São Paulo

O povo disse: Antonio Nóbrega fica

Instituto Brincante permanece na Vila Madalena após ser obrigado a sair de sede Novo local é mais amplo e foi construído com verba levantada via crowdfunding

Rosane Almeida e Antonio Nóbrega na atual fachada do Instituto Brincante.
Rosane Almeida e Antonio Nóbrega na atual fachada do Instituto Brincante.Silvia Machado

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A história, de raro final feliz, já se tornou símbolo de resistência cultural e urbanística em São Paulo. Tudo começou no primeiro semestre de 2014, quando o casal Antonio Nóbrega e Rosane Almeida recebeu uma notificação para que a propriedade de 800 m² onde instalou um teatro nos anos 90 fosse desocupada, dando lugar a um prédio. O espaço era alugado, ainda assim nunca fez parte dos planos dos dois – ele pernambucano, ela curitibana – sair de lá. “Aí vivenciamos muitas experiências, buscando ir além das próprias manifestações culturais populares e resgatando o ‘estar bem na vida’ que elas trazem. Como resposta, esse bairro nos acolheu. Sair daqui, tirar o Brincante nessas condições, seria passar por cima dessas reflexões”, afirmou Rosane à época.

Seguiram meses de disputa judicial. Já que a saída não era mudar de ambiente, o Brincante foi estimulado por alunos e frequentadores assíduos a mobilizar a sociedade em prol de sua permanência. A campanha #FicaBrincante circulou pelas redes sociais, incluiu uma imensa ciranda que reuniu 10.000 pessoas na área externa do Auditório Ibirapuera em agosto de 2014 e, com a decisão da Justiça de que o imóvel deveria ser desalojado a partir de janeiro de 2015, culminou em uma ação de crowdfunding para a construção da nova sede ao lado da anterior (onde Nóbrega tinha dois pequenos sobrados).

Bingo: foram levantados nas redes mais de 100.000 reais de contribuição popular. “Além disso, ganhamos do Instituto Alana, parceiro nosso, cerca de 1 milhão de reais. Conseguimos também a doação de equipamentos de luz e som, dados pela Associação Novo Teatro de São Paulo, e 400 m² de vidro e espelho cedidos pela Abividro”, complementa Nóbrega. Para o artista, a campanha "mobilizou as pessoas, o interesse de muita gente e trouxe à discussão as imobiliárias que diluem um pouco a nossa cidade”. Dando impulso à mobilização, enquanto ela acontecia, o Brincante foi considerado (junto com outros 22 teatros de rua paulistanos) patrimônio imaterial pelo Conpresp – o órgão municipal de preservação do patrimônio histórico, cultural e ambiental.

O novo Brincante – agora circundado pelas obras do empreendimento que o desalojou, como um oásis no deserto – é um espaço ressaltado pela bela fachada de madeira e vidro. O projeto arquitetônico foi feito pelo escritório Bernardes Arquitetura, que não cobrou pelo trabalho. O que Antonio Nóbrega pensa desse desfecho? “Não gosto muito da expressão vencedor, mas vejo que estávamos corretos de não ter cedido à pressão imobiliária, de ter-nos mantido obstinados. Foi uma empreitada sortuda”, comemora. Em reconhecimento ao apoio recebido, ele diz que “o que tenho que fazer é mostrar serviço”. “No andar do mundo hoje, e especialmente do Brasil, não devemos nos encarar como donos do Brincante, e sim pensar no coletivo. Sem ser presunçosos, dizer que vamos mudar o mundo, mas ajudando que as coisas mudem um pouquinho. Quem se interessa por arte e cultura é capaz disso”.

Comemoração

O desfecho feliz dessa história começa a ser comemorado nessa quarta-feira, com uma festa para convidados para a inauguração da nova casa. A partir de 7 de outubro, sexta, tem início uma programação que inclui, além dos cursos regulares, um show do septeto de jazz brasileiro Silibrina com Gabriel Nóbrega, a tradicional sambada com Antonio Nóbrega e convidados e o espetáculo “Brincante & Cia” para pais e filhos com Rosane Almeida. E mais, rumo aos 24 anos do Instituto Brincante – que o casal vitorioso celebrará com uma aula-espetáculo de cultura popular brasileira, em pleno coração da hoje especulada Vila Madalena.