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ENTREVISTA

Leonard Cohen: “Se soubesse de onde saem as boas canções, iria até lá mais vezes”

O cantor e compositor apresenta seu novo disco, “You want it darker”, no dia em que Dylan ganha o Nobel: “É como colocar uma medalha no Everest”, diz com admiração

Leonard Cohen, na capa de seu novo disco, “You want it darker”.

Leonard Cohen entra na sala com um grande sorriso. Move-se como se flutuasse, com terno preto, camisa cinza e chapéu Borsalino. Quando se aproxima do microfone para responder as perguntas, essa voz profunda e ao mesmo tempo quente e reconfortante inunda a sala. Seu novo disco, You want it darker, acabou de tocar para a imprensa internacional. Fala de amor, de despedida, de fim de algo. Sua música volta a conseguir essa sensação envolvente, um veículo para que o velho sábio canadense recite seus poemas. Na capa aparece Cohen com esse terno e esse chapéu, óculos escuros, inclinando sobre uma janela, como se estivesse viajando e fumando. Um momento, ele não tinha parado de fumar? "Existem caras que não são confiáveis", responde.

Cohen mostrou seu novo trabalho na quinta-feira à noite na residência do cônsul do Canadá em Los Angeles, Califórnia. Nas últimas horas tudo ao redor deste disco tem aroma de despedida de um homem de 82 anos com as forças esgotadas, embora em plenas faculdades artísticas. Em uma longa entrevista na revista The New Yorker, publicada no dia anterior, Cohen impressionou seus fãs dizendo: “Estou preparado para morrer”. Na faixa-título do disco, canta: “Hineni, Hineni (aqui estou, em hebraico) / Estou pronto, Senhor”. Assim, a primeira pergunta é sobre sua saúde. “Disse que estava pronto para morrer. Acho que estava exagerando. Eu pretendo viver para sempre”.

“Qualquer compositor, e Dylan entende isso melhor do que ninguém, sabe que vai escrever canções de todas formas”, continua Cohen. “Se tiver sorte, mantém o veículo saudável e preparado ao longo dos anos. Se tiver sorte, porque seus propósitos têm pouco a ver com isso. Durar muito realmente não é sua escolha”.

A referência a Bob Dylan vem à mente. Todos estão conscientes de que há apenas 12 horas o mundo da música foi abalado pelo anúncio de que o Prêmio Nobel de Literatura deste ano será de Dylan. No ambiente está presente o fato de que Cohen sempre esteve nas apostas para o dia em que o comitê sueco decidisse premiar um desses dois grandes poetas que, além disso, cantam. O prêmio Príncipe de Astúrias o reconheceu em 2011. Nem é preciso perguntar a Cohen sobre o prêmio. “Vou dizer uma coisa sobre o Prêmio Nobel. Para mim, é como colocar uma medalha no Monte Everest por ser o mais alto do mundo”, disse. Dylan é tão grande, de acordo com Cohen, que o prêmio é apenas um detalhe, além de algo óbvio.

“Costumo dizer que se soubesse de onde saem as boas canções, iria até lá mais vezes”, Cohen respondeu quando perguntado sobre sua rotina criativa. “Todo mundo tem seu próprio sistema mágico que utiliza com a esperança de abrir os canais. Minha mente sempre foi muito desorganizada, então procuro maneiras de simplificar o ambiente. Porque se o meu ambiente está tão desorganizado quanto minha cabeça, não poderia nem ir de uma sala para outra. O sistema funciona para mim, apesar de precisar suar cada palavra”.

Os poemas de You want it darker voltam a estar cheios de referências religiosas, algo comum na música de Cohen. Deus é um personagem tão presente em suas canções quanto suas amantes. Mas é apenas uma referência cultural, explica. “Nunca me vi como uma pessoa religiosa, não tenho uma estratégia espiritual. Ocasionalmente, sinto a graça de outra presença na minha vida, mas não lhe dou uma estrutura espiritual. Esse é o vocabulário com o qual cresci. A paisagem bíblica é muito familiar e é normal que use esses pontos como referência. Durante algum tempo foram referências universais e todos entendiam e repetiam. Não é mais assim. Mas continua sendo minha paisagem. Tento ter certeza de que essas referências não sejam muito estranhas”.

A aparente fragilidade física de Cohen contrasta com sua atividade artística. “Talvez nunca esteve tão potente”, diz seu filho Adam, que produziu o disco. “Está no auge de seu poder. Continua sendo, como ele diz, um trabalhador das canções”. Cohen pertence, como Dylan, a uma geração que está desaparecendo depois de mudar o mundo e influenciar a cultura por meio século. “Está passando muito rápido”, diz Adam Cohen. E quem vai substituí-los? “O mais profundo que é feito agora são algoritmos”.

“Obrigado por terem vindo, amigos”, despede-se Cohen, depois de falar da família, da velhice e da sua religião e de recitar um poema aos participantes, como presente. “Espero que possamos fazer isso outra vez. Pretendo viver até os 120 anos”.

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