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China liberta Nobel da Paz Liu Xiaobo, com câncer terminal

Ativista foi internado num hospital do nordeste do país após receber o diagnóstico, em 23 de maio

O dissidente chinês mais conhecido internacionalmente, Liu Xiaobo, prêmio Nobel da Paz de 2010, foi libertado por motivos médicos – ele sofre de câncer de fígado em estágio terminal, informou nesta segunda-feira o seu advogado, Mo Shaoping. O escritor, acadêmico e pacifista se encontra internado num hospital de Shenyang, no nordeste da China, não muito longe de onde, desde 2009, cumpria pena de 11 anos de prisão por subversão.

Foto de 2005 do dissidente chinês Liu Xiaobo.
Foto de 2005 do dissidente chinês Liu Xiaobo. AFP

“As notícias são verídicas. Em 23 de maio, Liu foi informado de que sofre de câncer de fígado em estágio avançado”, disse Mo por telefone a este jornal. “De acordo com as leis chinesas, sua mulher, Liu Xia, deveria poder lhe visitar, mas não entrou em contato conosco.”

A própria Liu Xia está sob prisão domiciliar em Pequim desde que seu marido foi detido como suspeito de planejar danos contra o regime. Ela está com a cabeça raspada em solidariedade ao cônjuge, e seus amigos já denunciaram várias vezes que ela sofre de depressão e outros transtornos mentais graves devido ao confinamento e à falta de contato com Liu Xiaobo.

Há 10 dias, vários familiares foram visitar o dissidente na prisão de Liaoning, onde cumpria pena. Na ocasião, disse Mo, “seu estado de ânimo poderia ser descrito como estável”.

Liu, de 61 anos, ainda deveria cumprir três anos de prisão. Havia sido condenado por redigir o documento conhecido como Carta 08, assinado por quase 300 intelectuais chineses e publicado em dezembro 2008. Inspirada na Carta 77 da antiga Tchecoslováquia, pedia reformas – incluindo a abolição do delito de subversão, justamente o que acabou servindo para condená-lo – e o respeito dos direitos humanos no país.

Àquela altura, o dissidente já era uma celebridade na área dos direitos humanos na China. Doutor em literatura chinesa, abandonou em 1989 seu cargo acadêmico nos Estados Unidos e voltou a Pequim para participar do movimento estudantil da praça Tiananmen, que exigia mais liberdades. Defensor de negociações pacíficas entre o Governo e os manifestantes, conseguiu, naquele fatídico 3 de junho, negociar com sucesso a saída dos estudantes da praça, quando os tanques se preparavam para dissolver a tiros a concentração. Foi detido e só voltaria a ganhar a liberdade em 1991. Entre 1996 e 99, cumpriu outra condenação a três anos de trabalhos forçados.

A cerimônia em que recebeu o Nobel da Paz, em Oslo, foi talvez um dos momentos mais comoventes na história desse prêmio. O Governo chinês, furioso com a concessão de um prêmio que viu como uma ingerência em seus assuntos internos, impediu Liu de participar. Ele foi então substituído por uma cadeira vazia. Só em 2016 Pequim voltaria a normalizar suas relações com a Noruega, país anfitrião do evento. Liu é um entre apenas três prêmios Nobel da Paz que foram encarcerados por seus próprios Governos.

A notícia da doença de Liu suscita numerosas questões sobre por que as autoridades deixaram que o câncer progredisse tanto antes de lhe conceder a liberdade. O anúncio de hoje foi recebido com indignação pelas organizações de direitos humanos. “Liu Xiaobo foi diagnosticado com uma grave doença na prisão, onde, para começar, nunca deveria estar. As autoridades chinesas devem garantir imediatamente que Liu Xiaobo receba os cuidados médicos adequados, acesso à sua família, e que ele e outras pessoas encarceradas unicamente por exercer seus direitos humanos sejam postos em liberdade de forma imediata e incondicional”, declarou William Nee, pesquisador da Anistia Internacional em Hong Kong.

Nee também faz um apelo por Liu Xia e exigiu “o fim da sua detenção domiciliar vergonhosa e ilegal, e que se garanta que possa receber visitantes, se deslocar livremente e visitar o seu marido”.

Num sentido similar se pronuncia Sophie Richardson, diretora para a China da Human Rights Watch. “Que Liu tenha sido posto em liberdade é uma boa notícia; que tenha sido porque se encontra doente em fase terminal é desolador. Nunca deveria ter sido condenado à prisão, para começar, porque todos na China têm direito à liberdade de expressão.”

“Que as autoridades tenham havido por bem deter arbitrariamente a sua esposa, Liu Xia, durante todo este tempo mostra justamente até que ponto a brutalidade de Pequim continua sendo calculada. Todas as autoridades responsáveis pelos abusos contra esse casal na última década deveriam prestar contas”, acrescentou.

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