Clint Eastwood: “Os filmes devem ser emocionantes, não intelectuais”

Cineasta participa de uma aula magna no festival, onde, sem muito entusiasmo, repassou sua vida e carreira

Festival de Cannes 2017
Clint Eastwood antes da sua palestra deste domingo no festival de Cannes. AFP

Encurvado, um pouco surdo e desarrumado, com pouca vontade de falar. Mas com brilho no olhar, e medindo suas palavras, proclamadas com perene tom juvenil. Clint Eastwood completará 87 anos no próximo dia 31, e o festival de Cannes o homenageou com um convite para dar uma aula de cinema. O ator e diretor só confirmou sua presença após confirmar que poderia encaixar o compromisso no seu calendário de torneios de golfe. A esta altura Eastwood não precisa provar nada a ninguém, e seu ato em Cannes foi um exemplo: preferiu uma conversa com o jornalista americano Kenneth Turan, outro veterano, que foi soltando perguntas amáveis sobre sua carreira e sua vida. Levantou bolas que o cineasta cortou com elegância e economia de esforço.

A economia de esforço é uma constante em sua carreira. Como alguns de seus mentores, Eastwood prefere rodar rápido. “Eu gosto dos primeiros takes porque você nunca conseguirá igualar a surpresa de ouvir um diálogo pela primeira vez. Alguns dos meus mestres, como Don Siegel, faziam assim. Por isso também não gosto dos ensaios, porque se você repetir muitos os diálogos eles ficam monótonos”, contava, sentado com certa inapetência, mas com um sorriso constante. “‘A análise leva à paralisia’, dizia Don. Ele era muito eficiente… claro que sempre se queixava dos produtores.” Sergio Leone, embora muito diferente em sua mise-en-scène, também corria. “Rodava rápido porque pensava rápido. Na verdade, estive durante os anos cinquenta fazendo papéis de qualquer tamanho, tanto no cinema como na televisão, e aí aprendi muito com diretores como Tay Garnett [de O Destino Bate à Sua Porta].”

Numa abarrotada sala Buñuel, com os chefões da Warner – o estúdio para o qual trabalha há décadas – na primeira fila, o cineasta recordou alguns de seus títulos. Por exemplo, Os Imperdoáveis, que no sábado voltou a ser exibido no festival francês, em cópia restaurada. “Eu me diverti muito de vê-lo, e descobri algumas coisas que tinha esquecido. O roteiro me chegou como muitos outros nos anos oitenta, mas este me pareceu perfeito para ser meu último western, estava lindamente escrito por David Webb Peoples”, contou. Entretanto, o texto passou quase uma década fechado num armário. “Um leitor de roteiros da minha produtora o odiou. Por sorte, não dei bola para ele e afinal o filmei.”

“Como diretor eu gostaria de trabalhar como o pessoal do serviço secreto, que você ouve falar baixo, e não se sabe com quem.”

Eastwood começou a atuar no colégio, quando, num trabalho escolar, foi ator em uma peça. “Havia um personagem… Não era retardado, mas sim um pouco lento, e o professor disse que era perfeito para mim. Ao final todos me cumprimentaram. Mas pedi não voltar a fazê-lo. Enfim, continuei estudando interpretação, tinha garotas bonitas...” De sua infância recordou que nasceu durante a Grande Depressão, da qual só tomaria consciência lá pelos 6 ou 7 anos. “Meu pai era dono de um posto de gasolina, íamos para cima e para baixo”, rememorou. Como todos os meninos, queria participar de um western e montar a cavalo, “ser como James Stewart, Gary Cooper e John Wayne”. Por que é tão atraente esse gênero? “Porque transporta para outra época, quando um indivíduo podia se virar sozinho, uma fantasia hoje quase impossível.”

Foi contratado para a série Rawhide em 1959, e um dia seu agente lhe propôs que fosse à Itália filmar uma versão western de um filme japonês. “Obviamente eu disse que não. Mas ele insistiu para que eu lesse o roteiro. Descobri que era Yojimbo, logo eu, um fã do Kurosawa! Aceitei Por um Punhado de Dólares. Sergio fez westerns muito operísticos. Tinha ótimo olho para os rostos. Eu na verdade sempre me dei muito bem com os diretores europeus.”

“Não se deve levar as coisas muito a sério.”

Eastwood começou a dirigir com Perversa Paixão (1971), também atuando, embora com um só cachê. E chegou Perseguidor Implacável. “Eu disse a Don que era muito incorreta. Suponho que portar armas grandes é a realização do sonho de qualquer menino, embora hoje não seja bem visto. Estamos nos matando ao fazer isso, perdemos o senso de humor.”

Sobre O Estranho que Nós Amamos, cujo remake Sofia Coppola apresenta nesta semana em Cannes, comentou apenas que “é o primeiro filme com o qual fiz uma turnê mundial de divulgação”. Foi sucinto também ao falar de Alcatraz – Fuga Impossível, Bronco Billy, Sobre Meninos e Lobos, As Pontes de Madison e Menina de Ouro. Mas confessou que, após seis participações em Cannes e um só prêmio, nunca se importou por não ter recebido a Palma de Ouro. “Fui presidente do júri e sei como é complexo colocar todos de acordo. Eu vi Caro Diário e achei uma chatice, sendo que foi um sucesso. Não se deve levar as coisas muito a sério. Como diretor também tento ser leve, não gritar. Eu gostaria de trabalhar como o pessoal do serviço secreto, que você ouve falar baixo, e não se sabe com quem”.

O cineasta contou que gosta de trabalhar – embora prefira o golfe – e que já está envolvido em seu próximo filme, The 15:17 to Paris, sobre os turistas norte-americanos que dominaram um terrorista e impediram um atentado num trem entre Amsterdã e Paris, em agosto de 2015. “Mas não quero antecipar muito, além de que o material é interessante [expressão que repetiu várias vezes na palestra]".

Sobre o cinema, deixou claros seus pensamentos: “Os filmes precisam ser emocionantes, porque não é uma arte intelectual. Embora cada um tenha o seu estilo e seja respeitável”. Só “algumas vezes” sente falta de atuar, e não acha difícil dirigir “se o material é interessante”. Não vê o cinema atual, porque trabalha muito, mas gosta de eventualmente revisitar O Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder. “Aos meus filhos atores aconselho que sempre façam o melhor que puderem, e que ensaiem e ensaiem … mas não me dão muita bola.” A última pergunta foi aberta: queria contar algo de outro filme ou algo que tenha esquecido? “A verdade é que não.”

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