Seleccione Edição
Entra no EL PAÍS
Login Não está cadastrado? Crie sua conta Assine

A crise migratória se agrava e ultrapassa as fronteiras da Itália

Os desembarques cresceram 38% em relação ao mesmo período do ano passado

Migrantes se transformam em uma arma engatilhada no debate político

Um grupo de imigrantes desembarca em Salerno na terça-feira, dia 10.
Um grupo de imigrantes desembarca em Salerno na terça-feira, dia 10. Kontrolab

Um traficante matou, há alguns dias, um garoto que viajava na embarcação por não lhe dar seu boné de beisebol. Pouco depois, outro grupo de contrabandistas deixou uma barcaça à deriva sem motor, com dezenas de pessoas a bordo. A crise migratória e o rastro de suas feridas no Mediterrâneo estão piorando. Cerca de 7.300 migrantes chegaram ao litoral italiano em 51 embarcações no fim de semana passado: morreram pelo menos 245. O fenômeno transborda as fronteiras do país, que viu os desembarques aumentarem 38% em relação ao mesmo período de 2016 e se tornarem a porta de entrada para a Europa. O ministro do Interior, Marco Minniti, pede à Europa mais envolvimento.

O fim de semana da Páscoa foi o pior: mais 9.000 desembarques. De fato, nos meses do ano que já passaram chegaram já às costas italianas 43.245 pessoas procedentes da Líbia. A rota representa 90% do tráfico migratório, segundo o Ministério do Interior. E o bom tempo reativou com virulência um fenômeno que, segundo todas as ONGs, já chegou à categoria de industrialização do tráfico de seres humanos. A rota líbia, praticamente a única possível para chegar ao sul da Itália e à Europa (a balcânica, oriental e ocidental, diminuiu 80%), está tomada pelas milícias de um Estado falido. Por isso, o ministro do Interior, Marco Minniti, pedia na terça-feira, dia 10, mais envolvimento da Europa em um problema no qual a Itália se encontra muito sozinha.

Os acordos fechados com a Líbia não estão dando resultado. É frequente que muitos dos migrantes que chegam até lá desde os confins da África sejam presos, maltratados e torturados até que suplicam a seus familiares que mandem dinheiro para libertá-los. Grande parte das mulheres, denunciam as ONG, são estupradas. E a partir desse momento, queiram ou não, sobem no barco.

Os traficantes passaram de pequenos delinquentes a grandes estruturas que armazenam migrantes com mercadorias em grupos de até 1.000 indivíduos. Uma vez pagos, são levados em caminhões, presos e saem de uma vez até 15 embarcações, afirma Michele Trainiti, coordenador de atividades de busca e resgate da ONG Médicos sem Fronteiras (MSF). Uma capacidade logística fatal para os clientes forçados: 43.245 pessoas, das quais mais de 5.000 são menores não acompanhados.

Desde o início do ano morreram cerca de 1.300 migrantes nessa viagem, segundo dados da Acnur. Os barcos são piores e ficam sobrecarregados. Com frequência, o traficante os conduz até águas internacionais de jet-ski e os abandona à própria sorte. Por isso, a ONG se aproxima até duas milhas náuticas das águas líbias para intervir com urgência. Um pretexto no qual se baseia a acusação de ter se tornado um polo de atração e um farol na noite da longa viagem dos imigrantes. “Segundo os critérios da Guarda Costeira italiana, um barco deste tipo que entre a uma milha já é uma emergência. E não se necessita nem que haja um pedido de socorro”, defende Trainiti.

O Ministério do Interior ontem não respondeu a este jornal sobre as medidas que estão sendo tomadas, mas afirmou que há muitos planos em andamento. No entanto, a crise migratória já é uma arma eleitoral na Itália. Especialmente depois da campanha do promotor da Catânia (Sicília), Carmelo Zuccaro, que afirmou ter provas da conivência de algumas ONGs com os traficantes.

Problemas de acolhimento

De fato, o promotor — com certa cobertura política da Liga Norte e do Movimento Cinco Estrelas — acredita que algumas podem ser financiadas pelos traficantes para ser usadas como “táxis de imigrantes”, nas palavras de Luigi de Maio, possível candidato do M5S a primeiro ministro.

Uma polêmica — também é acusada de entrar em águas da Líbia para fazer resgates ou de não avisar a Guarda Costeira antes — que chegou à comissão do Senado, onde Zuccaro foi incapaz de dar novas informações. Luigi Manconi, senador do Partido Democrático (PD) — no Governo — acredita que não passam de suspeitas, alusões, impressões: “Uma investigação judicial não se faz assim. Na realidade, há dois meses estamos falando de uma coisa muito simples: é justo salvar as pessoas que estão se afogando ou não?”, denuncia em conversa com este jornal.

O outro problema enfrentado pela Itália é a acolhida dos migrantes que, em sua maioria, querem seguir seu caminho para o norte da Europa. Neste momento há 179.000 registrados de forma estável, sendo Lombardia e Campania as regiões com maior número. A ideia é que o número aumente em todas as comunidades e povoados da Itália, com o aporte das subvenções correspondentes e sem forçar ninguém a aderir ao plano. Mas até agora apenas 2.880 Prefeituras (de 8.000) fizeram isso.

MAIS INFORMAÇÕES