Cinema

‘Deserto’: Gael García Bernal estreia o thriller migratório da era Trump

Filme do cineasta mexicano Jonás Cuarón, roteirista de 'Gravidade', estreia nesta quinta no Brasil

Gael García Bernal em 'Deserto'.
Gael García Bernal em 'Deserto'.

Uma viagem a Tucson, no Arizona, foi a semente do longa Deserto, do diretor Jonás Cuarón (Cidade do México, 1981), que estreia nesta quinta-feira no circuito de cinema brasileiro. Cuarón conta que viajava com a mulher rumo ao Grand Canyon quando o carro os deixou na mão, e eles começaram a imaginar. Durante as filmagens de Gravidade (2013), o premiado filme coescrito por ele e dirigido por seu pai, Alfonso Cuarón, o mexicano já se sentia "envenenado" pela obra que faria depois. Quis levar tanto o pai como o tio, Carlos Cuarón, à paisagem abrumadora e descobriu algo sobre ambos, que se tornariam produtores do filme: “Têm fotofobia. Só vieram um dia e foram muito honestos. Me deram sua opinião, mas também me deixaram tomar minhas próprias decisões”, contou o diretor de Deserto em uma sessão recente em São Francisco.

Jonás Cuarón apresentou a projeção de um filme que esteve 10 anos em sua mente e em seus planos, que evoluiu à medida que ele o realizava como cineasta até virar realidade numa ação frenética, direta, constante e firme. Sem concessões, sem histórias paralelas nem psicodramas adicionais. A tensão, a mística e a épica avançam em Deserto na cadência de uma percussão estudada, bem ajustada ao cenário, e de sinos que evocam luto.

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Deserto rende homenagens ao cinema mais clássico. E destila cultura. Com um Moisés – protagonista interpretado por Gael García Bernal – bíblico em certos momentos. Com alguns toques próprio de um western, perseguições que prestam tributo ao primeiro Spielberg de Encurralado, Cuarón reflete, sem fingimentos, sua ampla bagagem cultural. Da América à Europa. Com Sergio Leone na retina e Clint Eastwood em algumas cenas de Sam, o antagonista, intensamente cruel. Não há lições de moral nem julgamentos prévios. A única concessão de humanidade contra o executor da trama é conseguida através da figura de um cão. Não por acaso: “É um vilão lento, complementado por um cachorro ágil. Isso serve também para mostrar, enfim, que tem sentimentos.”

Algumas vezes, o cineasta considerou a opção de dar um contexto sobre os personagens. Trabalhou nesse sentido, mas percebeu que era algo acessório, não necessário. “Sempre fui fã do cinema dos anos oitenta. Como em A Caçada ao Outubro Vermelho, é melhor focar num aspecto, numa ação. É através dela que entendemos a política.”

O diretor reconhece que o momento político vivido pelos Estados Unidos, com a chegada ao poder de Donald Trump, faz com que muitos aspectos importantes do filme sejam bem atuais, como a desumanização dos migrantes, a ausência de segurança jurídica, os territórios de fronteira. “Todos me diziam que eu estava demorando tanto para fazer o filme que ele ficaria velho. Infelizmente, hoje ele é mais relevante do que nunca”, lamenta. “Gostaria que Deserto tivesse sido lançado num momento de fronteiras abertas. Que o filme não passasse de uma alegoria.”

O set, a três horas de qualquer hotel, com cobras, calor e escassos recursos, foi exigente. “O que passamos não é nada se comparado à realidade. Como mexicano, quanto mais você presta atenção nos EUA, mais vê que há casos de homicídios na fronteira que não são registrados. Se olhar mais para baixo, verá que há dezenas de casos parecidos na América Central. Não é só um problema dos mexicanos, mas de todos os migrantes”, denunciou.

Cuarón dedicou alguns minutos ao EL PAÍS para falar sobre o momento vivido pelo cinema mexicano. “Estou muito orgulhoso. No processo de Deserto, percebi que somos uma comunidade. Tive a sorte de contar com o tempo e os conselhos de muitos diretores que cresci admirando”, afirmou.