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Morre Liu Xiaobo, dissidente chinês e Nobel da Paz

Para a China, era um criminoso. Para os defensores dos direitos humanos, sua grande esperança de uma via democrática

Liu Xiaobo
Liu Xiaobo, durante uma entrevista em Pequim, dois dias antes de sua prisão, em dezembro de 2008. AFP

"É preciso acreditar nas testemunhas dispostas a morrer”, dizia Pascal. Liu Xiaobo, prêmio Nobel da Paz, autor, crítico literário, pensador e dissidente chinês, foi uma delas. Na quinta-feira, a Prefeitura de Shenyang, cidade onde ele estava internado em um hospital, anunciou a morte aos 61 anos do dissidente que bradou mais alto e mais claro do que todos pela democracia para a China. O câncer de fígado diagnosticado tarde, muito tarde, no presídio onde cumpria 11 anos de prisão por “subversão” o venceu. A cadeira vazia que o representou na cerimônia de entrega do prêmio pacifista em Oslo, em 2010, manterá seu espaço para sempre.

Resta a dúvida se o tumor não foi descoberto a tempo pelas condições médicas ruins generalizadas nas prisões chinesas ou se tratou, como suspeitam alguns dissidentes e defensores dos direitos humanos, de uma negligência voluntária para se livrar do homem que em seu julgamento em 2009 declarou “não tenho inimigos e ódio”, mas que Pequim considerava como seu principal adversário político interno.

Seja resultado voluntário ou involuntário, com sua morte o Governo chinês se livra para sempre de uma voz que, de outra forma, em três anos teria ficado livre. Uma figura com a altura moral do Dalai Lama e a birmanesa Aung San Suu Kyi em seus anos de prisão domiciliar. Uma figura que, direta ou indiretamente, teria servido de referência para os que se opõem ao mandato do partido único, o Comunista.

Liu passou seus últimos dias no hospital universitário número um de Shenyang, no nordeste da China, para aonde foi levado após a descoberta do câncer, em 23 de maio. Nem mesmo sua agonia foi livre. A China quis silenciá-lo até o final. Pouquíssimas pessoas próximas a ele puderam visitá-lo, incluindo sua esposa, a poetisa Liu Xia, ela mesma desde 2010 em prisão domiciliar mesmo sem nunca ter sido acusada por alguma coisa. O estabelecimento estava vigiado por forças de segurança; as habitações próximas à sua foram esvaziadas. O acesso de pessoal não autorizado estava completamente proibido. Amigos do casal foram impedidos de se aproximar, e mesmo viajar, ao hospital.

A família deixou claro que sua última vontade era receber tratamento médico no estrangeiro. Pequim recusou terminantemente. Seu argumento, de que Liu estava muito doente para ser removido. Um argumento que sustentou apesar da opinião contrária de dois médicos estrangeiros, um alemão e outro norte-americano, que obtiveram a permissão de visitar o doente em um aparente gesto conciliador. Os dois argumentaram que a evacuação era possível, mas que o tempo se esgotava.

Seus últimos dias foram cercados pela polêmica entre a China, que insistia na gravidade de seu estado e pedia a não ingerência estrangeira, e a Alemanha, cuja chanceler, Angela Merkel, implorava por “um gesto de humanidade” para deixá-lo sair. A Embaixada alemã em Pequim denunciou o vazamento proposital de vídeos da consulta com os médicos estrangeiros.

É o primeiro prêmio Nobel da Paz que morre na prisão desde 1938, quando o pacifista Carl von Ossietzky morreu no hospital encarcerado pelo regime nazista na Alemanha.

Liu nasceu no nordeste da China em 1955, em plena efervescência do mandato de Mao. Muito jovem para participar da Revolução Cultural (1966-1976), dizia que esse movimento acabou beneficiando-o: levado, com seus pais, ao campo, não recebeu uma educação formal nesses anos. Por outro lado, leu o quanto pôde, vorazmente, tudo o que caía em suas mãos. Isso, contava depois, o ensinou a pensar por si mesmo.

Em 1977, quando as universidades foram reabertas, foi um dos primeiros estudantes readmitidos. Estudou literatura chinesa na Universidade Normal de Pequim, onde se tornaria professor. Nos anos oitenta, durante a breve primavera intelectual da China, se transformou em um dos intelectuais mais destacados. Brilhante crítico literário, com um senso de humor mordaz e ideias muito mais liberais que seu entorno, recebia com frequência pedidos para dar aulas no estrangeiro. Ainda que ao ir para o exterior também tenha se decepcionado com o modelo político ocidental.

Os protestos estudantis de 1989 chegaram quando ele estava na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Não teve dúvidas em pegar um avião, voar a Pequim e se solidarizar com os estudantes. Organizou uma greve de fome em seu apoio, e quando a lei marcial foi proclamada e tudo chegava ao seu fim, negociou um acordo com os militares para que pudessem voltar ilesos aos seus centros de estudo. Foram os jovens, lembraria mais tarde, que se negaram a abandonar a praça. Dedicou a eles seu Nobel da Paz em 2010.

Após a matança, cujo número exato de vítimas a China nunca divulgou, Liu foi condenado a dois anos de prisão por “incitação e propósitos contrarrevolucionários”. Seria a primeira de uma longa série de encarceramento: a segunda sentença, uma pena de três anos, viria em 1996.

Foi proibido de dar aulas e publicar na China. Mas podia trabalhar no estrangeiro, e o fez em larga escala, em Hong Kong, Taiwan e no resto do mundo. Em 2004, escreveu que a Internet “é o presente de Deus ao povo chinês”, um instrumento perfeito para distribuir suas ideais e seu ativismo político. Nessa época, a rede anda não havia sofrido as diversas e cada vez mais duras campanhas oficiais de controle.

Teve inúmeras ocasiões para se exilar e começar uma nova vida em outro lugar. Recusou todas. Temia que sua voz perdesse potência fora da China. Queria ser um elemento ativo dentro de seu país.

Em 2008 promoveu e redigiu a Carta 08, um ousado documento inspirado na Carta-77 que Václav Havel e outros dissidentes tchecoslovacos redigiram em 1977 contra o regime comunista. O texto, com 303 assinaturas iniciais, pedia o reconhecimento da liberdade, a igualdade e os direitos humanos como valores universais; a divisão de poderes, um poder judicial independente e a liberdade de informação eram outras requisições.

Em 8 de dezembro de 2008, um dia antes da data prevista para a distribuição do documento, Liu foi detido. Sua prisão formal foi anunciada seis meses depois. Por fim foi condenado a onze anos no dia de Natal de 2009.

“Não tenho inimigos e ódio. Nenhum dos policiais que me vigiaram, prenderam e interrogaram, nenhum dos promotores que apresentaram acusações contra mim, nenhum dos juízes que me julgaram são meus inimigos”, declarou à época em seu discurso de defesa. “O ódio pode apodrecer a inteligência e a consciência de uma pessoa. A mentalidade de ver inimigos envenenará o espírito de uma nação, incitará lutas cruéis e mortais, destruirá a humanidade e tolerância de uma sociedade e prejudicará o progresso de uma nação rumo à liberdade e à democracia”.

“Por isso – acrescentou – espero poder ir além de minhas experiências pessoais e ver o desenvolvimento e mudança social, combater a hostilidade do regime com a melhor das boas intenções, e acabar com o ódio com a ajuda do amor”.

Morreu na quinta-feira um dos intelectuais e mentes políticas mais brilhantes da China. Para Pequim, desapareceu um criminoso. Para seus admiradores se foi “o homem que contou a verdade sobre a tirania chinesa”. Para os defensores dos direitos humanos, a esperança do que poderia ser se tornou muito menor.

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