Foi assim que os assassinos da família brasileira em Guadalajara apagaram seus rastros

“Quem fez isso não o fez pela primeira vez”, afirmam os investigadores

Agentes da Polícia Científica analisam a casa
Agentes da Polícia Científica analisam a casaPepe Zamora (EFE)

Os assassinos usaram “um cutelo ou um machado”, indicaram os investigadores. “Fizeram um trabalho minucioso.” Além disso, foram extremamente cuidadosos em sua fuga. “Entre as poucas coisas encontradas na casa, que mal tinha móveis nem comida e que parecia mais um esconderijo temporário que uma habitação, havia restos de documentos das vítimas, propositalmente destruídos e que tiveram que ser reconstituídos para conseguir checar sua origem.” Preocuparam-se tanto em não deixar provas quanto em dificultar a identificação de suas vítimas.

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Isso explica por que a confirmação da identidade do casal veio do Brasil, e não da Espanha, onde foram feitos os exames de DNA, diante do estado de “brutal deterioração” dos corpos depois de pelo menos um mês em sacos plásticos. Foram os familiares que entraram em contato com o consulado do Brasil em Madri e com o Ministério de Relações Exteriores brasileiro para tentar saber se eram seus parentes. Suspeitaram devido ao tempo que ficaram sem ter notícias deles e porque ambos tinham 39 anos de idade e dois filhos. “Sabíamos que tinham se mudado e achávamos que estivessem sem Internet, mas ao saber da notícia...” Seus piores temores se confirmaram. Eram Marcos Campos Nogueira e Janaína Santos Américo, oriundos de João Pessoa, no Estado da Paraíba, no Nordeste do Brasil.

Ele, que “viajava muito”, segundo seus parentes, vivia havia mais de uma década na Espanha, para onde supostamente viajou por razões profissionais. “Era gerente de um restaurante em sua cidade e se mudou para tocar outro negócio na Espanha”, afirmam. A publicação de sua foto em meios de comunicação espanhóis permitiu seu reconhecimento nos lugares pelos quais passou, viveu ou trabalhou. Marcos Nogueira se movimentou bastante pela Espanha. Primeiro viveu, em duas temporadas, em Corunha (Galícia), trabalhando numa padaria, segundo afirmaram seus compatriotas na cidade. Entre um período e outro voltou ao Brasil. Depois trabalhou em Múrcia e em Valência, aparentemente como camareiro. Em seguida tocou um restaurante em Valladolid e por fim trabalhou em outra casa de comida brasileira em Alcalá de Henares, enquanto viviam em Torrejón de Ardoz e depois em Pioz, para onde tinham se mudado somente dois meses antes, com um contrato de aluguel assinado por ele mesmo em meados de julho por 500 euros (cerca de R$ 1.800) por mês.

Ela, filha de um conhecido empresário de João Pessoa, casou-se com ele no Brasil em 2013. Depois foram para a Espanha, junto com sua primeira filha. Valladolid –onde seus parentes os visitaram–, Torrejón e Pioz. Três destinos em menos de três anos. Essa mobilidade, somada ao fato de que desde 2010 a conta no Facebook de Marcos não era alimentada e às características da cena do crime, leva os investigadores a pensar que “fugiam de algo ou de alguém”. Alguém, “que deixaram entrar em casa sem resistir, porque nenhuma entrada foi forçada, era conhecido”.

Dívidas

Dívidas. Essa palavra ecoa quando se fala do objeto desse impiedoso crime quádruplo. Janaína tinha pedido mil euros para sua família recentemente, supostamente “para ir ao dentista e, especialmente, para pagar os dois meses de fiança pedidos para o aluguel”, segundo conta um parente. E afirma que Marcos se aborreceu quando soube que ela tinha pedido dinheiro a seus familiares, “porque iam achar que ele não era capaz de manter a própria família”.

Os investigadores consideram as “contas pendentes” de Marcos. E pensam também nos “feios negócios ligados ao narcotráfico”, um obscuro nicho no qual afogar o desespero e conseguir dinheiro fácil e rápido. Mas também um ninho de assassinos, como os que parecem ter desejado encerrar essas contas de uma vez por todas, “com seu próprio método”, cometendo um massacre.

O “método” empregado, mencionado pelos investigadores, choca-se frontalmente com os crimes por vingança realizados no Brasil. Não é nada habitual que crianças sejam mortas, “costuma-se condenar quem faz isso, vão atrás deles”, dizem os especialistas. O fato de os corpos terem sido abandonados na casa aconteceu, na opinião dos especialistas, para facilitar a fuga dos assassinos, para não levantar suspeitas imediatas e para ganhar tempo para escapar. As investigações prosseguem, sob segredo judicial, e chegam à Espanha familiares dos dois lados para uma futura repatriação dos corpos.

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