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Com a morte de Leonard Cohen, o sussurro tranquilizador se apaga para sempre

Figura capital da música contemporânea, músico deu ao folk una profunda evocação poética

Leonard Cohen, no festival da Ilha de Wight em 1970.

O sussurro tranquilizador de Leonard Cohen se apagou. Essa voz de cálido inverno, como uma fogueira nas profundezas do bosque, iluminando o trânsito emocional dos desorientados. Leonard Cohen morreu aos 82 anos.

Figura capital da música contemporânea, Cohen demonstrou durante toda sua carreira que não existiam mentiras em sua obra. Cohen cantava a verdade. E, da forma mais assombrosa e dolorida possível, o fez pela última vez em You Want It Darker, seu último disco, lançado há apenas um mês. Um álbum que soava como uma despedida que, em sua crueza instrumental e sua voz íntima e sombria, ficou esculpido como um barqueiro de Hades, servindo como transporte ao outro lado da margem infinita. Como cantou na sombria composição que dá nome ao disco, o músico confessou com seu tom grave que estava “fora de jogo”, “quebrado” e “coxo”. “Estou preparado, meu senhor”, diz em um refrão que agora já se sabe que era premonitório. “Imagino que sou alguém que simplesmente renunciou a mim e a ti”, diz em Traveling Light. Era uma obra em que planejava a morte do começo ao fim. E ela finalmente chegou.

Nascido em Montreal, Canadá, em 1934, Cohen, que cresceu em uma família judia, foi poeta antes de ser músico. Entre 1959 e 1966 publicou cinco livros de poesia pelos quais recebeu grandes elogios da crítica e comparações com James Joyce. Mas em 1967 se mudou a Nova York e frequentou a Factory de Andy Warhol e o hotel Chelsea, nutrindo-se do burburinho artístico de uma metrópole imparável. Lá conheceu Judy Collins, a quem dedicou sua canção Suzanne, mas também John Hammond, o caçador de talentos que descobriu Billie Holiday e Bob Dylan, entre outros, e que lhe permitiu gravar seu primeiro álbum na Columbia.

Publicado em 1967, Songs of Leonard Cohen era uma fabulosa raridade em plena efervescência da psicodelia do rock. O cantor utilizava uma extraordinária sensibilidade para falar de assuntos sentimentais que levava à outra dimensão graças às suas poderosas imagens e conotações religiosas. Suzanne, Sisters of Mercy e So Long, Marianne soavam como clássicos do folk, com arpejos delicados, violões acústicos e o timbre espiritual de sua voz. Songs from a Room, que foi lançado apenas dois anos depois, percorreu com a mesma lucidez e estética febril essas emoções errantes. Story of Isaac, Bird on the Wire e The Partisan, regravação da canção francesa composta durante a Segunda Guerra Mundial La Complainte du Partisan, consolidaram o músico canadense como um compositor de primeira categoria.

Em 1974 veio New Skin for the Old Ceremony, produzido e arranjado pelo pianista John Lissauer, seu amigo. Através de canções como There is a War e Field Commander Cohen, o músico criou um amplo leque de metáforas sobre a guerra para se referir à batalha da existência, algo que marcaria sua lírica até o final de seus dias quando ainda em seu último disco incluiu Treaty, onde sugeriu o final de uma guerra com uma solução pacífica. Em 1977, se juntou ao prestigioso produtor Phil Spector para gravar Death of a Ladies Man, mas os resultados não foram muito satisfatórios e os dois se separaram em desentendimento.

Não aconteceu a mesma coisa com duas de suas próximas obras: Recent Songs e Various Positions, lançadas em 1979 e 1985 respectivamente. Nelas, o compositor manteve seu perfil de vigilante sentimental, com canções que terminaram por se transformar em clássicos de seu repertório como The Gypsy’s Wife, Dance Me to the End of Love e Hallejujah, uma de suas músicas mais regravadas. Mas o sucesso comercial viria em 1988 com I´m Your Man, onde tentou algo mais moderno ao incluir sintetizadores. Esse disco colocou o músico em uma órbita maior, ultrapassando as fronteiras do folk nas quais figurava.

Como um cavalheiro, com seu chapéu e sua magreza estilística, Cohen dava sex-appeal à nobre arte de se compor canções e cantá-las. Sua interpretação vocal, muitas vezes criticada e entendida como uma maneira de ser um anti-cantor, possuía uma sensibilidade maravilhosa. Com tons tranquilos e evocações poéticas, o músico se mostrou extraordinariamente íntimo e humano, capaz de esculpir com suas canções os sinuosos traços da alma. Um perfil que não perdeu em trabalhos como The New Songs, editado em 2001.

Os reconhecimentos, através de discos tributos, palavras recebidas de outros artistas e premiações, se sucederam a partir dos anos noventa enquanto acumulava alguns fracassos comerciais. Pior foi uma vida levada com fortes episódios de pânico e problemas com o álcool e a dependência de antidepressivos. Mas encontrou o sossego necessário no monastério budista de Mount Baldy até que em 2005 anunciou que havia sido traído e enganado por seu representante Kelly Lynch, que desviou milhões de dólares de sua conta.

Ficou arruinado. Precisou vender até sua casa para seguir adiante. Mas foi o detonador para que voltasse à estrada mais forte do que nunca, protagonizando alguns shows magníficos de quase três horas. Já septuagenário, Cohen demonstrou que, além de conseguir sanear as contas com as apresentações, estava em uma forma invejável. Os discos Old Ideas (2012) e Popular Problems (2014) estavam repletos de baladas e meios tempos de uma proposta fascinante, nos quais reivindicava a maturidade e a reconciliação do passado com o presente.

Fascinado pela figura de Federico García Lorca, quando aos 15 anos encontrou um livro do poeta em uma livraria, o músico recebeu o Prêmio Príncipe de Astúrias das Letras em 2011. Na entrevista coletiva para receber a premiação, disse que Lorca foi o poeta que “mais o influenciou” em sua juventude. “Foi o primeiro poeta que me convidou a viver em seu mundo”, afirmou. Tanto que deu à sua primeira filha o nome de Lorca. Em 1986 participou do disco Poetas em Nova York, em que artistas como Lluís Llach, Paco e Pepe de Lucía, George Moustaki e Angelo Branduardi musicalizaram, como homenagem, poemas de Lorca.

Como o gênio que era, sua morte, da mesma forma que fez David Bowie com Blackstar, foi anunciada em You Want it Darker, um belo testamento que agora mostra toda sua força esplendorosa. O sussurro do guardião sentimental do folk se apagou definitivamente, ele que se manteve sempre fiel a sua figura de sedutor inteligente que, como escreveu em seu hino Dance Me to the End of Love, dançou com todos nós até o fim do amor, através do pânico e da beleza, como um violino em chamas, até nos mostrar suavemente nossos próprios limites.

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