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As grandes multinacionais aplaudem guinada de Macri, mas Governo ainda anseia investimentos

Argentina consegue reunir em Buenos Aires grandes executivos que prometem investimentos

Mauricio Macri abre o evento.
Mauricio Macri abre o evento. Presidência

Mauricio Macri ganhou as eleições em 2015 na Argentina por uma estreita margem –menos de três pontos–, pouco depois de assumir conseguiu um importante nível de apoio, segundo as pesquisas, e agora começa a sofrer um desgaste notável por causa dos números ruins da economia argentina e do ajuste que está implementando. No entanto, o presidente argentino conta com aliados-chave que o têm respaldado quase sem nuances: o mundo das grandes empresas, em especial as multinacionais, e os governos dos países mais relevantes, sobretudo os Estados Unidos. Esse apoio adquire uma nova dimensão com o Fórum de Investimento e Negócios da Argentina, que reuniu em Buenos Aires alguns dos CEOs (executivos-chefes) mais importantes do planeta com uma mensagem de apoio total a Macri e sua guinada liberal, depois de 12 anos de um kirchnerismo aliado com os outros Governos da década dourada da esquerda latino-americana.

O mundo econômico está feliz com Macri, que com sua vitória iniciou a guinada política na América Latina e o princípio do fim do chamado eixo bolivariano. E 1.900 empresários e altos executivos viajaram a Buenos Aires para que isso seja notado. Além disso, para maior simbolismo, o ato foi realizado no Centro Cultural Kirchner (CCK), uma obra emblemática do Governo anterior e que Macri transformou em seu lugar para os grandes encontros internacionais. Ali recebeu François Hollande e ali dançou tango Barack Obama, cujo apoio tem sido crucial para que as grandes multinacionais dos EUA se envolvam no respaldo a Macri.

O presidente espera que além de boas palavras haja investimentos, a única maneira de recuperar a maltratada economia, mas, por ora, as expressões são muito animadoras. “Este país tem tudo para ganhar se consegue mudar o jogo com as reformas. Tem um capital humano muito qualificado. Se conseguir, terá crescimento por décadas. Vocês são o segundo país do mundo com mais gás não convencional. É preciso desenvolver isso. Para isso são necessárias reformas do mercado de trabalho argentino e outras, mas este Governo está decidido. A princípio as reformas são impopulares, mas depois geram crescimento. Estamos em processo de reabilitação da marca Argentina”, declarou Andrew Liveris, o CEO da Dow Chemical, uma das grandes indústrias químicas do mundo, que foi um dos astros do evento, ao lado de Muhtar Kent, CEO da Coca-Cola. Os grandes CEOs espanhóis – da Telefónica, Santander, BBVA– não se deixaram atrair por Buenos Aires, apesar de seus enormes investimentos, o que inclinou o fórum na direção das empresas dos EUA e britânicas.

Martin Sorrell, CEO da WPP, a maior empresa de publicidade do mundo, que tem 7.000 funcionários no país, também foi taxativo: “A chegada de Macri revitalizou a Argentina. É um país de grande talento humano e recursos naturais”. Mas insistiu, como outros, em que o problema é a má imagem que o passado turbulento deixou. “Este país tem um problema de marca. Em um recente estudo de 60 países ficou na 40ª posição, e uma questão-chave como a preparação para fazer negócios ficou na 51ª.”

O ato foi pensado para ser grande, inspirado no Fórum de Davos e moderado por Patricia Janot, a estrela da CNN em espanhol. Na sala principal do Centro Kirchner, um espetacular edifício neoclássico da época do esplendor de Buenos Aires, cuja recuperação custou o equivalente a 910 milhões de reais, 1.900 homens engravatados – mal se viam mulheres– de 67 países aplaudiram com enorme entusiasmo até mesmo a entrada de Macri na sala. “O país está novamente em marcha, com regras claras de jogo. Há nove meses havia resignação, a corrupção era evidente. Agora a Argentina vê que pode fazer mais. Não vamos mudar tudo em um dia nem em uma presidência. Estamos tomando medidas dolorosas, mas pensamos nos que mais sofrem. Agora o mundo acompanha este caminho”, afirmou Macri.

Tudo eram palavras de estímulo à guinada de Macri, e uma grande dúvida flutuando no ambiente: resistirá ou cairá antes do tempo, como os outros presidentes não peronistas? A instabilidade política voltará à Argentina? Esse é o ponto-chave para a decisão de investir, segundo explicaram vários executivos. E isso explica, bem como a altíssima inflação –42%, embora pareça ter desacelerado em agosto graças à sentença que impede elevar o preço do gás–, que os investimentos esperados ainda não tenham chegado. Uma empresária que estava entre o público fez essa pergunta crucial e os executivos se olharam incomodados. Não queriam pôr em dúvida toda a mensagem anterior de otimismo. Por fim, Liveris resolveu a questão com ironia: “A verdade é que não temos nem ideia de como responder a essa pergunta. O que vemos é que Macri está muito decidido e, por isso, queremos aumentar nosso investimento”.

“Nós já investimos na Argentina em tempos difíceis porque acreditamos no longo prazo”, arrematou Steve Angelo, diretor da Toyota para a América Latina. “A Argentina está em um ponto de inflexão muito importante para formar uma grande indústria exportadora”, enfatizou Bruno Di leo, vice-presidente da IBM. Todos insistiam na necessidade de reduzir os custos trabalhistas e até de se concentrar em setores não intensivos em mão de obra, e foi Paolo Rocca, líder da Techint, uma das poucas multinacionais argentinas, que recordou que o grande problema é conseguir fazer uma economia que crie muitos postos de trabalho, já que o desemprego está começando a ser um assunto que inquieta os argentinos, algo que não acontecia desde a crise de 2001. Rocca apostou em um grande plano de obras de infraestrutura, que Macri prometeu como forma de modernizar o país e crescer de forma inclusiva, criando muitos empregos. Macri tem, portanto, o apoio contundente dos homens de negócios, e agora espera que comecem a chegar os investimentos prometidos, um fato que, sem dúvida, será acelerado com esse fórum, que, por hora, impressionou os presentes.

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