SUPERCOPA DA ESPANHA 2017
Análise
Exposição educativa de ideias, suposições ou hipóteses, baseada em fatos comprovados (que não precisam ser estritamente atualidades) referidos no texto. Se excluem os juízos de valor e o texto se aproxima a um artigo de opinião, sem julgar ou fazer previsões, simplesmente formulando hipóteses, dando explicações justificadas e reunindo vários dados

A capitulação do Barça de Messi

Equipe azul-grená entra em crise, prisioneira da melancolia do craque argentino

Messi e Luis Suárez no Bernabéu.
Messi e Luis Suárez no Bernabéu.JUAN MEDINA (REUTERS)

O Barça capitulou em Madri. Até agora, depois de qualquer derrota da equipe catalã sempre restava o consolo de que era capaz de vencer no estádio Santiago Bernabéu o seu grande rival, o Real Madrid. Os azuis-grenás se afirmavam à custa de negar aos madridistas até o ponto de que no Camp Nou se espalhou a crença que o Real Madrid não parava de ganhar a Champions League porque não cruzava com o Barcelona. O engano terminou com a Supercopa da Espanha, na qual o Real Madrid venceu seu adversário com grande autoridade: 3x1 em Barcelona e 2x0 na quarta-feira, no estádio Santiago Bernabéu. Até Piqué, um dos jogadores mais importantes da equipe catalã, reconheceu: “É a primeira vez que sentimos que o Real é superior a nós”.

Já não há Real Madrid que valha para que o Barcelona esconda outras derrotas nem tridente que ponha a salvo da crítica o presidente do clube, Josep Maria Bartomeu. A equipe –treinada há um mês por Ernesto Valverde– não tem recursos para atacar como a de Pep Guardiola e nem atacantes para contragolpear como a de Luis Enrique, o técnico anterior. A referência já não é tampouco Cristiano Ronaldo como rival de Messi, comparação que permitia disfarçar a decadência azul-grená, mas Zinedine Zidane conseguiu formar no Real um time e um elenco melhores do que os do Barça. Zidane foi meio-campista como Guardiola e, assim como este, baseou nessa linha a fortaleza do seu conjunto. A única resposta dos dirigentes do Barça até agora é contratar novos jogadores para que sua torcida não pense que o jogo de Madri foi o início da próxima temporada, mas que se tratou do final da última, arrematada com a conquista da Copa do Rei, quando ainda estava Neymar, que certamente será substituído por Coutinho e Dembélé.

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As rotinas não são um problema até que se tornam vícios e acabam apodrecendo um clube sensível como o Barça. O novo treinador encarou o jogo para ganhar, quando lhe pediam que mudasse o estado de ânimo com uma atuação decente no Bernabéu. Geralmente acontece com os novos que chegam ao Camp Nou. Pensam que a situação tem conserto: trata-se de tocar alguma tecla e a luz voltará à equipe. Até perceberem que o problema é muito mais grave com e sem Neymar.

Valverde mexeu no time e apresentou um desenho contrário à cultura azul-grená: até agora, quando o Barça defendia com três era para atacar também com três (3-4-3), não para implantar um 3-5-2 como fez o novo treinador na última partida em Madri. A proposta foi superada pela réplica de Zidane. O francês escalou um 4-3-3 e o Real começou o jogo de volta da Supercopa como acabou o de ida: com um golaço de Asensio. O plano de Valverde aprofundou a ideia de que o Barça quer se mourinhizar sem Mourinho. E os azuis-grenás perderam a posse, a bola e o jogo: 2x0.

O Barcelona parece apostar em jogadores mais físicos e mais fortes, em volantes como André Gomes e Paulinho, ao invés de jogadores genuinamente barcelonistas, poucos como Sergi Roberto, representante de La Masia, o celeiro de jogadores que nos últimos anos parecia inesgotável. O estilo é defendido com meias que pensem como Guardiola e Xavi e não como uma guarda pretoriana para proteger Messi. O camisa 10 não precisa de guarda-costas, como acontecia com Neymar, mas de parceiros que joguem a bola como Sergi Roberto. O cerne do conflito está precisamente nos acompanhantes de Leo.

O Barcelona foi sendo tão simplificado que se resume a Messi. Já não se fala do sentido de equipe ou dos três atacantes, nem do rondo [roda de bobinho] ou das transições, mas que o barcelonismo é presa agora da melancolia de Messi. A Argentina conhece isso bem. O camisa 10 é reconhecido como o melhor do mundo quando é o ponto final do jogo e não a origem, como acontece agora no Barça.

O modelo em questão

Não é fácil encontrar o ponto de inflexão, especialmente quando se duvida do modelo, e ainda mais quando a diretoria já não tem trunfos como quando convocou eleições em 2015, mas Josep Maria Bartomeu agora está legitimado para se defender das ameaças recebidas e da moção de censura que apresentarão seus adversários. Tampouco se resolve com o apelo à unidade feito pelos jogadores depois que se percebeu que estes já não bastam para sustentar o clube e entreter o Camp Nou.

Não é o fim do mundo se revermos a história do clube e pensarmos, por exemplo, no Dream Team e em Romário. O Barça superou dificuldades enormes e sobreviveu às maiores calamidades, de modo que a situação tem remédio, sempre que em vez de endurecer, e se quisermos até de desequilibrar e transbordar, se dê um tempo para refletir e aceitar que seu futebol só será recuperado a partir da autocrítica, da humildade e da paciência, a chave do jogo que engrandeceu o Barcelona com Johan Cruyff.

A pressa nunca foi a bandeira do Camp Nou. É hora de parar para ver que o clube caiu do pedestal que lhe restava em Madri e que Piqué já não é vaiado, mas alvo de cantos mentirosos, enquanto Sergio Ramos joga a bola nas fuças de Messi. O gesto do capitão foi o único sinal dissonante em uma equipe do Real Madrid cuja atitude causou perplexidade nos torcedores do Barça pela bondade com a qual tratou o Barcelona, sinal de cortesia ou zombaria, disposta a estender a festa da quarta-feira até a final da próxima Champions.

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