Marta Suplicy, lembrada por legado social e assombrada por elo com Temer

Incongruências da candidata que caiu nas pesquisas têm gerado memes e troca de acusações no PMDB

Marta Suplicy durante ato de filiação ao PMDB
Marta Suplicy durante ato de filiação ao PMDBJorge Araújo (Folhapress)

Há meses, em toda entrevista que dá, a candidata é questionada sobre o assunto. Em conversa com o EL PAÍS, em junho, disse que a diferença entre PT e PMDB é que o primeiro tem na corrupção um projeto de perpetuação no poder, enquanto o segundo tem algumas pessoas investigadas, mas “não tem essa canalização para uma permanência no poder”. Também disse que para seus eleitores mais cativos _ seu recall na periferia da cidade é seu principal capital político _pouco importa que ela tenha trocado de lado no impeachment de Dilma Rousseff.

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Não é possível aferir com exatidão se as explicações têm convencido o eleitorado, mas alguns indicadores mostram que não. Nas pesquisas Datafolha e Ibope, Marta apresentou uma queda nas intenções de votos nos últimos dias e hoje aparece à frente numericamente, mas empatada tecnicamente em terceiro lugar com Fernando Haddad (PT). Enquanto tenta se afastar de qualquer coisa que lembre remotamente o PT – em entrevista a Folha de S. Paulo, por exemplo, chegou a dizer que nunca se colocou “como alguém de esquerda” e tem dito repetidamente que se arrepende de “erros do passado” –, não consegue conquistar a simpatia de setores de alta renda antipetistas e continua disputando o voto de periferia com Celso Russomanno (PRB) e Haddad.

A neopeemedebista parece ter entrado numa encruzilhada. Ela deixou um partido com problemas de imagem, mas seu esforço de antipetista não é suficiente. Na outra ponta, os novos aliados que viabilizaram sua candidatura _além do PMDB, o PSD de Gilberto Kassab e de seu vice, Andrea Matarazzo, até há pouco um eminente tucano_ tampouco a livram de constrangimentos e ruídos. A situação é tal que, de cerca de dez dias para cá, a questão também virou ponto de conflito interno no próprio partido de Temer.

"A candidata Marta deturpa os fatos. O Governo federal nunca disse que vai aumentar a carga horária do trabalhador", disse um quadro importante do PMDB

Em parte do seu antigo eleitorado considerado mais ideológico e de opinião, Marta não escapa dos rótulos de "golpista" e "traíra". O problema é que os mais pragmáticos, que a citam por seu legado com a criação do Bilhete Único e os CEUs – que favoreceram, principalmente, os paulistanos de classe mais baixa, podem acender o alerta por causa dos acenos de Temer. Desde que o Governo Temer assumiu interinamente, o fantasma de cortes ou congelamentos de gastos sociais têm rondado as notícias. Preocupada com os possíveis efeitos para sua campanha, Marta aproveitou seu programa eleitoral para criticar as propostas de reforma trabalhista aventadas pelo Planalto. “O ministro do Trabalho, que pertence ao PTB, quer que o Congresso Nacional aprove a jornada de trabalho de 12 horas diárias para os trabalhadores brasileiros. Eu sou totalmente contra”, disse.

Segundo a coluna da jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, o comentário abriu uma linha de fogo direta entre Marta e o PMDB. Na página de Arlon Viana, chefe do gabinete da Presidência da República em SP e integrante das executivas do PMDB nacional, estadual e municipal, ele disse: “A candidata Marta deturpa os fatos. O Governo federal nunca disse que vai aumentar a carga horária do trabalhador”. Já a campanha da senadora licenciada culpa a “agenda maldita” do Planalto e a exploração que seus adversários vêm fazendo de sua relação com Temer pela queda nas pesquisas de intenção de votos. Em outro post, Viana prevê a derrota da candidata peemedebista: “Se voto útil for contra Marta, ela deverá terminar o primeiro turno em 4° lugar! Eu disse se for!!!!”.

Além disso, ela diz que o PT teria se afastado de algumas bandeiras históricas, muito caras a ela, como os direitos LGBT. Também neste quesito não conseguiu convencer parte do seu eleitorado mais tradicional e provoca desconforto tanto por ter aparecido ao lado do evangélico Cunha como ao defender a participação de um componente religioso no tratamento de usuários de drogas. Em um levantamento feito este ano na Parada LGBT, 41,5% dos participantes do evento disseram rejeitar a atual candidata.

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