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Argentina atrai quatro vezes mais dólares ao mercado do que à produção

Pesquisa do Banco Central argentino mostra limites dos efeitos da reabilitação financeira do país

Mauricio Macri em Rosario, o 20 de junho.
Mauricio Macri em Rosario, o 20 de junho.

Ao assumir a presidência, Mauricio Macri derrubou os muros cambiais –e alguns econômicos– levantados durante o kirchnerismo em torno da Argentina e pagou a dívida com os fundos abutre, o preço exigido pelos mercados internacionais para voltar a conectar o país às torneiras do crédito externo. Desde então, não pararam de chegar milhões de dólares pelos canos, até inundar o país. No entanto, poucas das notas verdes trazidas pelos estrangeiros vão para a economia produtiva, essencial para gerar novos empregos e crescimento, mas são desviadas para o grande negócio de emprestar dinheiro ao Estado e obter em troca rendimentos fabulosos.

A Argentina ofereceu uma taxa de juros anual de 7,9% em dólares em seu título de cem anos emitido na segunda-feira –frente a taxas de 3% a 5% em outros países da região e de 1% nos Estados Unidos–, mas a estrela da era macrista foram as Letras do Banco Central (Lebac) em pesos, a uma taxa anual de 26,25% (uma taxa bem maior que a brasileira, em 10,25%, mas, descontada a inflação, nossos juros em termos reais ainda são maiores do que os da Argentina) . Combinadas com um dólar estável, que em alguns momentos do ano passado chegou a se desvalorizar em relação ao peso, permitiram obter picos de rentabilidade de até 50% em 2016. Como? Com o que os argentinos chamam de “bicicleta financeira” e, no exterir, carry trade: trocam-se dólares por pesos para comprar Lebac a 35 dias e depois compram-se dólares novamente e a roda volta girar. Tempestades externas como o Brexit, a vitória e Donald Trump nos Estados Unidos, o último escândalo político de Michel Temer no Brasil e a decisão do Morgan Stanley de manter a Argentina na classificação de mercado de fronteira em vez elevá-lo a emergente provocaram ligeiras turbulências na moeda local que fizeram com que alguns ciclistas de Wall Street abandonassem recentemente a pista, mas outros ainda permanecem na corrida.

De cinco notas verdes que os estrangeiros trouxeram para a Argentina neste ano, quatro terminaram no setor financeiro e uma no produtivo, segundo os balanços cambiais do Banco Central: 4 bilhões de dólares (cerca de 13,342 bilhões de reais) contra 1,071 bilhão de dólares nos primeiros cinco meses de 2017. As altas taxas de juros pagas pela Argentina para conter a inflação explicam o festim especulativo; a desconfiança dos investidores estrangeiros em relação à estabilidade argentina a longo prazo justificam a seca de investimentos produtivos. Essa combinação faz com que muito poucos assumam o risco de investir na economia real quando é mais fácil e mais rápido ganhar com a bolha financeira.

“Aqueles que entram no mercado financeiro têm alta liquidez e, se as condições mudam, podem sair rapidamente. O mercado real exige apostar no longo prazo e para muitos investidores internacionais o panorama permanece incerto e ainda mais com a incerteza eleitoral”, diz Federico Semeniuk, gerente de estratégias financeiras de consultoria Ecolatina, referindo-se às eleições legislativas de 22 de outubro. “Os países que pagam taxas semelhantes oferecem um contexto muito mais arriscado”, acrescenta. Leia-se Ucrânia, Uzbequistão, Mongólia, Uganda e Irã, entre outros.

A Argentina fechou 2016 com uma recessão de 2,3% (ligeiramente reduzida no segundo semestre), mas em 2017 começou a crescer com timidez: o PIB aumentou 1,1% no primeiro trimestre, o melhor número desde a chegada de Macri. É encorajador, mas insuficiente, de acordo com Semeniuk, para vencer o receio empresarial. “Há muitos anúncios de investimentos, mas muito poucos em execução. Quando você fala com gerentes de empresas já estabelecidas na Argentina, mas de capital estrangeiro, vê que muitos estão esperando para ver o que acontecerá nas eleições”, afirma. Os empresários parecem ter mais medo de uma possível vitória da oposição que o próprio macrismo, que comemorou depois de saber que o peronismo vai para as eleições dividido em pelo menos três frentes.

Paralisia pré-eleitoral

Seja qual for o resultado da eleição, até lá os economistas não esperam grandes mudanças de rumo do Governo e nem dos investidores. Esperam que o Governo continue a se endividar a grande velocidade nos próximos meses para injetar dinheiro na economia e reativar o consumo antes das eleições. A decisão implica aumentar o déficit público, mas há consenso de que os partidários das tesouras permanecerão escondidos até o dia seguinte. Os especialistas também duvidam que no curto prazo a desvalorização do peso se acelere por fatores internos. Portanto, exceto surpresas, o carry trade continuará vivo nas próximas semanas, embora talvez aumente o número daqueles que optem por apostar em instrumentos financeiros argentinos em dólares.

“O déficit fiscal fez que na Argentina seja mais negócio financiar o Estado do que produzir. Se à baixa poupança interna, que é sugada pelo déficit fiscal, adicionarmos a elevada pressão tributária, o atraso cambial, o elevado risco país e as taxas elevadas, o investidor tem dificuldade para resistir à tentação de emprestar ao Governo nacional em vez de investir”, diz Ramiro Castiñeira, economista da consultoria Econométrica. A festa financeira é paga pelo Banco Central. As taxas de juros ultrajantes custam-lhe milhões por mês, mas ele as mantém elevadas para conter o mal endêmico do país, a inflação, que no ano passado chegou a 40% e neste ano cairá à metade, de acordo com estimativas particulares.

Federico Furiase, economista do Estudio Bein, salienta que “sempre acontece na economia que os dólares se dirijam primeiro ao setor financeiro e depois à economia real, para a qual esperam mais sinais positivos e que o Governo se consolide nas eleições legislativas”. A normalidade do fenômeno destacada por Furiase contrasta com as expectativas que o macrismo provocou na população, ao anunciar uma chuva de investimentos produtivos para o segundo semestre, que depois postergou para o terceiro e que agora parecem ligados ao resultado da eleição. Se a frente governamental Cambiemos sofrer um revés eleitoral “a confiança poderia se enfraquecer e prejudicar a economia”, explicou o Governo no prospecto dirigido aos investidores que subscreveram o título a cem anos, de acordo com o jornal Clarín. Em seu retorno ao primeiro plano político, na terça-feira, a ex-presidenta Cristina Fernández de Kirchner lançou sua própria advertência: “O que nós necessitamos é colocar um limite nas próximas eleições, por um freio a esse Governo e ao ajuste”. O eleitorado decidirá qual direção prefere.

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