Guerra na Síria

Trump chama Assad de “animal”, mas diz que EUA “não entrarão” na Síria

Presidente também adverte o líder da Coreia do Norte: “Temos uma armada poderosa”, diz, “está cometendo um erro”

Donald Trump, em um encontro com empresários nesta terça-feira.
Donald Trump, em um encontro com empresários nesta terça-feira.Evan Vucci (AP)

O bombardeio de instalações do regime da Síria na quinta-feira da semana passada, ordenado de surpresa por Donald Trump, levou a múltiplas interpretações e, sobretudo, a uma pergunta: qual é o capítulo seguinte, se este for o primeiro passo para um papel muito mais ativo dos EUA nessa guerra que já dura seis anos? Em uma entrevista à rede conservadora Fox Business, que será retransmitida na quinta-feira às 6 da manhã, Trump envia mensagens mistas. “Não vamos entrar na Síria”, diz, embora carregue nas tintas contra o presidente sírio, Bashar al-Assad, de quem chega a dizer que “é um animal”. Desafiante, aborda também a escalada da tensão com a Coreia do Norte depois de enviar navios de guerra para perto de sua costa: “Mandamos uma armada muito poderosa. Temos submarinos muito poderosos, mais que as forças aéreas. E temos os melhores militares da Terra”. E conclui advertindo o líder norte-coreano, Kim Jong-Un: "Está cometendo um erro”.

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Os EUA desfecharam o bombardeio contra uma base aérea da Síria na quinta-feira à noite em resposta a um ataque com armas químicas que custou a vida de mais de 80 pessoas, incluindo muitas crianças, e que tanto Washington como suas potências aliadas atribuem ao regime sírio. Trump diz na entrevista, da qual a Fox divulgou alguns trechos, que os EUA não pretendem entrar na Síria, “mas quando você vê gente usando horríveis armas químicas... e vê essas crianças lindas mortas nos braços de seu pai, ou vê essas crianças ofegantes, lutando pela vida... quando vi isso, imediatamente liguei para o general Mattis”.

Assim, o republicano insiste em que a motivação dessa guinada em sua política externa, até agora reticente a um maior envolvimento na Síria, foi o horror do uso do gás contra civis, o que parece ter se tornado a linha vermelha de Washington. Em uma entrevista ao Daily News, o segundo filho homem de Trump, Eric, ressaltou o espanto de sua irmã Ivanka – a primogênita e recém-nomeada conselheira presidencial – ao ver as fotos das crianças mortas e disse que isso tinha influído em seu pai para que adotasse medidas. O porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, ponderou que o impacto dessas mortes em toda a equipe tinha influído, especialmente Ivanka.

“O que eu fiz a Administração Obama deveria ter feito havia muito tempo”, lamentou”. “Se tivesse sido assim, a Síria estaria muito melhor”, acrescentou.

Obama deu marcha-à-ré na decisão de atacar o regime sírio graças ao compromisso do Governo de destruir seu arsenal de armas químicas, um pacto apadrinhado pela Rússia, que apoia Assad e agora defende que o regime não é culpado da matança de civis, mas grupos rebeldes terroristas. “Se a Rússia não apoiasse esse animal [Bashar al-Assad], agora não teríamos o problema”, disse o empresário nova-iorquino.

Este último e grave episódio da crise abriu uma fenda entre Trump e Moscou, quando a nova Administração norte-americana se propunha uma etapa de melhores relações com seu velho inimigo da Guerra Fria. O secretário de Estado, Rex Tillerson, chegou na terça-feira e permanecerá nesta quarta em Moscou, onde se reunirá com o chanceler russo, Sergei lavrov, embora não esteja confirmado se irá encontrar-se também com o presidente Vladimir Putin.

Em paralelo, aumentou a temperatura na disputa com a Coreia do Norte. O Governo norte-coreano alertou na terça-feira para “consequências catastróficas” e “medidas duras” com o uso de seu armamento nuclear se os Estados Unidos continuarem com suas provocações, depois que o porta-aviões Carl Vinson e sua frota foram deslocados para a região.