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Um voo barato da Lamia que poderia ter saído muito caro para a Argentina

Orçamento feito pela StarAirways, empresa que intermediou a negociação, teria sido inferior ao das demais

Lionel Messi viajou no avião que caiu. Ampliar foto
Lionel Messi viajou no avião que caiu. Télam

“Que desastre é o pessoal da AFA, por Deus.” A crítica que Lionel Messi publicou em junho no Twitter, em plena disputa da Copa América do Centenário, escondia alguns detalhes que só começam a vir à tona após o acidente aéreo que matou 71 pessoas na semana passada na Colômbia, incluindo grande parte da delegação da Chapecoense. O que une a tragédia à equipe alviceleste é o avião acidentado, modelo RJ85, que parou de ser fabricado em 2002 e, na América do Sul, era usado apenas pela modesta Lamia, empresa que foi fundada em 2009 na Venezuela e passou seis anos sem iniciar suas operações comerciais, até receber autorização para operar na Bolívia em 2015 – uma licença que acaba de ser cassada pelas autoridades bolivianas.

Entretanto, a Associação do Futebol Argentino (AFA) escolheu a Lamia, através de uma pequena empresa argentina chamada StarAirways, que apresentou uma oferta baratíssima para transportar a seleção entre 6 e 10 de novembro, quando ela enfrentou o Brasil no Mineirão pelas Eliminatórias da Copa. Assim que foi noticiado o acidente com a equipe catarinense, a imprensa recordou que apenas 18 dias antes Messi e seus colegas haviam viajado no mesmo avião. A AFA optou por esse serviço, em detrimento do oferecido pela Aerolíneas Argentinas, e os problemas do voo chamaram a atenção dos seus exigentes passageiros, habituados a viajarem de primeira classe, com todas as comodidades. “Faz muito barulho e os assentos são incômodos”, comentou um deles ao desembarcar em Belo Horizonte.

Seis empresas haviam apresentado orçamentos para essa viagem à entidade que comanda o futebol argentino. A licitação ocorreu na última semana de outubro, porque o aparelho da empresa argentina Andes, que costuma transportar a equipe nacional e os principais clubes locais, estava em manutenção. O primeiro dado que chama a atenção é que cinco dessas firmas apresentaram ofertas superiores a 100.000 dólares (344.000 reais). A única que ficava abaixo era a StarAirways, uma companhia limitada que, segundo seu contrato social, foi criada em 16 de novembro de 2011 com um capital inicial de 12.000 pesos (2.600 reais, pelo câmbio atual) e sede no luxuoso bairro de Puerto Madero. A oferta apresentada era de 99.900 dólares, mas esse não era o único envelope que oferecia serviços da Lamia. Outra companhia limitada, a Rotamund, que já teria trabalhado com o AFA na época do dirigente Julio Grondona, pretendia cobrar 185.000 dólares pelo mesmo serviço ou usando outra aeronave, um Boeing 737/200.

O EL PAÍS teve acesso aos orçamentos entregues a Omar Souto, gerente de seleções do AFA, e o que saiu ganhador tem algumas chamativas diferenças com relação aos demais, além do valor. O escrito enviado por fax à sede da AFA em Ezeiza tem a assinatura de Sara Muñoz, uma das proprietárias da concessionária junto com José Luis Garola, mas o documento não está em papel timbrado, não especifica o modelo da aeronave a utilizar e tampouco tem um telefone de contato. As tentativas de entrar em contato com os empresários foram infrutíferas. Miguel Hirsch, coordenador de imprensa da AFA, disse a este jornal que a instituição “acabou pagando pelo trajeto Buenos Aires-Belo Horizonte-Buenos Aires um total de 105.400 dólares”. O preço subiu por causa dos seguros dos jogadores e do valor de um catering que não constava na oferta inicial e que teria sido de 180.000 pesos (39.000 reais). “O custo excedeu o orçamento”, admitiu o porta-voz. O lucro da StarAirways teria sido em torno de 8.000 dólares.

O segundo menor orçamento foi o do setor de charter da Aerolíneas Argentinas, num total de 103.000 dólares mais 5.500 dólares de impostos, usando um Boeing 737/200. O preço final seria de 108.500 dólares, incluindo impostos e catering. A oferta, apesar de provir de uma das companhias mais importantes do continente – propriedade do Estado argentino –, com um avião mais moderno e com o catering incluído, foi rejeitada pelo AFA, que considerou excessiva a diferença de 3.000 dólares. O fato é que Messi e seus colegas subiram no avião da Lamia e, apesar de terem surgido rumores a respeito de uma denúncia que a companhia aérea teria recebido em Ezeiza, fontes do Ministério dos Transportes disseram que isso não é verdade. Seja como for, a partir de agora será preciso escutar todas as queixas, sobretudo as de Messi, com um pouco mais de atenção.

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