Escalada da crise: primeiro teste de Temer no Congresso acaba em confusão

Senadores bateram boca durante leitura de relatório da reforma trabalhista nesta terça

Senadores discutem em comissão que discutia reforma trabalhista.
Senadores discutem em comissão que discutia reforma trabalhista.Fabio Rodrigues Pozzebom (Agência Brasil)

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O Governo de Michel Temer tinha uma missão nesta terça-feira: mostrar que, apesar da enorme crise que começou na última quarta-feira e da saída de partidos como o PSB de sua base, o Congresso estava em pleno funcionamento e continuava mantendo seu apoio a ele. Mas a oposição também tinha sua meta: a de atrapalhar todas as votações que pudessem e, assim, mostrar que o Governo está enfraquecido. No final do dia, nenhum dos dois lados conseguiu completar seu objetivo plenamente. E o que se viu no Congresso foi uma série de episódios de confusão, muito bate-boca, algum protesto e xingamentos entre vários parlamentares.

O primeiro teste da base de Temer ocorreria no Senado, no início da tarde. A Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) deveria ler o relatório da reforma trabalhista, um dos projetos mais importantes para o Governo Temer. A oposição tentou protelar a leitura e conseguiu colocar em votação um requerimento, que pedia que a ela fosse adiada. Para isso, contou com a defesa de Renan Calheiros, líder na Casa do partido do presidente, que chegou a sugerir, inclusive, que Temer saia do cargo. "Ler esse relatório hoje, de afogadilho, colocando goela abaixo de algumas pessoas para que o Legislativo demonstre que o Executivo não está paralisado, está com um rumo pré-definido, não pode acontecer", afirmou ele.  O melhor era que nós conversássemos com o presidente para que ele entenda o seu papel histórico a cumprir, façamos uma transição negociada e rápida. Elejamos um presidente e um vice, garantindo eleições gerais em 2018", afirmou o peemedebista. Ele chegou a dizer à bancada do partido que votasse pelo adiamento da leitura, contrariando a orientação dada, momentos antes, por seu companheiro de sigla, Romero Jucá, aliado de Temer, que pediu para a bancada rejeitar o pedido.

O Governo acabou ganhando a primeira batalha, mas de forma apertada. Foram 13 votos contra 11, pela manutenção da leitura do relatório, o que incendiou a oposição. Iniciou-se, então, uma discussão entre os parlamentares, que acabou em empurra-empurra e xingamentos. "Eu falei para o senador Ataídes [Oliveira, PSDB]: 'vocês estão sustentando um Governo corrupto!' E ele respondeu: 'ô, moleque, vagabundo! Saí para lá'", disse o senador Randolfe Rodrigues (REDE), que acabou subindo na mesa, com dedos em riste na direção do colega, em protesto. Outros parlamentares entraram na briga e se iniciou uma confusão generalizada, que se completou com a gritaria de militantes que acompanhavam a sessão. Ao final, o presidente da comissão, Tasso Jereissati (PSDB), tentou retomar a leitura do relatório, mas acabou impedido por senadores da oposição, que agarraram seu microfone. Decretou, então, que o relatório estava lido e deixou a comissão. "Foi uma cena que nunca imaginei ver no Senado federal", disse depois Jereissati, que acusou a oposição de desrespeitar a vontade da maioria, impedindo de "maneira violenta" a leitura do relatório. 

Ao mesmo tempo em que se dava a confusão no Senado, a Câmara também vivia sua dose de polêmica do dia. Na Comissão de Constituição e Justiça, o Governo teve de agir como minoria, que obstrui votações, para evitar que a proposta de emenda constitucional das eleições diretas (a PEC 227 de 2016) fosse votada. Um requerimento apresentado por aliados de Temer foi derrotado na votação simbólica – que é aquela em que o parlamentar não precisa se identificar para votar, apenas sinaliza com a mão se concorda ou não com o que está sendo questionado. Foi pedida, então, a verificação nominal. Antes que ela ocorresse, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), abriu a sessão plenária e iniciou a votação de projetos de lei. Com isso, todas as comissões precisam encerrar os seus trabalhos.

“Quando um Governo tem de obstruir os trabalhos, como se minoria fosse, demonstra que não é mais Governo, que não tem mais força nenhuma”, disse o líder da REDE, Alessandro Molon, que acusou Maia de iniciar a sessão apenas para evitar nova derrota do Governo na comissão. O discurso dele seguiu na mesma sintonia de toda a oposição. “Estava muito claro que no início de julho essa PEC chegaria ao plenário. O Governo quer procrastinar. Agora, eles não entendem que uma votação indireta abre espaço para a compra descarada de votos. Vejam o que o Joesley Batista disse na delação dele, que recebeu o pedido para comprar o impeachment de Dilma”, afirmou Chico Alencar (PSOL-RJ).

Até aliados de Temer reclamaram da conduta dos governistas. “O Governo deu palco para oposição e a oposição está enganando o Brasil. A PEC é importante, mas ela não valerá para já porque qualquer regra eleitoral só vale com um ano de antecedência. Estamos nos precavendo para o futuro”, afirmou Marcos Rogério (DEM-RO).

Nas  votações do plenário, a oposição também entrou em obstrução. A ideia era protelar ao máximo as votações, mesmo sabendo que o Governo tinha a maioria necessária para aprovar as medidas. Levantou cartazes que pediam "Fora, Temer" e "Diretas, Já". Mesmo em minoria, a oposição já deixou claro que não pretende dar paz a Temer. Decidiu ainda nesta terça-feira iniciar a coleta de assinaturas para abrir uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o presidente Michel Temer. São necessárias apenas 171 assinaturas para que ela seja criada.

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