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Se o golpe foi dado, tudo é permitido

Todo botequim, vai por mim, também tem aquela tese envergonhada: as instituições estão funcionando, nada fora da normalidade democrática

Cena de 'Aquarius' na praia de Boa Viagem, no Recife.
Cena de 'Aquarius' na praia de Boa Viagem, no Recife.Victor Jucá

Em todo boteco há um Ivan Karamazov de plantão. Juro. O do Bar do Meio, aqui no morro havaiano das Perdizes, me soprou diversas vezes nas últimas semanas, como se em um aviso prévio: “Se a Democracia levou uma surra e quase morre, tudo é permitido”. Os feios, sujos e malvados do estabelecimento, religiosamente, entenderam tudo. Não é preciso ler Dostoievski para saber o que está dentro daqueles livrões se você já é, por origem e humilhação cotidiana, um personagem do escritor russo.

Depois do golpe parlamentar travestido de impeachment, tudo tem sido permitido: uma farsa tirou o filme brasileiro Aquarius da corrida do Oscar; uma emboscada noturna do Congresso tentou apagar o “caixa 2” como crime e o Governo, em uma canetada de medida provisória do “poeta” Michel Temer, reformou o ensino médio. Adiós aulas de espanhol, sociologia, filosofia... A educação física, no país que se orgulhava das Olimpíadas até a semana passada, também dançou ao ritmo de polichinelo. Que bonito! Sem se falar no projeto das 12 horas de labuta etc etc.

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Todo boteco, do pé-sujo ao metido a chique, tem um elenco inteiro de Nelson Rodrigues de plantão. Caso do Caldinho da Codorna, no Recife. Não se falava outra coisa por lá na tarde desta quinta-feira a não ser na prisão “espetaculosa” do ex-ministro Guido Mantega. O mineiro, digo, o brasileiro, não é mais solidário nem mesmo no câncer, caríssimo Edgard —personagem da peça Bonitinha, mas ordinária, clássico nacional do tio Nelson Rodrigues. Somos todos Peixotos, para citar um canalha do mesmo drama, somos bichos escrotos, como no rock'n'roll dos Titãs.

Todo botequim tem algum sábio bebum a assobiar, na madruga, aquela sagrada do Aldir Blanc... Também vou aplicar a arte zen de consertar minhas ressacas morais e políticas, vou tentar, amigo vascaíno, eu prometo, em homenagem a estes grandes versos da língua geral dos homens de boa vontade: “Batidas na porta da frente/ é o tempo/ Eu bebo um pouquinho pra ter argumento/ Mas fico sem jeito, calado ele ri/ Ele zomba de quanto eu chorei/ porque sabe passar e eu não sei...”

É, meu caro Aldir Blanc, só o tempo sabe a resposta para esta tragicomédia brasileira. Quem dera os patrióticos paneleiros que incentivaram toda essa bagunça no coreto fossem os comparsas honestos daquele teu “Chá de panela” tocado pelo Hermeto, quem dera —nunca a bateria da cozinha teve tão bom e imaginoso uso barulhento.

Samba das instituições

Todo botequim, vai por mim, também tem aquela tese envergonhada: as instituições estão funcionando, nada fora da normalidade democrática. No que o Alfredinho, do Bip Bip, mostra como pendem os pratos da balança, na sua pedagogia em Copacabana. Dá o exemplo e volta às páginas corriqueiras de mais um volume do Noam Chomsky, uma das suas leituras permanentes.

No mesmo bairro carioca, uma brigada boêmia planeja uma operação a partir do Galeto Sat´s: revelar ao juiz Moro e aos procuradores de Curitiba por onde anda, no tour do raio gourmetizador dos melhores restaurantes do Rio de Janeiro, livre leve e solto, o casal Eduardo Cunha/Claudia Cruz, entre outros folgazões do bloco recreativo dos inimputáveis.

Não adianta, nem pra disfarçar o homem de preto prende um grandão do outro lado, deixa quieto, um tucano engaiolado na capital paranaense nem no fim do mundo de Nostradamus... Motivos e crimes não faltam. Ivan Karamazov está vendo, justo ele que imaginou que Deus estava morto, bem antes de Nietzsche, e tudo seria possível.

Assim falaram esses trutas. Ou quase, dependendo das versões e das tretas. Relaxa. Melhor seguir o conselho do Vampiro de Curitiba, que no livrinho mais porreta, diz algo assim, se o Dalton Trevisan não me engana o juízo a essa altura:

“O amor é como uma corruíra no jardim — de repente ela canta e muda toda a paisagem.”

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de O Livro das mulheres extraordinárias (editora Três Estrelas) e comentarista do programa Papo de Segunda (GNT).

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