Paris pede a Trump que evite iniciativas unilaterais sobre o Oriente Médio

Netanyahu afirma que está mais voltado para o futuro que se aproxima com a Presidência de Trump

Hollande na Conferência de Paris sobre a paz no Oriente Médio, neste domingo.
Hollande na Conferência de Paris sobre a paz no Oriente Médio, neste domingo.

Netanyahu, primeiro-ministro israelense, deixou entrever neste domingo que seu Governo olha para outro lado e está mais voltado para o futuro que se aproxima uma vez que o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, tomar posse — na sexta-feira — do que para a conclusões da conferência de Paris, a qual classificou de “inútil”. “Essa Conferência é a última sacudida do mundo de ontem. Amanhã será muito diferente, e o amanhã está muito próximo”, afirmou Netanyahu durante a reunião semanal de seu Gabinete. Mais uma vez citou a reunião como uma tentativa orquestrada de “forçar Israel a aceitar compromissos contra seus interesses”, e insistiu que só conseguirá “afastar a paz”, uma vez que esta só se conseguirá através de negociações bilaterais diretas, como já fizeram com Egito e Jordânia.

Mais informações

Horas antes do comparecimento de Hollande à conferência de Paris, que termina neste domingo, o Palácio do Eliseu cancelou o encontro previsto com o presidente palestino, Mahmoud Abbas. Este havia viajado de Roma a Paris a convite do Governo francês, que planejava reunir Abbas e Netranyahu após a reunião. O israelense recusou o convite. Teria sido um fecho de ouro para a conferência internacional.

A França insiste em exercer um papel de mediadora, que Israel rejeita. Paris já conseguiu uma vitória de Pirro: 70 países participam da conferência, mais que o dobro da reunião anterior em 3 de junho. Não estão presentes as partes decisivas (Israel e Palestina) para se conseguir definitivamente a estabilidade na região. “É como um casamento em que não existe noiva nem noivo”, criticou em Israel a vice-ministra de Relações Exteriores, Tzipi Hotovely. “A França não quer impor a paz. Israelenses e palestinos devem decidir juntos seu destino comum”, respondeu o ministro de Relações Exteriores francês, Jean-Marc Ayrault, às críticas do Governo israelense.

Mahmoud Abbas saudou, no entanto, a iniciativa francesa. “É a última oportunidade para a solução de dois Estados”, disse ao Le Figaro antes de viajar ao Vaticano no sábado. Paradoxalmente, a França não é um dos 138 países que reconheceram o Estado palestino. Doze embaixadores franceses reivindicaram que o país o faça em um manifesto publicado na segunda-feira no Le Monde.

A conferência de paz ocorre em um péssimo momento para Israel. O Conselho de Segurança da ONU aprovou em 23 de dezembro a resolução 2334 contra os assentamentos israelenses na Palestina. Todos os membros do colegiado votaram a favor, inclusive a França, membro permanente, menos os Estados Unidos, que se abstiveram, o que gerou um grande mal-estar em Israel com a Administração de Obama. É provável que o comunicado final da reunião deste domingo chame atenção para essa situação. Hoje existem 600.000 colonos israelenses na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental.

Além disso, a conferência ocorre cinco dias antes da troca de comando na Casa Branca e será provavelmente a última participação internacional de John Kerry como secretário de Estado norte-americano. Qual sentido tem? “Não é demais lembrar que a única solução possível é a criação de dois Estados; lembrar antes que entre a nova Administração de Donald Trump”, defendeu-se o Ministério das Relações Exteriores francês. Trump já cogitou a possibilidade de reconhecer Jerusalém como a capital do Estado israelense e transferir para lá a embaixada dos EUA. “Isso poderia acarretar graves consequências”, alertou Ayrault.

Paris afirma que não quer liderar um novo processo de paz, mas, simplesmente, organizar reuniões que o propiciem. “Sabemos que a única forma de chegar à paz é que ambas as partes negociem diretamente”, disse Hollande. “As críticas de Israel a essa conferência só demonstram uma falta de entendimento”, dizem fontes diplomáticas. Em 3 de junho se organizou a primeira conferência em Paris. À época, o então primeiro-ministro francês, Manuel Valls, indicou onde reside o problema: a posição de força de Israel a respeito da Palestina levaria a uma negociação muito desigual, afirmou.

Durante esses meses, a comunidade internacional comprometida com a paz no Oriente Médio tentou aumentar a assistência econômica à região, reforçar a capacidade palestina para construir um verdadeiro Estado e relançar um debate na sociedade civil. Nele participaram 150 organizações não governamentais.

Entre os 70 países que enviaram representantes a Paris estão todos os membros da União Europeia, os 15 membros do Conselho de Segurança da ONU, os membros do Quarteto e os integrantes da Liga Árabe, entre outros.

Coincidindo com a abertura da cúpula, um grupo de 250 ex-militares e ex-oficiais de segurança israelenses — entre eles o ex-chefe do Mossad Shabtai Shavit e o ex-chefe do Estado-Maior do Exército israelense general Dan Halutz — aderiram a uma campanha de impacto “pela separação agora” de israelenses e palestinos. Com anúncios em árabe insertados na imprensa israelense com as cores da bandeira palestina e sob o lema “logo seremos maioria”, tentam conscientizar os judeus que a solução de dois Estados é necessária porque anexando os territórios palestinos só conseguirão maior insegurança e serem minoria.