes estúdios. A lista tampouco leva em conta filmes criados para os festivais de cinema autoral. “Para entender o que faz um filme ruim ser bom, precisamos esmiuçar suas contradições peculiares", escreve Hill na introdução, onde conta ter examinado milhares de títulos para elaborar o livro. Assim, somam pontos a incompetência na direção e na atuação, o grau de cafonice, o excesso em seus elementos narrativos – se for macabro, que seja para valer – e o elemento O quê?, que resume “decisões amalucadas” de roteiro e momentos estúpidos que Hill define da seguinte maneira: “Tudo o que fizer você rir por não poder acreditar no que está acontecendo na tela”. Obviamente, leva-se em conta a sinceridade, o esforço autêntico dos seus criadores para obter um resultado digno. Daí que os títulos da produtora Asylum, os autores, por exemplo, da saga Sharknado, não entrem na lista: esses filmes foram propositalmente concebidos para serem zoados pelo público.

Em The Bad Movie Bible, os filmes aparecem agrupados por gêneros: os três grandes capítulos são os de ação, ficção científica/fantasia e terror. Estranhamente, não há espaço para a filmografia daquele que é considerado o Ed Wood do século XXI, o alemão Uwe Boll, que em 2009 recebeu um troféu pela pior carreira no prêmio Razzies, o anti-Oscar, e que chegou a lutar boxe contra seus críticos. Hill paga pedágio à sua cultura anglo-saxã, já que a maior parte de suas referências são filmes norte-americanos e canadenses, mas também resenha alguns longas italianos e asiáticos, e revela o incrível mercado de filmes trash produzidos em Uganda. Abundam os filmes rodados com pouco dinheiro, com truques de segunda e material de terceira, por produtores acuados por dívidas – caso da espanhola Supersonic Man (1979), que mistura um protagonista com poderes de Superman e caráter de playboy à James Bond, com retroprojeções toscas tentando criar o efeito de voo.

Essa tosquice visual, aliás, é o que leva Quarteto Fantástico (1994) a ganhar um lugar no livro. Trata-se da primeira visão do grupo de heróis nas telonas, num filme produzido por um mago dos filmes B, Roger Corman (que também vê seu talento ser reconhecido nesse volume com Sorceress, filme do subgênero “espada e feitiçaria”). Outro título conhecido mencionado no livro é Superman IV: Em Busca da Paz (1987), última vez em que Christopher Reeve encarnou o herói do planeta Kripton, um longa no qual a nulidade visual se soma à estupidez do roteiro, reescrito pelo próprio Reeve. Há nele um aroma a atores que não estão nem aí para nada, que só pensam em chegar ao final da rodagem e recebeu seu cachê, como também ocorre em outros filmes de grandes estúdios que aparecem entre essas 101 obras destacadas: Highlander II - A Ressurreição (1991); Batman e Robin (1997) –Arnold Schwarzenegger aparece por sua vez como protagonista do seu primeiro filme, Hércules em Nova York (1970) –; Fim dos Tempos (2008), de M. Night Shyamalan; Showgirls (1995), de Paul Verhoeven; A Reconquista (2000), produzida e protagonizada por John Travolta, que adapta e homenageia um livro do fundador da Cientologia, L. Ron Hubbard, e Anaconda (1997), de Luis Llosa, com Ice Cube, Jon Voight e Jennifer Lopez. Há também espaço para O Enxame (1978), o ápice do delírio dos filmes-catástrofe com um elenco respeitável: Michael Caine, Henry Fonda, Katharine Ross, Richard Widmark, Richard Chamberlain e Olivia de Havilland.

Mas acima de tudo há uma exaustiva análise dos autênticos vencedores desse ranking. Destacam-se Troll 2 (o filme dos duendes vegetarianos assassinos), Samurai Cop – em que a única coisa vagamente relacionada aos samurais é um garoto que afirma ter ascendência japonesa –, a canadense Things (sobre um experimento médico fracassado), Starcrash (1978), com um jovem David Hasselhoff – outro que repete a aparição, graças a Nick Fury: Agente da S.H.I.E.L.D. (1998) – e Linha de Fogo (1991), obra-prima de Andy Sidaris, que passou os anos oitenta dirigindo filmes de garotas da Playboy que trocavam tiros com vilões de meia tigela. São títulos que já apareciam na lista compilada há alguns anos pela revista Empire ou nas catacumbas das avaliações de sites de cinema como IMDb e FilmAffinity. Aliás, vem abrindo caminho nesse rol Emoji, que estreou há duas semanas.

Há também o fenômeno The Room (2003), escrito, produzido e estrelado por Tommy Wiseau. Considerado o pior filme do século XXI, é uma ridícula comédia sentimental com triângulo amoroso, com um roteiro de uma pessoa que não sabe escrever roteiros, dirigida por uma pessoa que não sabe o que fazer com uma câmera na mão e estrelada por uma pessoa que tem cara de poste. Isso tudo é Wiseau, que se tornou um mito norte-americano, e seu filme, que leva um rótulo de cult e é exibido com frequência em cidades de meio mundo para que o público tenha do que zombar.

Elogio ao tosco

Há uma semana, um artigo publicado no site Rotten Tomatoes recordava como o filme sobre Ed Wood dirigido por Tim Burton havia conseguido fazer com que a obra do rei dos filmes B recebesse finalmente um tratamento VIP em Hollywood.

Wood não pôde usufruir disso – ele morreu 16 anos antes da estreia do filme que leva o seu nome –, mas Tommy Wiseau, diretor, roteirista e protagonista do pior filme do século XXI, The Room, já goza de sua fama, a qual crescerá ainda mais em dezembro com a estreia de The Disaster Artist – baseada no livro de Greg Sestero, ator coadjuvante de The Room – ilustra a tragédia daquela filmagem e sua posterior transformação em filme cult. The Disaster Artist conta com James Franco como diretor e protagonista, com coadjuvantes como Sharon Stone e Seth Rogen, com o respaldo da Warner Bros., e concorrerá na próxima edição do prestigioso Festival de San Sebastián (Espanha). Wiseau jamais sonhou chegar tão longe.

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