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Qual é o problema de Hollywood com os peitos grandes?

A modelo e atriz Emily Ratajkowski diz ter se sentido discriminada nos elencos por causa de seu físico

Emily Ratajkowski, em seu papel hipersexualizado no filme ‘Música, Amigos e Festa’.
Emily Ratajkowski, em seu papel hipersexualizado no filme ‘Música, Amigos e Festa’. Warner

“Há algo que me acontece, que é quando dizem ‘Ah, você é sexy demais’. Isso se volta contra mim porque as pessoas não querem trabalhar comigo por eu ter os peitos grandes demais.” Emily Ratajkowski, célebre modelo, ativista feminista e considerada nos últimos anos uma das mulheres mais atraentes do planeta, não consegue que os diretores de elenco a levem a sério. Foi o que declarou em uma entrevista da edição australiana de Harper´s Bazaar, unindo-se à extensa lista de atrizes que apontaram seu físico como uma desvantagem na hora de abrir caminho no cinema. Sua curta trajetória cinematográfica pode fazer com que muitos subestimem a denúncia, mas entre as que compartilham sua visão se encontram algumas das mais célebres intérpretes de sua geração e várias ganhadoras de uma estatueta. Existe a síndrome do patinho bonito em Hollywood?

Entre as estrelas consolidadas que viram seu poder de atração lhes tirar opções em um elenco se encontra Scarlett Johansson, que perdeu o papel de Lisbeth Salander no remake de Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, dirigido por David Fincher. “Scarlett foi genial, foi um grande teste. O problema com ela é que as pessoas não aguentam esperar para ver se vai tirar a roupa”, explicou o cineasta, outorgando depois o papel a Rooney Mara. A atriz Jessica Biel também confessou que ter sido considerada “a mulher viva mais sexy” em 2005 pela revista Esquire prejudicou sua carreira: “Não quero ser a mulher mais atraente, mas a garota do lado”. Angelina Jolie e Keira Knightley, que quase perde o papel que lançou sua carreira em Orgulho e Preconceito porque o diretor Joe Wright achou que era “bonita demais” para o papel, também se sentiram ignoradas por causa de seu físico. “Quantos papéis existem para as modelos altas e bonitas? Quando chegam os papéis apetitosos, e eu estive aí, as pessoas bonitas são as primeiras a serem eliminadas do elenco”, afirmou Charlize Theron na edição britânica de GQ. A sul-africana teve que enfeiar sua aparência para interpretar os dois personagens mais relevantes de sua carreira (em Monster – Desejo Assassino, pelo qual ganhou o Oscar, e em Mad Max: Estrada da Fúria)

Que o sexismo é um problema inerente à própria Hollywood demonstram registros como o que se tornou viral no ano passado, somente quarenta depois de sua gravação original. A protagonista é uma jovem Helen Mirren que, durante uma entrevista à televisão britânica, é questionada repetidamente sobre a coexistência de seu status de “atriz séria” e seu “material”. “Claro, já se sabe que as atrizes sérias não podem ter grandes peitos”, responde ela visivelmente irritada enquanto o público presente ria dos comentários machistas do apresentador. O tamanho de seus atributos foi um problema na carreira de Mirren, hoje uma das intérpretes mais respeitadas no panorama internacional e ganhadora de um Oscar por seu trabalho em A Rainha. Uma colega de sua geração, Susan Sarandon, enfrentou também os preconceitos que continuam vigentes décadas depois pelo decote que mostrou no tapete dos Prêmios SAG em 2016.

Estrelas como Helen Mirren e Susan Sarandon também foram alvo de críticas sexistas pelo tamanho de seus peitos.
Estrelas como Helen Mirren e Susan Sarandon também foram alvo de críticas sexistas pelo tamanho de seus peitos.

“O que acontece com os peitos? É um belo atributo feminino, tanto faz o tamanho que tenham. A quem importa?”, se perguntava Emily Ratajkowski na citada entrevista. Essas palavras causaram grande polvorosa nas redes sociais, tornando-a Trending Topic no Twitter e alvo do debate que divide aqueles que simpatizam com a modelo e os que a consideram uma privilegiada sem direito a reclamar, pondo em dúvida suas aptidões interpretativas. Repassando sua trajetória cinematográfica esse mal-estar com a indústria pode ser contextualizado. Seus papéis se restringiram ao arquétipo de objeto sexual desde que apareceu no polêmico videoclipe de Blurred Lines. Em Garota Exemplar, seu filme mais importante, tem um pequeno papel de estudante limitado quase exclusivamente a uma cena de sexo com a personagem de Ben Affleck. Em Música, Amigos e Festa, é a mulher que se interpõe na amizade entre um jovem DJ (Zac Efron) e seu mentor. A estratégia de marketing não enganava ninguém,  Ratajkowski dançando em câmara lenta como uma prévia para a mídia. No filme da série Entourage: Fama e Amizade, a modelo interpreta a si mesma.

A situação não melhora para atrizes de perfil similar a Ratakjowski. Alexandra Daddario, que saltou para a fama por sua cena de sexo com Woody Harrelson em True Detective, é um exemplo atual graças à sua aparição no reboot de Bayatch: S.O.S Malibyu, em que o tamanho de seus peitos conduz a uma piada recorrente durante todo o filme. Christina Hendricks, convertida em sex symbol graças à personagem Joan em Mad Men, tenta não cair no esquecimento depois do encerramento da premiada série. A última coisa que soubemos dela era sua contratação para outra série de ficção, Hap & Leonard. Seu papel? O de mulher fatal que separa os dois protagonistas masculinos, claro.

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