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O eco dos 111 tiros de Costa Barros

Morte de cinco jovens no Rio, com 111 disparos há um ano, destruiu a vida de seus pais para sempre

Jorge Roberto, o pai de um dos jovens mortos em Costa Barros.
Jorge Roberto, o pai de um dos jovens mortos em Costa Barros.

O alarme do pequeno Roberto toca invariavelmente às 6h30 sem que ninguém o desligue. Seu pai, Jorge Roberto Lima da Penha, que não sabe mexer no computador do filho para desativá-lo, o ouve tocar de segunda a sexta, uma recordação sonora de que o filho, que faria neste dezembro 18 anos, nunca mais acordou para ir à escola.

Roberto, um menino sorridente e apegado aos pais, morreu assassinado em 28 de novembro de 2015 junto a outros quatro amigos da infância, quando viajava num Fiat Palio branco no bairro de Costa Barros, no perigoso e pobre subúrbio do Rio. Os cinco comemoravam o primeiro emprego de Roberto como auxiliar de supermercado, mas na volta de uma lanchonete foram surpreendidos por uma viatura. Quatro policiais, que aguardavam a chegada de traficantes que teriam roubado a carga de um caminhão nas proximidades, descarregaram seus fuzis e revolveres contra o veículo sem nenhuma pergunta. Dizem que Wilton, Wesley, Cleiton, Carlos Eduardo e Roberto, de 16 a 25 anos, apenas puderam gritar de dentro do carro: “É morador, é morador!”.

Neste ano de luto, mais duas vidas se perderam. Joselita, a mãe de Roberto, com histórico de problemas cardíacos na família, morreu em julho, pouco depois de saber que os algozes de seu filho poderiam aguardar o julgamento em liberdade graças à concessão de um habeas corpus. Diagnosticaram-lhe anemia e pneumonia, mas sua família diz que morreu de tristeza. “Quando vi como ela ficou após saber da morte do Beto, eu sabia que não aguentaria esta pancada”, conta o ex-marido Jorge Roberto. Às lágrimas, o homem de 53 anos conta que doou todos as pertences do filho, mas que continua acompanhando mentalmente sua rotina, como se ele ainda estivesse vivo. Ele foi um dos primeiros a chegar ao lugar da chacina, e não consegue esquecer a imagem do carro perfurado com seu pequeno dentro. O adolescente recebeu 16 tiros. “É um vazio no coração um pai sepultar um filho assim. Você nunca supera essa dor”, diz ele abatido e com uma lágrima escorrendo pelo canto do rosto.

Morreu também em julho o irmão de Wilton, que naquela noite de novembro acompanhava o carro em uma motocicleta. Foi o único que se salvou e era a principal testemunha da chacina, mas se foi vítima de um aneurisma cerebral com 16 anos. “Ele foi também vítima do massacre. Se salvou das balas, mas não se recuperou da tristeza. O estresse o deixou doente da cabeça, igual à Joselita”, disse Carlos do Carmo, o pai de Carlos, numa reportagem da Agência Pública.

Adriana, mãe de um dos jovens mortos em Costa Barros.

Outras vidas se romperam no último ano. Adriana, a mãe de Carlos, deixou de enxergar sua filha de seis anos, e todo o resto, no momento em que viu o filho ensanguentado e inerte na parte traseira do carro. Carlos recebeu 11 tiros. Adriana não queria viver mais, sofria ataques de agressividade toda vez que via um policial. Um dia Adriana pegou o metrô até Copacabana e esperou que escurecesse para se lançar ao mar e deixar-se engolir pelas ondas. Na beira do mar, com os pés molhados, um rapaz desconhecido e inesperado a consolou, e ela resolveu voltar para casa. Tentou suicídio mais uma vez, mas resolveu viver. Ela tem um objetivo: “Algum dia eu vou sentar no tribunal e vou ouvir a sentença. Tantos anos em regime fechado. Pode ser que não aconteça, mas eu acredito nisso”.

Quando a chacina completou um ano, alguns dos pais dos jovens de Costa Barros se reuniram em frente ao Tribunal de Justiça do Rio, no centro da cidade, em homenagem aos filhos. Mônica, a mãe de Cleiton, de 18 anos, cujo cadáver teve de ser velado com o caixão fechado pelo estrago das balas, não foi. Também não havia comparecido ao último ato organizado em março, nem às audiências. Vivia perturbada desde as mortes, e naquele dia não tinha nem quatro reais para pagar sua passagem de metrô. Quatro reais, o preço de uma garrafinha de água na praia de Ipanema.

Os quatro policiais acusados, membros de um dos batalhões de polícia que mais mata no Rio, tiveram anulado o habeas corpus concedido em junho e voltaram à prisão, mas continuam recebendo o salário da corporação. “Eles deveriam ser expulsos. Eles mataram nossos filhos e nós estamos pagando o salário deles”, clama Adriana. Eles, sobre os que ainda pesa a acusação de terem forjado a cena do crime colocando uma arma perto do carro, afirmaram em uma das audiências não terem dado sequer um disparo contra o veículo. Foram 111.

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