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Condenação de Lula não deveria ser dia de festa para o Brasil

A notícia chega em um momento crucial com Temer em vésperas de poder ser deposto

Ex-presidente Lula, condenado pelo juiz Sergio Moro em primeira instância. Sergio Moro condena Lula.
Ex-presidente Lula, condenado pelo juiz Sergio Moro em primeira instância. REUTERS

Hoje, o Brasil é notícia mundial pela condenação de Lula a nove anos e meio de prisão por corrupção, já que o ex-sindicalista foi o presidente mais popular e carismático da democracia. Lula tinha conseguido que o gigante americano saísse de seu complexo de vira-lata para se projetar no futuro como uma peça importante do xadrez mundial. Foi, além do mais, o presidente mais amado, quase adorado, pelo mundo dos mais pobres.

A notícia de sua condenação, porém, que chega em um momento crucial da política brasileira, com um presidente como Michel Temer em vésperas de poder ser deposto por corrupção e uma sociedade dividida e tensa, atemorizada com os 14 milhões de desempregados do país, não pode ser um momento de alegria.

Sem entrar no julgamento sobre a sentença emitida contra Lula pelo mítico juiz Sérgio Moro, algo que ainda terá de ser analisado e decidido em outra instância judicial, o certo é que, deixando de lado as ideias políticas de cada um, o dia de hoje não deveria ser um dia de júbilo. Não pode ser um momento de alegria porque a notícia encerra uma infinidade de simbolismos, a queda do ídolo da esquerda brasileira e com ele a esperança da refundação do Partido dos Trabalhadores (PT), que chegou a ser o mais importante da esquerda latino-americana.

Sempre se disse que o PT não existia sem Lula nem Lula sem o PT. Hoje, com Lula condenado pela Justiça à prisão por um crime de corrupção, de algum modo a democracia sofre e se despedaçam muitas esperanças. Haverá quem diga que a sentença contra Lula, o primeiro presidente do país condenado por motivos criminais, significa, ao mesmo tempo, a esperança de que, por fim, neste país a justiça seja igual para todos.

Poderia até ser verdade, mas com uma condição: que todos os outros políticos, muitos deles acusados e réus de crimes ainda maiores, acabem, como Lula, condenados por essa mesma Justiça, algo que não parece ser o que a sociedade sente, pois a mesma diligência que o juiz Moro usou contra Lula o Supremo Tribunal Federal (STF) já deveria ter usado com dúzias de políticos de primeiro plano da vida nacional de partidos que governaram com a esquerda do PT, e que parecem ser tratados com outros metros e medidas.

Se a condenação infligida por Moro a Lula, à qual se poderiam seguir outras mais, quer ser vista como um triunfo da Justiça em um país onde somente iam para a prisão os pobres, os negros e as prostitutas, será necessário que a sociedade possa ver claramente, sem esperar mais, que sejam condenados os outros líderes políticos cujas denúncias, não menos graves que as de Lula, se arrastam durante anos, aparecendo como intocáveis.

Se se trata de limpar a corrompida vida política de um país para dar lugar a uma nova era de esperança onde a impunidade com os poderosos seja algo do passado e não existam privilegiados perante a Justiça, então que a condenação de Lula à prisão seja seguida pela dos demais políticos corruptos. E isso sem esperar mais, para que a grave decisão tomada com Lula não pareça mais uma forma de impedir que se candidate de novo às presidenciais.

Hoje, mais do que ontem, a Justiça vai ser analisada perante os olhos abertos de uma sociedade mais madura e mais incrédula que no passado para saber se se trata de realizar uma verdadeira catarse contra a praga da corrupção político-empresarial ou o que há são somente de fogos de artifício e interesses pouco confessáveis.

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