O drama dos refugiados

A nova velha vida da família Al Shaidun

Um casal sírio com nove filhos e dois netos relata sua fuga para o Líbano e como precisou se reconstruir do zero em seis anos de guerra

A família de Kafaa e Mousa Ibrahim.
A família de Kafaa e Mousa Ibrahim.LYS ARANGO

Os Al Shaidun saíram de Idlib em 21 de abril de 2011, às três da madrugada. Correram até a estrada e, com medo dos franco-atiradores, se colocaram em fila indiana e muito próximos, “como se caminha numa guerra, reto e sem movimentos estranhos”, explica Ibrahim. Assim se deslocaram por dezenas quilômetros, sob um céu iluminado pelo fogo e vendo de vez em quando cadáveres que chamavam a atenção das crianças: “Por que ninguém os acorda?”, perguntavam os menores.

Toda a vida da família Al Shaidun está na pasta de fotos do celular de Ibrahim. Lá ele mostra imagens de seus pombos-correios, os banhos de piscina no verão, e sua casa antes e depois da guerra; a moradia está vazia e controlada por seu irmão. Foi saqueada e atualmente se parece, de fato, com o lar abandonado de uma família de refugiados.

Mais informações

Quando chegaram a Ghazze, um povoado do vale do Bekaa (Líbano) onde se acumulam campos de refugiados da guerra síria – mais de 1.500 assentamentos dispersos –, havia apenas quatro famílias naquele terreno que depois seria batizado de Ghazze III. Pouco a pouco, foram construindo sua tenda, primeiro com o que encontravam, e depois com material fornecido por organizações humanitárias.

Kafaa, que fica com vontade de fumar e pede uma foto do momento, brinca com o marido perguntando-lhe qual é a capital da Espanha. Ibrahim não sabe; ela responde: “Madri”. “Eu sou a inteligente da família”, diz. Do lado de fora, esquentam a água do banho em uma panela. Nesta casa não entra dinheiro. Ibrahim não pode pagar o visto de residência, então só eventualmente as meninas são chamadas para a colheita das lavouras: ganham o equivalente a 14 reais por um dia de trabalho. No vale do Bekaa, onde vivem dispersos 500.000 refugiados da guerra na Síria, as temperaturas chegam a 40 graus no verão, e no inverno o peso da neve frequente derruba as estruturas das moradias. Em seis anos, o lixo foi se acumulando até formar um enorme esgoto a céu aberto. Por ali brincam as crianças nascidas sem pátria, sem nacionalidade. Podem ver os montes nevados que os separam da Síria, as galinhas ciscando no meio do lixo e os casebres de plástico que se transformaram nos seus únicos países conhecidos.

“O principal problema que temos com a água é que antes de os refugiados chegarem já era de má qualidade. Agora a situação está mais grave”, diz Jesús Capilla, chefe do programa de água e saneamento da ONG Ação contra a Fome. Multiplicam-se no Líbano poços ilegais, sem certificação de qualidade. Os pesticidas usados nos cultivos se infiltram na terra e chegam à água. O trabalho da ONG nesse quesito consiste em fornecer água a cada uma das 125.000 pessoas atendidas no Líbano, 30 litros por dia, um total de 1,5 milhão de litros.

Os refugiados sírios têm um problema com o Líbano. O país os acolheu, mas não os ajudou a se estabelecerem nem lhes ofereceu condições mínimas de subsistência. O Líbano tem cinco milhões de habitantes e um milhão adicional de refugiados sírios. Não interessa a Beirute que as famílias se instalem definitivamente; o Governo espera que depois da guerra os refugiados retornem à Síria. Aqui no Líbano, um refugiado pode sobreviver, mas não viver. E muitos refugiados, após seis anos de crise, esgotaram seus mecanismos de adaptação e capacidade de endividamento e estão começando a recorrer a soluções extremas, como o trabalho infantil, a exploração trabalhista ou o perigoso retorno à Síria.

O luxo da higiene

O Líbano não abriga o maior número de refugiados da guerra (esse país é a Turquia), mas tem a maior taxa per capita. Obter o visto de residência custa 200 dólares. Segundo os dados fornecidos pela Ação contra a Fome, nove em cada dez famílias refugiadas estão endividadas, o percentual de lares de refugiados com segurança alimentar caiu de 25% para 11% no último ano, e 70% da população do Líbano (49% em 2014) vive abaixo da linha nacional de pobreza. A guerra os devolveu a um lugar do qual a humanidade teoricamente saiu há séculos: a monocultura, o escambo. Um lugar no qual os luxos são a higiene e as sementes. É um mundo de outro tempo que convive com o atual: um mundo um pouco retirado, mas visível, cuja conexão com o real são as organizações humanitárias.

Para chegar de Zahleh a Hermel se atravessa uma estrada de buracos e postos de controle.

Ali, num pequeno descampado, viviam há cinco anos três famílias; uma foi embora. Chegaram de Sarsha, que está no outro lado das montanhas. Mohamed aponta o lugar para se desculpar por não ter fugido para o Canadá como seu irmão. “Eu quero voltar para casa algum dia.” Casou-se com Dania e teve três filhos com ela. As crianças correm descalças, brincando ao redor das tendas, a 10 graus. Mohamed diz: “Não foram à aula hoje porque estão doentes”.

Estas famílias são ajudadas pela Ação contra a Fome com hortas nutricionais. As supervisoras da ONG fazem uma rota por domicílios e acampamentos onde há plantações de hortaliças e tomam nota dos seus progressos. Tomate, pepino, cebola, cenouras e alface. Também fornecem frutas e laticínios. Recentemente, 70 famílias ganharam seis galinhas e um galo cada uma.

Mohamed era pastor de cabras na Síria e está oficialmente inválido para o trabalho por causa de um problema respiratório. “O médico me disse que eu não podia levantar um copo d’água”, diz. Alguns dos seus cultivos começaram do zero outra vez. “O que aconteceu?” Mohamed encolhe os ombros: “As crianças não esperam que as plantas produzam, comem as raízes se tiverem fome”.

Sete quilômetros

Sua mulher espera outro filho; a ONG Médicos Sem Fronteiras checa o estado dela e lhe dá 50 dólares para ir ao hospital parir. Mohamed aponta as montanhas: sete quilômetros o separam da sua vida anterior. A distância que há entre um país em guerra e outro em paz. Fugiu quando começaram a bombardear sua cidade e destruíram sua casa. Não sabe quem foi, nunca perguntou.

Neste tempo como refugiados, Ibrahim e Kafaa, o casal de Ghazze III, tiveram outro filho. É Yusuf, que tem dois anos e meio. É menor que os netos de Ibrahim e Kafaa. Como muitas das crianças nascidas no campo de refugiados, não viveram nenhuma guerra, mas suas brincadeiras são com metralhadoras de brinquedo. “É a televisão”, desculpa-se Ibrahim, a quem Yusuf corta o pescoço com a mão.

O lugar onde ocorre a entrevista ao EL PAÍS, que viajou ao Líbano a convite da Ação contra a Fome, tem jeito de lar: detalhes pendurados das lonas que fazem as vezes de paredes, sofás, uma televisão ligada e café quente. Como se fuma e a manhã não é muito fria, abriu-se um enorme plástico que serve de janela. Há em Ghazze um mundo que imita o real: todos os seus habitantes procedem dele, todos sabem como fazê-lo. Tudo remete a um mundo que foi deixado para trás. Não há casas, nem banheiros, nem trabalho, mas procuraram algo que se pareça com isso. A família Al Shaidun do Líbano tem a aparência da família Al Shaidun da Síria. Sua vida se esforça em imitar a anterior com os materiais que encontraram à mão. Os originais ficaram no celular de Ibrahim.