Os melhores livros em espanhol dos últimos 25 anos (mas você pode lê-los em português também)

Roberto Bolaño escreveu este romance quando sabia que estava condenado à morte e foi publicado um ano depois do seu falecimento. Salvo talvez seu título enigmático –o número de um ano tão distante–, nada revela aquela luta; tudo neste relato é a expressão jubilosa de uma imaginação em estado de graça: múltipla, rápida, nítida, joga com ecos da literatura mundial e outros da própria vida. É um pináculo das letras pós-modernas –embora o termo cheire a obviedade–, mas a verdade é que Bolaño é também um pós do chamado boomlatino-americano. Sua americanidade é talvez menos intensa, mas mais extensa, mais universal: boa parte de sua obra é um diálogo irônico com seus grandes predecessores. Os romances procuram pôr uma ordem, mas a Ordem é, no fundo, um reconhecimento e até mesmo uma homenagem à superioridade estética e epistemológica da Desordem e do Caos. '2666' se divide em cinco partes que se complementam e convergem. Uma nota manuscrita (reproduzida na edição mais recente) enumera o que chama de “linhas, pontos de fuga, folhetins” que o estruturam. Como 'Os Detetives Selvagens', '2666' começa como uma questão coletiva na qual viver e ler se entrelaçam; quatro jovens e desorientados filólogos querem saber mais sobre um misterioso escritor alemão, Benno von Archimboldi, do qual ninguém sabe nada. Mas em seus erráticos passos pelo campus global, acabam chegando (como no final de 'Os Detetives...') ao Estado mexicano de Sonora: a uma cidade que, sob o nome de Santa Teresa, esconde Ciudad Juárez. Nas duas partes seguintes viajam ao mesmo local um exilado chileno, Óscar Amalfitano, professor de filosofia à beira da loucura, e um jornalista afro-americano, Oscar Fate, cuja história é a imitação perfeita de um clássico romance noir. O folhetim final do livro conta a vida daquele que todos procuram, o escritor Archimboldi, que é um animado conto da Segunda Guerra Mundial na Europa. Que também desemboca em Santa Teresa, porque seu sobrinho é talvez um dos assassinos. E no meio, “A parte dos crimes”, narração concisa e aterradora dos feminicídios que desde 1993 tornaram tristemente célebre o nome de Ciudad Juárez. Esse vulcão de horrores é o centro de convergência das linhas, fugas e folhetins. E estas 400 páginas (das quais nenhum leitor sai ileso) dão sentido às outras 800. Um personagem de '2666' diz que prefere as obras breves às imensas (cita Billy Budd diante de Moby Dick, falando de Melville); Bolaño o escreveu porque, em seu caso, pensava o contrário. Não há dúvida de que é o mais admirável relato do último quarto de século. Talvez também seja o do imediatamente anterior e é muito possível que seja o do próximo/ JOSÉ-CARLOS MAINER
Roberto Bolaño escreveu este romance quando sabia que estava condenado à morte e foi publicado um ano depois do seu falecimento. Salvo talvez seu título enigmático –o número de um ano tão distante–, nada revela aquela luta; tudo neste relato é a expressão jubilosa de uma imaginação em estado de graça: múltipla, rápida, nítida, joga com ecos da literatura mundial e outros da própria vida. É um pináculo das letras pós-modernas –embora o termo cheire a obviedade–, mas a verdade é que Bolaño é também um pós do chamado boomlatino-americano. Sua americanidade é talvez menos intensa, mas mais extensa, mais universal: boa parte de sua obra é um diálogo irônico com seus grandes predecessores. Os romances procuram pôr uma ordem, mas a Ordem é, no fundo, um reconhecimento e até mesmo uma homenagem à superioridade estética e epistemológica da Desordem e do Caos. '2666' se divide em cinco partes que se complementam e convergem. Uma nota manuscrita (reproduzida na edição mais recente) enumera o que chama de “linhas, pontos de fuga, folhetins” que o estruturam. Como 'Os Detetives Selvagens', '2666' começa como uma questão coletiva na qual viver e ler se entrelaçam; quatro jovens e desorientados filólogos querem saber mais sobre um misterioso escritor alemão, Benno von Archimboldi, do qual ninguém sabe nada. Mas em seus erráticos passos pelo campus global, acabam chegando (como no final de 'Os Detetives...') ao Estado mexicano de Sonora: a uma cidade que, sob o nome de Santa Teresa, esconde Ciudad Juárez. Nas duas partes seguintes viajam ao mesmo local um exilado chileno, Óscar Amalfitano, professor de filosofia à beira da loucura, e um jornalista afro-americano, Oscar Fate, cuja história é a imitação perfeita de um clássico romance noir. O folhetim final do livro conta a vida daquele que todos procuram, o escritor Archimboldi, que é um animado conto da Segunda Guerra Mundial na Europa. Que também desemboca em Santa Teresa, porque seu sobrinho é talvez um dos assassinos. E no meio, “A parte dos crimes”, narração concisa e aterradora dos feminicídios que desde 1993 tornaram tristemente célebre o nome de Ciudad Juárez. Esse vulcão de horrores é o centro de convergência das linhas, fugas e folhetins. E estas 400 páginas (das quais nenhum leitor sai ileso) dão sentido às outras 800. Um personagem de '2666' diz que prefere as obras breves às imensas (cita Billy Budd diante de Moby Dick, falando de Melville); Bolaño o escreveu porque, em seu caso, pensava o contrário. Não há dúvida de que é o mais admirável relato do último quarto de século. Talvez também seja o do imediatamente anterior e é muito possível que seja o do próximo/ JOSÉ-CARLOS MAINER