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A periferia de São Paulo vai à telona

Circuito de salas da Prefeitura chega às franjas da cidade, onde paulistanos nunca haviam ido ao cinema

primeira vez no cinema
Crianças assistem ao filme 'O escaravelho do diabo' na abertura do CEU Jaçanã, em abril. SECOM

Com as luzes acesas, o cinema instalado em um bairro periférico da zona norte de São Paulo mais parece uma sala de aula, repleta de crianças enérgicas, rindo e falando alto. A diferença seriam os pacotes de pipoca dos 200 espectadores mirins ali presentes, cortesia da secretaria de Cultura da cidade para a inauguração da sala localizada dentro do Centro Educacional Unificado (CEU) Jaçanã, e sem dúvida a enorme tela branca que começa a descer ao anúncio de que a exibição vai começar.

Apagam-se as luzes, e o silêncio se instala no espaço junto com o breu. Marcos, de onze anos, confessa para Renata, com quem estuda ali mesmo, no CEU, que aquela é a primeira vez dele no cinema. “Que tela enorme! Nem importa se o filme não for bom”, sussurra o menino na fila à frente da reportagem do EL PAÍS. Nenhum dos dois sabe o nome do filme que está a ponto de assistir. “Eu só assisto TV e às vezes vejo vídeo no celular da minha mãe”, conta a menina de 10 anos.

O filme é O escaravelho do diabo, adaptação para a tela grande do clássico da literatura infanto-juvenil escrito por Lúcia Machado de Almeida, dirigido por Carlo Milani, e que estreou em abril de 2016 não só no CEU Jaçanã, mas em todo o circuito comercial paulistano. Ele foi programado pela Spcine, a empresa de cinema e audiovisual de São Paulo, fundada no começo de 2015, para a abertura desta que é uma das 20 salas digitais de um circuito que pretende levar o cinema a todas as regiões da capital paulista, aproximando-o de quem ainda não o conhece ou conhece pouco. Um estudo da consultoria J.Leiva aponta que 10% dos paulistanos nunca foram ao cinema. Boa parte desse grupo está exatamente na periferia. O número é alto para a cidade que detém o maior parque exibidor do país, com quase 1.000 salas (segundo o informe de 2015 do Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual).

As salas têm duas grandes vantagens: foram feitas para abrigar novidades – dos filmes que passam nos shoppings aos que só entram nas salas alternativas – e têm entrada gratuita. Apesar de ter sido uma iniciativa da gestão de Fernando Haddad, ela tem apoio do novo prefeito, João Doria, e deverá ter continuidade na Secretaria de Cultura – conforme já declarou o novo encarregado da área, André Sturm.

O projeto, que nasceu junto à criação da Spcine, tomou um investimento de 7,5 milhões de reais em infraestrutura. Seu custeio anual é de 7 milhões, bancados pela Secretaria de Cultura, através de um contrato de gestão com a Spcine. Hoje pode-se dizer que saiu totalmente do papel, tornando-se uma realidade dos CEUs da prefeitura na periferia, mas também de bibliotecas e centros culturais – onde a entrada nem sempre é gratuita, mas quase.

Segundo dados de balanço da Spcine divulgados no começo de dezembro, o circuito contabiliza até o momento um público de 250.000 pessoas. No final da sessão de O escaravelho do diabo no CEU Jaçanã, Marcos e Renata pareciam mais calmos do que quando ocuparam suas cadeiras na sala do CEU Jaçanã. Enquanto as luzes se acendem e a tela branca começa a ser recolhida, eles esfregam os olhos e sorriem com preguiça antes de lançar algum comentário sobre o filme. Marcos diz que não sabe se seus pais alguma vez já viram um filme em uma sala de cinema. Acha que ficariam felizes de acompanhá-lo da próxima vez. Renata, “emocionada”, vai além da próxima sessão e diz que se vê trabalhando com cinema. “Quero ser uma das pessoas que inventam os filmes”, sonha.

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