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Favela do Moinho: um morto e múltiplos indícios de tortura no centro de São Paulo

Policiais militares da ROTA mataram jovem de 18 anos na terça. Eles alegam que houve troca de tiros, mas vizinhos negam versão e suspeitam que rapaz foi espancado durante mais de uma hora

Policiais militares fazem patrulha perto do Moinho, nesta quarta. FOTO: Reuters | VÍDEO: Agência Pavio (colaboração para o EL PAÍS)

Na entrada da casa de Lucimar Oliveira Santana, na favela do Moinho (centro de São Paulo), há uma pequena cadeira rosa de plástico com respingos de sangue. Na pequena cozinha, manchas de sangue no chão de cimento batido e buracos de bala na parede, geladeira e armários. Um deles está com o vidro da porta quebrado. Também já não se vê um martelo que normalmente ficava pendurado ao lado do fogão. "Quando entrei em casa para pegar meu RG, vi que [a ferramenta] estava aqui no chão", relata Lucimar, de 30 anos, enquanto aponta para uma das marcas no cimento. De lá saiu desacordado e sangrando Leandro Souza dos Santos, seu vizinho, na última terça-feira.

Leandro tinha 18 anos e perdeu a vida durante uma operação da Polícia Militar na favela. Por volta das 10h da manhã de terça, policiais da tropa de elite Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (ROTA) entraram na comunidade para, segundo asseguram, desmantelar um laboratório que fornece drogas para a cracolândia. Testemunhas contam que, ao vê-los, Leandro se assustou e correu para dentro do barraco mais próximo. O de Lucimar. Os agentes então decidiram segui-lo. "Uns quatro" entraram no recinto, aumentaram o volume do aparelho de som e lá ficaram, até cerca de 11h30, torturando o rapaz, segundo relatam os moradores. "Como também havia helicópteros, não dava para escutar quase nada, só uns gemidos e um barulho de luta", relata Lucimar. Depois, recorda, Leandro foi discretamente retirado e colocado numa kombi branca. "Deu pra ver que seu rosto tinha sangue".

O corpo do rapaz retornou às 22h35 de quarta-feira para a comunidade para ser velado, após passar por um longo processo burocrático para ser identificado pela família e ser feita a autópsia. O jovem recebeu ao menos três tiros: dois no abdome e um na região do ombro. A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo não permitiu que o EL PAÍS tivesse acesso ao laudo do IML, mas os que viram o cadáver do rapaz – além dos próprios familiares, o vereador petista Eduardo Suplicy – asseguram que, além das marcas das balas, seus joelhos estavam "estourados", seu rosto estava inchado, com hematomas perto dos olhos, e seus dentes estavam quebrados. Acredita-se que os policiais utilizaram o martelo de Lucimar para torturá-lo.

Familiares e vizinhos contam que Chiclete, como Leandro era conhecido no Moinho, era usuário de drogas e estava tentando interromper o uso. "Quando iniciou a operação, meu irmão devia estar consumindo a droga e, na brisa da droga, saiu correndo", conta Lucas Souza Santos, irmão do rapaz. Tanto ele como outros moradores com os quais o EL PAÍS conversou coincidem em assegurar que Leandro, um rapaz magro que estava prestes a completar 19 anos, não era traficante e nunca tocou em uma arma. "Ele era um bom menino, trabalhador, nunca fez nada", disse uma moradora. O garoto, contam, trabalhava como catador de material reciclável ou como ajudante de obras. Deixou uma filha de dois anos.

A Polícia tem outra versão dos acontecimentos. A corporação garante que Leandro estava armado e que foi morto em uma troca de tiros com os policiais. "Ao tentar ser abordado, ele teria atirado contra uma guarnição da ROTA, que teve que revidar. Ele foi atingido e logo socorrido", garantiu o tenente-coronel Miguel Daffara na última terça. Ele ainda acrescentou que "a favela do Moinho é uma das fontes de abastecimento de drogas" da cracolândia e que, "no meio das pessoas de bem, há traficantes que se aproveitam e se escondem nos barracos". Em nota, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo explicou que "os fatos que ocorreram na operação realizada pela ROTA estão sendo investigados em Inquérito Policial Militar, instaurado pela Corregedoria da PM". Afirmou ainda que duas pessoas foram presas na operação, "uma delas com uma motocicleta furtada e a outra com entorpecentes e um celular roubado".

Favela do Moinho, nesta quarta-feira.
Favela do Moinho, nesta quarta-feira. REUTERS

Protesto e resistência no Moinho

A favela do Moinho é uma pequena comunidade plana localizada no centro de São Paulo, no bairro de Campos Elíseos, e delimitada por trilhos de trem. Um bolsão de pobreza em uma região onde novos prédios são erguidos cada vez mais. Lá, em suas ruas de terra e barracos de madeira e tijolos, seus moradores vivem entre a promessa da reurbanização e o medo de serem despejados pelo setor imobiliário. Devido também ao histórico de militância no local, nos últimos dois dias permaneceram mobilizados. Na terça-feira, quando Leandro supostamente ainda era torturado, houve uma explosão de indignação. Começaram então um protesto na comunidade que se expandiu até a avenida Rio Branco, mas foram duramente reprimidos pelas forças policiais. Lucila dos Santos Silva, de 42 anos, conta ter sido agredida com um cassetete nas costas, agora cobertas por uma faixa. Também mostra uma marca vermelha de bala de borracha no ombro direito e uma marca preta em seu rosto. "Depois que eu cai no chão, um policial pisou na minha cara e esfregou aquela botina que eles usam. Disse assim: 'Vocês que moram no Moinho são tudo lixo'. Mas não sou lixo não", diz ela, que ainda garante ter sido atingida por spray de pimenta no rosto e sido ameaçada pelos agentes de levar "pedradas".

Já Maria Vitória Oliveira, de 19 anos e grávida de oito meses, explica que foi abordada por um policial quando Leandro ainda estava sendo torturado. "Ele perguntou: 'Por que você está nervosa? Está tomando as dores de quem está apanhando?'", recorda. Depois, quando estava no telefone com sua mãe pedindo um telefone de repórter, foi abordada novamente e empurrada. "Bati a cabeça na tampa da fossa e desmaiei. Me levaram para o hospital Victorino, mas não tinha médico. Quando voltei, um policial falou: 'essa grávida desgraçada tá olhando o que? Vai levar pedrada".

Lucimar, a dona da casa onde Leandro foi morto pela Polícia, conta ter sido pressionada. Considerada testemunha-chave do caso, ela se encontrava na rua no momento em que Leandro e os policiais entraram no seu barraco. Recorda de "uns vultos" passando e de ter sido impedida pelos homens fardados de entrar. Depois da ação, pegou seu RG na cozinha – deparando-se com um cenário de horror descrito acima – e foi levada, sozinha, para depor. Na viatura, diz que foi questionada diversas vezes sobre se Leandro era traficante e portava armas. No dia seguinte, na manhã de quarta-feira, conta que tentaram levá-la de novo para prestar esclarecimentos. Mas dessa vez se negou a ir, com medo de ser forçada a contar mentiras sobre o rapaz.

A quarta-feira foi de espera, angústia e informações desencontradas. Inicialmente não se sabia para onde Leandro havia sido levado. Tratado inicialmente como indigente, sua mãe Maria Odete Gonzaga de Souza, de 46 anos, teve de passar por uma série de burocracias para reconhecer seu filho. No início ela chegou até a ser impedida de ver o corpo na Santa Casa da Misericórdia. Ele só foi liberado na noite de quarta-feira para o velório e enterro, subsidiado pela Prefeitura de São Paulo. Ainda assim, para que o caixão não fosse lacrado, a família de Leandro teve de pagar uma taxa de 450 reais para que o IML preparasse o corpo. Não ficou claro se este valor foi cobrado corretamente, já que, segundo a Superintendência da Polícia Técnico-científica, "todos os serviços do IML são gratuitos".

Quando Leandro finalmente chegou à comunidade, às 22h35 de quarta, dezenas de moradores se aglomeraram dentro e fora da capela do Moinho para uma celebração religiosa. O corpo foi velado até o dia seguinte por familiares e amigos do rapaz. Por volta das 9h da manhã desta quinta-feira, um pastor local e o padre Julio Lancellotti deram seguimento à celebração. "Não podemos dizer que [a morte de Leandro] foi vontade de Deus. Isso foi obra humana. Deus não quer o sofrimento de seus filhos e filhas. Leandro foi executado porque é pobre. Não podemos aceitar que isso seja normal e natural", disse Lancellotti durante o velório.

Uma hora depois, um carro do Serviço Funerário do Município levou o caixão até o cemitério de Vila Formosa, na zona norte da capital. Três ônibus foram alugados para que os moradores do Moinho acompanhassem o enterro. Saíram lotados. Leandro foi finalmente enterrado entre 11h e meio dia, exatamente 48 horas depois de seu martírio. Seu corpo foi para debaixo da terra sob lágrimas e orações, mas também aplausos e uma mensagem que ecoou no cemitério: "A luta continua! O moinho resiste!".

Esta reportagem foi feita em colaboração com a Agência Pavio, uma iniciativa de vídeorreportagem e documentação audiovisual. Formada por jornalistas e realizadores independentes, noticia violações de direitos humanos, conflitos urbanos e rurais.

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